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Eu não voto no monhé!

“Eu não voto no monhé” ouvi eu mais de uma vez à porta do Consulado Geral de Portugal em Paris durante a campanha das legislativas em 2015. O monhé era o atual primeiro-ministro António Costa…

Várias vozes caridosas, não racializadas, que se autoproclamam antirracistas (e que eu chamaria de aliados), levantam-se para dizer que os negros foram agredidos no Bairro da Jamaica por serem pobres e não por serem negros e que “os brancos pobres vivem a mesmíssima coisa”.  E ainda que um negro rico ou “bem-sucedido” não é alvo de racismo. Ora, eu não me vou pronunciar sobre se no caso específico houve ou não racismo por parte da polícia, que bateu em mulheres indefesas e espezinhou um homem que já estava imobilizado no chão. O que posso dizer é que conheço do interior alguns bairros sociais, nos quais vivi, que ainda os frequento, e que poderíamos qualificar de mistos na sua composição étnico-racial. E o que relatam os familiares e amigos racializados que aí vivem? Que quando num grupo de jovens há brancos e negros o tratamento infligido aos negros por alguma polícia é mais agressivo, há insultos de caráter racista, há a exigência de documentos a afrodescendentes portugueses, etc…

Esta situação não é só descrita por perceções individuais subjetivas, relatórios de instituições internacionais como o mais recente do Comité Anti-tortura do Conselho da Europa confirmam que Portugal é dos países com maior violência policial, nomeadamente em relação a pessoas afrodescendentes portuguesas ou estrangeiras[1].

Ora, não, a vivência de um branco pobre não é a mesma de um negro pobre.

No Bairro da Serafina em Lisboa onde vivi até aos vinte e quatro anos havia poucas famílias negras ou mistas como a minha e a grande maioria da população do bairro era pobre. Ora, para além da pobreza, pelo facto de sermos racializados, éramos submetidos também à violência tanto verbal como física por parte das outras crianças inclusive por adultos. Quantas vezes ouvi “preta vai prá tua terra!”, quantos insultos aos meus irmãos e ao meu pai… Mais tarde com namorados brancos os comentários de certos familiares “o quê? Com uma preta?” No liceu os tags que via todos os dias nas paredes “Pretos fora de Portugal”, “Raça, Nação” e que demoraram a desaparecer e que pelos vistos não chocavam ninguém. A lista é extensa… A experiência do racismo continua até hoje, sendo eu, por vezes, alvo não somente de insultos racistas nas redes sociais, mas também como aconteceu no ano passado com uma agressão física e verbal nos transportes públicos em França, com um poético “On est chez nous!” acompanhado de um corajoso pontapé (e não me parece que a pessoa que o fez me tivesse atacado por eu ser pobre). E estou longe de viver aquilo que vivem pessoas com nível de melanina superior. Alguns dirão… “mas são casos pontuais!”, como o dizem às mulheres que “só” levam uma chapada de vez em quando por parte de companheiros e… e então não faz mal, não é sistemático… Esquecendo-se de que o “pontual” deixa cicatrizes, condiciona comportamentos, provoca medo e destrói a confiança em si e nos outros.

Os brancos pobres não têm de passar por isto… e, a pobreza equivalente, o acesso à saúde, ao alojamento ou ao trabalho é sempre mais dificultada para uma pessoa racializada (afrodescendente, cigana, etc.).

Os negros ricos ou em posições de poder não são alvo de racismo?

Basta pensar neste episódio do “não voto no monhé” relativo a António Costa, nos Obamas[2], na Christiane Taubira em França, ou desportistas como Serena Williams ou jogadores de futebol insultados para que o simplista argumento caia por terra. O ser “menos negro” conferido, como por magia, pelo dinheiro ou pelo estatuto social não significa “ser branco”.

 

Quando as vozes caridosas dizem “o racismo é só uma questão de classe social” estão a negar a nossa vivência. Estão a por em causa a nossa palavra, os nossos sentimentos, as nossas experiências. É uma falta de respeito e de empatia. A empatia que consiste em colocar-se no lugar do outro sempre com a noção de que há uma distância irredutível entre a sua vivência e a minha simulação da sua experiência. É nesta distância respeitosa que está toda a ética, e diria até a humildade, da praxis empática.

O aliado da luta antirracista deve compreender qual é o seu lugar. Não, não é nosso inimigo, sim está do nosso lado e ainda bem, mas não, não é ele que deve ditar como a luta deve ser feita, que estratégia, que agenda, que vocabulário utilizar (penso aqui no caso do Mamadou Ba[3]. O aliado não pode falar em nome dos que são vítimas de racismo. Pode apoiar a causa, lutar por ela, mas não se deve apropriar de forma indevida e errónea da vivência de outrem nem a desqualificar.

