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O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança.  Continue reading O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

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Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

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Une femme avec son enfant parmi un groupe de réfugiés et de migrants près de la ville de Gevgelija, dans l’ancienne République yougoslave de Macédoine. Photo UNICEF/Tomislav Georgiev

 

Na abertura da 31ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, altos funcionários da ONU apelaram os Estados membros a não deixar ninguém de lado, e nomeadamente, a demonstrar compaixão pelos civis que fogem às violações sistemáticas dos direitos humanos nos seus países de origem.

“Durante o meu mandato, sublinhei a importância das práticas democráticas, começando pelo direito das pessoas a serem ouvidas através das urnas”, declarou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diante dos membros do Conselho para os Direitos Humanos.

Ban Ki-moon insistiu, igualmente, no seu compromisso pelos direitos de todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica e religiosa, da sua classe social ou da sua orientação sexual.

“Em muitos países, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e pessoas intersexuais são vítimas de violência brutal, e por vezes mortal”, afirmou o chefe da ONU, lamentando o número de pessoas no mundo ainda sujeitos à negação sistemática dos seus direitos. Continue reading Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

RFI – Expulsão dos migrantes de Calais

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http://pt.rfi.fr/franca/20160225-justica-francesa-autoriza-expulsao-dos-migrantes-de-calais

No Magazine Vida em França analisamos a decisão da justiça francesa dar luz verde para a demolição de parte do campo de refugiados em Calais, norte do país. Segundo as autoridades locais, o despejo afecta entre “800 a 1000” pessoas, as organizações humanitários falam de mais de 3000, entre as quais 300 crianças desacompanhados.

A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

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De que guerras fogem aqueles que morrem afogados no Mediterrâneo?

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Refugiados líbios à procura de Paz depois da destruição do seu país pelas bombas largadas em nome de uma falsa Democracia

Qualquer ser humano que possua um coração feito de carne dentro do peito chora com o sofrimento dos milhares de homens e mulheres que foram (e são) engolidos pelas ondas quando, desesperados, resolvem arriscar as suas vidas e as das crianças que carregam nos braços em busca de uma vida digna. Apenas as carcaças desumanizadas ficam indiferentes perante esta situação de catástrofe humanitária, recusando-lhes qualquer tipo de ajuda e fechando-lhes a porta na cara. E vemos que, inacreditavelmente, o mundo anda cheio dessas carcaças ambulantes.

É sabido que, hoje, os migrantes/refugiados que tentam a travessia do Mediterrânio com o objetivo de penetrar no limes da “Fortaleza Europa” vêm essencialmente de duas regiões do mundo: o Médio Oriente e o Norte de África. Sabemos, também, que esses migrantes/refugiados fogem da guerra e das misérias que ela arrasta.

Mas urge colocar a questão essencial. Um autoquestionamento que uma boa parte da população europeia – preocupada com a sua própria sobrevivência e comida pelos seus egoísmos nacionais, que tão bem definem a Europa historicamente –, nem sequer consegue levar a cabo. Essa incapacidade de se interrogar é, como não poderia deixar de ser, exacerbada pela informação noticiosa “empacotada” das televisões e dos jornais, fornecida e orientada por um regime, aquele em que vivemos, que é, ele próprio, o principal causador de todas essas desgraças. Não só das nossas, europeus, mas também das alheias, das dos desgraçados que morrem no mar.

E é esta a questão que urge colocar: “Quem promove as guerras que expulsa essa gente das suas terras?”.

A resposta é simples. Somos nós.

Somos nós, todos aqueles que elegeram os governantes que ordenaram o bombardeamento e a destruição da Líbia, fazendo-a recuar aos seus tempos tribais enquanto as “nossas” companhias petrolíferas matam a sua sede com o petróleo roubado ao povo líbio.

Somos nós, todos aqueles que deram o seu voto a políticos que atiram gasolina para cima da guerra civil síria e destruíram o Iraque, recorrendo a mentiras e a sofismas para – a história repete-se – encherem os bolsos dos acionistas da SHEL, da EXXONMOBIL ou da ENI.

Somos nós, todos aqueles que aplaudem quem gerou, apoia, treina e arma grupos terroristas que arrastam as populações de imensos territórios para um obscurantismo medieval.

Sempre que virmos uma criança a boiar morta nas águas do Mediterrâneo, lembremo-nos do nosso voto que, num qualquer domingo de sol, foi cair dentro de uma urna e elegeu Nicolas Sarkozy, o principal fomentador da destruição da Líbia pelas bombas da NATO.

Sempre que virmos um barco virado do avesso e rodeado de cadáveres, lembremo-nos de quem elegemos para os cargos de chefia da União Europeia, uma das instituições responsáveis pelos desastres sírio e iraquiano.

Sempre que virmos seres humanos como nós a serem pescados das águas, lembremo-nos dos cordiais cumprimentos entre os políticos que elegemos e o rei saudita, o grande apoiante material e ideológico do Estado Islâmico, esse antro de fanáticos que tanto degola cristãos como enforca muçulmanos.