“Eu estou com vocês pessoal, MAS… se saem da linha que EU decidi ser a boa para a defesa da VOSSA dignidade eu já não posso ser solidário”. É o que Martin Luther King já tinha, com clarividência, nomeado em 1963 de paternalismo[4].

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 “Então eu que luto por vocês, porque teria menos legitimidade? Como ousam por em causa o meu antirracismo que faço o favor de oferecer aos “manos”?  É o que eu chamaria em 2019 de militância caritativa…

O progresso civilizacional é importante para o coletivo. O fim do racismo, do sexismo, da homofobia será uma evolução para toda(o)s enquanto “humanidade”, para vivermos num mundo inclusivo, justo, de verdadeira paz social, onde ninguém fica de lado, onde ninguém larga a mão de ninguém. Mas estas realidades de discriminação e de ódio têm dinâmicas ao mesmo tempo similares e díspares. Uma convergência de lutas é possível e até necessária, mas não podemos cair no erro do “color-blindness”, “gender-blindness”, etc.  inclusive enquanto agentes de militância. Eu sou aliada da causa LGBTI mas não posso nunca esquecer o que a minha posição de aliada requere: não me atribui a liberdade de falar em nome de…, de considerar que porque consigo imaginar o que é ser discriminada ou por ter amigos e familiares que o são que sei aquilo que vivem, de facto, as pessoas LGBTI. Não, eu não sei o que é dar um beijo à minha namorada na rua e ser insultada ou agredida. Não, eu não sei o que é ter medo de ser posta fora de casa se contar aos meus pais. Eu imagino, eu não sei. Que estranho e indecente posicionamento seria o meu se dissesse “PARA MIM a homofobia nos dias que correm é residual”, “PARA MIM as pessoas homofóbicas em Portugal são uma minoria”. A análise alicerçada no “para mim” quando a situação não foi vivida na pele é inválida.

Há progresso? Claro que há. “Eu não voto no monhé”, mas temos um primeiro-ministro racializado. E é necessário valorizar o progresso porque é a demonstração de que a luta vale a pena e até como forma de respeito por todos os que lutaram antes e que inclusive aí perderam a vida. Mas… este verão fiquei a saber que o meu filho mais novo, de nove anos, nega o facto de ser mestiço, argumentando muito aflito que só é bronzeado. Compreendi a que ponto esta criança já assimilou o racismo e já começa na vida com uma penalizante perceção de quem é. Relembrou-me sentimentos próprios, de pouco orgulho, de há várias décadas e que revejo neste pequeno ser em 2019. Há progresso? Há! Mas tanto caminho a percorrer…

[1] https://www.publico.pt/2018/02/27/sociedade/noticia/conselho-da-europa-diz-que-portugal-e-dos-paises-europeus-com-mais-violencia-policial-1804518

[2] https://www.independent.co.uk/news/world/americas/president-obama-absolutely-suffer-racism-us-president-a7465281.html

[3] https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/mamadou-ba-neste-momento-temo-pelo-que-possa-acontecer-me

[4] “I have almost reached the regrettable conclusion that the Negro’s great stumbling block in his stride toward freedom is not the White Citizen’s Counciler or the Ku Klux Klanner, but the white moderate, who is more devoted to “order” than to justice; who prefers a negative peace which is the absence of tension to a positive peace which is the presence of justice; who constantly says: “I agree with you in the goal you seek, but I cannot agree with your methods of direct action”; who paternalistically believes he can set the timetable for another man’s freedom; who lives by a mythical concept of time and who constantly advises the Negro to wait for a “more convenient season.” (Letter from a Birmingham Jail, 16 April 1963)

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Um olho no Pacheco Pereira, outro no cigano

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No ano passado, em “A burka de Pacheco Pereira”, já havia reagido ao desconhecimento do comentador profissional sobre a sociedade francesa, desconhecimento este que o condenara a uma visão redutora dos muçulmanos.

No artigo “Da burka ao colete de explosivos” JPP utilizava como argumento de autoridade ter estado recentemente num país europeu. Este argumento do “eu sei porque passei por lá” não lhe é próprio, nas últimas semanas saltaram do chapéu um número impressionante de ilustres especialistas dos bairros periféricos de Lisboa que afirmam conhecer a Cova da Moura porque lá deram uma vez um salto para comer uma cachupa, tornando a Cova da Moura na atração turística mais badalada, mais in, mais the place to be do ano.

Ora, no seu mais recente artigo de opinião de dia 24 de Julho, no Público, “Trump e os ciganos” – versão requentada do que já tinha proferido na Quadratura do Círculo de dia 20 de Julho – o cronista volta a dar voz ao seu desconhecimento, afirmando que não aprende nada com a extrema-direita francesa mas com Trump. No entanto, engana-se, pois teria muito a aprender com o FN e com a maneira como os outros partidos geriram o seu sucesso, porque se olhasse para mais perto e não se perdesse no outro lado do Atlântico a ver a Fox News, não confundiria o FN de Marine Le Pen com o do pai, e sobretudo não faria os mesmos erros de análise (voluntários ou não) já feitos, há muito, pela Direita francesa de Sarkozy & Co. utilizando, exatamente, os mesmos argumentos:

– Denúncia do politicamente correto;

– Defesa da palavra “descomplexada” (exprimir em público o que o povo pensa em privado e tem medo de dizer);

– Mistura entre liberdade de expressão e aceitação da linguagem racista, homofóbica ou misógina;

– Construção de uma retórica criadora de um fantasioso problema nacional envolvendo comunidades que representam uma parte minoritária da população, utilizando como exemplos situações pontuais ou circunscritas;

– Culpabilização de supostos modos de vida dessas comunidades;

– Instrumentalização da luta feminista como encobrimento da islamofobia/ciganofobia.

É necessário avisar o José Pacheco Pereira que a estratégia de Sarkozy & Co. para arrecadar os votos dos eleitores do FN falhou, porque se esqueceram que o povo prefere sempre o original à cópia e que quem lucrou com esses erros foi precisamente a extrema-direita. Hollande, Valls & Co. também queimaram as asas neste jogo que JPP acabou de descobrir. O que estes assessores, acredito que involuntários, da extrema-direita fizeram foi simplesmente abrir a caixa de Pandora.

O “politicamente correto” é a fina fronteira que permite, nomeadamente na esfera pública, um respeito mínimo em relação ao Outro. Como dizia Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano, “Le masque devient visage.” Ora o politicamente correto é pedagógico, e pode acabar por resultar na passagem da máscara à cara, e o mesmo é inversamente válido, libertar a palavra racista, é deitar abaixo o último limite entre a decência e a selvajaria civil. Foi o que aconteceu no Reino Unido e nos EUA: durante a campanha do referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE e sobretudo após a vitória do campo do Brexit os crimes de ódio aumentaram de 49% em relação ao mês anterior, verificando-se o mesmo fenómeno após a vitória de Trump com a multiplicação de manifestações de provocação dos supremacistas brancos.

Ana Gomes, eurodeputada, afirmou há alguns meses numa conferência em Paris que no Parlamento europeu a presença crescente da extrema-direita e o seguidismo da sua agenda, inclusive, por parte da Esquerda é inédita. Segundo Ana Gomes ouvem-se declarações que seriam impensáveis há alguns anos e sobretudo existe uma inércia gritante por parte das outras forças políticas. A “linguagem patrulhada” que JPP denuncia não está a ser a regra, é sobretudo a palavra descomplexada, populista, racista, homofóbica à la Le Pen, Sarkozy, Trump, Ventura ou Gentil Martins que se está a propagar. E o comentador está a participar, mesmo se involuntariamente, de forma ativa nesta ascensão do populismo. Ele é parte integrante deste movimento, ao não condenar de forma clara as declarações racistas de André Ventura banalizando-as e defendendo, ainda por cima, que “ele até tem alguma razão”.

JPP admite o óbvio na Quadratura do Círculo, ele não convive com ciganos, mas esquece-se de dizer que não convive ele nem a maioria dos portugueses, pois os cidadãos de etnia cigana não representam mais de 0,5% da população. Mais uma vez, Pacheco Pereira faz afirmações baseadas no “ouvi dizer” e participa na campanha de criação de um falso problema nacional com os ciganos. O que resultará no mesmo que aconteceu em França, pois são as populações que menos vivem com muçulmanos que mais votam FN e são as pessoas que vivem em ambiente multicultural que menos votam na extrema-direita. Ou seja, o voto racista é, muitas vezes, baseado em projeções, em medos fantasiosos, em receios resultantes de declarações como as de JPP que afirma que há aqui um problema que não deve ser silenciado e que, claro, ele tem coragem de denunciar.