Façamos, portanto, um mea culpa, pois ele é mais do que necessário.

O Iraque de Saddam Hussein, a Síria de Assad ou a Líbia de Kadhafi, longe de serem Estados livres, eram países modernos, com o maior nível de desenvolvimento humano das respetivas regiões. O Iraque, a Síria e a Líbia passaram de ditaduras estáveis a infernos ardentes, levando as suas populações (e as dos países vizinhos) à miséria e à morte. Qualquer ser humano que estivesse nessa situação faria o mesmo que fazem os milhares de migrantes/refugiados: tentaria a travessia para um lugar de paz que lhes permitisse uma vida digna.

A maneira infantil como nós usamos o nosso voto é responsável pela morte dessa gente. Um voto irrefletido e leviano em quem promove a guerra é uma arma de destruição maciça.

Só existe, portanto, uma solução para acabar com a tragédia no Mediterrânio.

E ela é a seguinte: é hora de usarmos a democracia que temos para escorraçar do Poder os políticos que fomentam as guerras nos outros países e as crises económicas nos nossos.

Só elegendo Governos de rutura com este paradigma que visa ingerir na vida política de terceiros e destruir os países do Médio Oriente ou de África para lhes sacar petróleo ou outras matérias-primas (com o intuito de, assim, alimentar um regime moribundo baseado no dinheiro fácil, na especulação e na exploração) conseguiremos estancar a hemorragia de vidas que tinta o Mediterrâneo de vermelho.

O voto naqueles que defendem a paz e o respeito mútuo entre todos os povos é a nossa arma. Seja para nos salvar a nós próprios, seja para salvar aqueles que morrem na travessia do mar. Para isso, basta utilizar o voto com seriedade, convicção e, claro, maciçamente.

I’m not a number

« Au loin, à distance, j’ai vu quelque chose. En m’approchant, j’ai vu que ça bougeait. De plus près, j’ai vu que c’était un homme. Face à face, j’ai vu que c’était mon frère. » Proverbe berbère

O terror abateu-se mais uma vez sobre Paris, estamos de novo em estado de choque, siderados!
O terrorismo tem como desígnio aniquilar a nossa força, a nossa resistência mas sobretudo a nossa razão.
Ao terrível « déjà vu » das imagens televisivas, junta-se o « déjà vu » de certos comentários e reações. Desde as essenciais e emocionantes reações de amizade, solidariedade e humanismo aos já usuais « deslizes » xenófobos e islamofóbicos, e agora mais um álibi para não exercer o nosso dever de receber refugiados, porque aí estariam terroristas dissimulados. Ora outro dos desígnios do terrorismo é precisamente o clássico « dividir para reinar », armadilha esta que indignos políticos de direita e extrema-direita não se coíbem de tirar partido. http://www.liberation.fr/…/a-droite-et-a-l-extreme-droite-c… .
Outra ideia que vamos ver de novo surgir é a comparação do número de mortos e a incompreensão perante a diferença de tratamento entre barbáries. Na altura dos atentados do Charlie Hebdo, surgiu a questão da diferença de consideração entre Charlie e Baga http://www.courrierinternational.com/…/massacres-de-boko-ha…http://www.dailymaverick.co.za/…/2015-01-12-i-am-charlie-b…/  e agora surgirão vários comentários a denunciar a diferença de tratamento entre os mortos em França, na Síria, no Iraque ou no Mediterrâneo.
Ora várias considerações:

1. Não há razão para fazer comparações quantitativas, uma vida é uma vida, e não é a mobilização por Paris que deve ser criticada mas a falta de mobilização pelas populações que nos são mais longínquas.

2. É uma reação perfeitamente normal preocuparmo-nos em prioridade com os que nos estão próximos, com aqueles com que melhor nos identificamos pois é uma questão de pura sobrevivência da espécie, é uma disposição natural que constitui uma vantagem seletiva. Permitimos a sobrevivência da espécie de forma mais efetiva se concentramos os nossos esforços sobre aqueles que nos são próximos, sobre aqueles sobre quem podemos exercer a nossa ação de forma imediata.
A natureza é pragmática nestas coisas!

3. Quanto maior o número de vítimas menor é a empatia porque justamente a identificação é mais difícil, não é por acaso que nomear as vítimas tem mais impacto como no caso do pequenino Aylan, ou do nome Charlie. Os slogans “Je suis Charlie” ou “Je suis Aylan” são disso uma demonstração.

Mas bem sabemos que há uma diferença entre “o que é” e aquilo que “deve ser”.
A maneira de contornar estes comportamentos naturais é de lhes acrescentar princípios. E o princípio de que “uma vida é uma vida e tem o mesmo valor que qualquer outra”, resolve em parte o nosso dilema, quer esta vida esteja em Paris, Beirute ou numa desoladora embarcação de infortuna no Mediterrâneo.

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