JPP acaba o artigo com a técnica de diversão conhecida… “então e as meninas ciganas?” Dizendo que a esquerda não faz um centésimo dos protestos indignados sobre a condição das mulheres, e eu pergunto ao comentador feminista onde está a sua indignação contra o racismo? Porque prefere desculpabilizar as palavras racistas do seu camarada de partido e dar enfâse às “situações inaceitáveis que são permitidas a um número significativo de ciganos”?

Estamos todos de acordo, ninguém está acima da lei, mas também ninguém deveria estar abaixo. A linha vermelha não está em calarmos situações inaceitáveis que são impostas a um número significativo de ciganos. Afinal, quem quer silenciar quem?

BE(exit) no!

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Se houvesse dúvidas, os últimos resultados da execução orçamental acabaram com elas. A solução governativa que pôs termo ao austerismo em Portugal funciona mesmo. E não teria sido possível sem o apoio e a acção determinada do BE. Outros dela participaram, mas importa-me referir expressamente o BE neste post. Contra todo o medo e todas as desgraças que auguraram os mercados e as agências de “rating”, as instituições europeias e, claro, a nossa direita, há hoje mais dignidade e confiança na sociedade portuguesa. Apesar dos muitos e significativos riscos associados à opção, largar a austeridade, devolver poder de consumo digno, é um caminho que funciona. Devemo-lo também ao BE.

À luz deste sucesso quaisquer sanções, multas ou reprimendas de Bruxelas sobre Portugal só podem ser recebidas como um acto de prepotência inaceitável, de que é necessário tirar consequências à altura. Uma dessas consequências é precisamente não deixar de ter a Comissão Europeia à altura da crítica dos governos, dos partidos, dos movimentos e dos cidadãos nacionais. Por exemplo, suscitando, da maneira que for possível, por mais informal que seja, um pedido de demissão da Comissão Europeia. Nas mãos desta, a União Europeia bem pode dar-se por entregue a coveiros. Os mesmos que, diante da saída do Reino Unido, como se nada fosse com eles, exigem que estugue o passo e saia depressa. Os mesmos que, diante da crise dos refugiados, preferem pagar para que a Turquia faça o trabalho sujo.  Continue a ler BE(exit) no!

Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?   Continue a ler Ser ou não ser gay…

Não insultem os católicos!

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Não insultem os cristãos e nomeadamente os católicos, maioritários em Portugal, porque eles também têm sentido de humor e sabem fazer piadas, inclusive sobre si próprios.

Não insultem os católicos, eles também acreditam na igualdade de género, apesar de Eva ser um apêndice de Adão, e de a mulher ter um papel subalterno na hierarquia eclesiástica.

Não insultem os católicos, eles também defendem a liberdade da mulher a dispor do seu corpo e estão a favor da legalização do IVG apesar de a Igreja ser contra.

Não insultem os católicos, eles também compreendem a importância do preservativo, e sabem que amar é mais que procriar.

Não insultem os católicos, eles também não discriminam as pessoas baseadas na sua orientação sexual e acreditam que vários tipos de famílias são possíveis, apesar da discriminação defendida pela Instituição.

Ora, amigos ateus, não sejamos mais papistas que Francisco, e deixemo-nos de paternalismos ofensivos à inteligência dos católicos.

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A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

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Ser ou não ser engraçadinha(o)

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Vamos aos factos :

­‒ No domingo dia 24 de janeiro, o candidato apoiado pela direita, Marcelo Rebelo de Sousa saiu vitorioso das eleições presidenciais.

‒ Nesse mesmo dia a candidata Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, teve mais do dobro dos votos do candidato Edgar Silva apoiado pelo PCP.

­‒ Nessa noite o Bloco de Esquerda preferiu ver o copo meio cheio e escapou-lhe que a vitória estava do lado da direita e que os Portugueses não iam ser presididos pelos tão aplaudidos 10% da Marisa mas pelos 52% do Marcelo.

‒ Nessa mesma noite Jerónimo de Sousa, nervoso com os maus resultados, disse as seguinte frases :

«Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim, com um discurso ajeitadamente populista, que pudesse aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Aquilo que caracteriza, portanto, este partido defensor dos interesses dos trabalhadores e do nosso povo, nesta coisa não somos capazes de mudar. (Ouvir aqui) »

‒ Entretanto as frases do Jerónimo sofreram severas medidas de austeridade, na ordem dos 80%, e passaram a ser citadas da seguinte forma :

« Podíamos arranjar uma candidata engraçadinha, mas não somos capazes de mudar. »

Os ânimos exaltaram-se, a vistas cegaram e o Secretário Geral do Partido Comunista Português, entre outros nomes bonitos foi insultado de velho-xexé por parte de Elizabete Azevedo-Harman.

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