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E a Diáspora?

EmigraçãoA mim – português que reside no estrangeiro há um punhado de anos e pai de dois filhos que vivem entre três culturas e quatro línguas – faz-me alguma confusão que um Governo do PS apoiado no Parlamento pelos três Partidos à sua Esquerda não tenha um Ministério que se dedique a tempo inteiro aos problemas e anseios dos 5 milhões de portugueses e lusodescendentes que vivem fora de Portugal. Número enorme – cerca de um terço dos portugueses existentes no mundo – que já inclui o meio milhão que foi obrigado a emigrar nos últimos cinco anos por causa da política criminosa da Direita (e da Extrema-Direita) que esteve no Poder.

Mais confusão me faz ainda por saber que este Governo PS é apoiado por Partidos que têm, sei-o por experiência própria, uma verdadeira e genuína preocupação pelos portugueses que vivem no exterior, conhecendo a mais-valia económica e cultural que representam e o seu papel incomparável na promoção de Portugal no mundo.

Estes milhões de portugueses que vivem no estrangeiro, que tentam perpetuar a nossa cultura na educação dos seus filhos ou na interação quotidiana com cidadãos de outras nacionalidades, não mereceriam um Ministério próprio? Com um ministro inteiramente dedicado aos seus problemas e que os (nos) utilizasse como meio de promover Portugal e a Lusofonia?

Parece que não… A ver qual será a política a seguir… se a mesma de total e absoluto abandono.

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Convergência das Esquerdas: um anseio das gerações pós-25 de Abril

liberdadeigualdadefraternidade

Na noite das eleições, quando Jerónimo de Sousa declarou que o “PS tem condições para formar governo” – abrindo-se, assim, a porta a um possível acordo histórico à Esquerda que, considerou-se unanimemente, aplicasse uma política em prol dos interesses do cidadão comum e dos mais desprotegidos, contrariamente ao que foi feito ao longo da última legislatura – vieram à tona os fantasmas do PREC.

Esse discurso alarmista – saído das bocas de elementos ora da direita radical de laivos fascizantes, ora de membros da ala direita do PS – é, aos olhos da esmagadora maioria da geração nascida no pós-25 de Abril (a, sabe-se, mais qualificada da História de Portugal e, logo, em princípio, menos manipulável pela infantil retórica do “vêm aí os papões”) anacrónico e passadista.

The Red Threat Out 2015
Um dos exemplos de propaganda da Direita a comparar a atualidade com os tempos do PREC

Por outro lado, alguns elementos das gerações de Esquerda que fizeram o 25 de Abril e nos salvaram do fascismo agarram-se de maneira narcisista à sua própria experiência revolucionária, com os seus naturais ódios de estimação, esquecendo-se que o mundo e Portugal mudaram. Olvidam, então, que as novas gerações de Esquerda – nascidas nos vinte anos que se seguiram à Revolução e que hoje atingiram a maturidade intelectual – não se identificam com essas lutas intestinas e desejam que, dentro do respeito pelas várias identidades das Esquerdas, exista uma verdadeira Convergência que inviabilize qualquer possibilidade de a Direita prosseguir a terraplanagem do nosso país e que conduza à inauguração de um período histórico de verdadeiro progresso social, económico e cultural.

Ora, quarenta anos após a Revolução que acabou com o obscurantismo fascista e colonialista do tempo dos nossos pais e avós é inegável que Portugal progrediu a todos os níveis, graças, nomeadamente, a uma Constituição progressista que permitiu construir um Estado Social evoluído que pôs o elevador social a funcionar.

É, todavia, também irrefutável que durante esses quarenta anos, período no qual Cavaco Silva exerceu funções desde 1980 até hoje, existiu uma verdadeira falta de vontade política de:

1) Erradicar de uma vez por todas a pobreza (20% dos portugueses ainda são pobres, apesar de muitos deles trabalharem: uma característica perfeitamente terceiro-mundista que ganha contornos aterradores quando analisamos a percentagem de crianças em risco de pobreza extrema);

2) Diminuir o fosso constante entre uma minoria pornograficamente rica e uma maioria pobre;

3) Estancar a hemorragia migratória e dar coesão ao território, aproximando litoral e interior, respondendo assim ao desafio demográfico e combatendo a desertificação do país.

Estes três cancros que enfermam a sociedade portuguesa ganharam metástases nos últimos quatro anos e meio, ligando a sociedade portuguesa à máquina de ventilação e criando fraturas que poderão não ser ultrapassáveis. Uma única legislatura, que teve no Poder uma Direita radicalizada ideologicamente – e eleita em 2011 graças a uma campanha eleitoral onde predominou a mentira e a manipulação – e protegida pelos meios de comunicação social que propalavam (e ainda propalam!) a ideologia da inevitabilidade da Austeridade, do “não há alternativa”, graças a uma trupe de comentadores coniventes com o sistema, foi mais do que suficiente para:

– aumentar os índices de pobreza e de desemprego;

– incrementar o abandono escolar;

– fomentar a emigração maciça (meio milhão de novos emigrantes em quatro anos e meio) e o consequente abandono dos portugueses no estrangeiro;

– aumentar a dívida e prejudicar o futuro das próximas gerações;

– cortar nas pensões e nos salários;

– aumentar a precariedade laboral;

– tentar desmantelar os sistemas de saúde e educação;

– privatizar ao desbarato setores estratégicos da nossa economia e essenciais para o bem comum (transportes, energia, educação, saúde, água…);

– desprezar a cultura e a investigação cientifica.

Por ser muito importante, insistimos: existe uma nova geração de militantes e simpatizantes de Esquerda, na qual nos incluímos, que acredita que, neste momento crucial que se vive em Portugal, a convergência e união das Esquerdas é a única solução para o futuro do nosso país.

O recente entendimento – na perspetiva de uma legislatura completa – entre os quatro partidos da Esquerda (PS, BE, PCP e PEV), que se traduzirá num governo do PS apoiado por uma maioria parlamentar – legitimada por expressar a vontade popular registada nas últimas eleições e respeitadora da Constituição – poderá, enfim, pôr termo a um ciclo de destruição maciça das conquistas sociais, económicas e políticas pós-25 de Abril que a Direita tem vindo a ensaiar.

Este processo de convergência requer prudência e negociação, esforço e compromisso, honestidade e franqueza, e, claro, a hipótese do seu fracasso deve ser ponderada. Porém, apesar das dificuldades, a esperança no seu êxito e a convicção de que é essa a melhor solução para os problemas mais prementes justifica a sua execução.

Para haver um acordo durável, os quatro partidos deverão ter como base comum não somente o “tudo menos a Direita radical”, mas, sim, e essencialmente, o “tudo pelo progresso social do País e pela justiça e solidariedade entre classes”.

A estabilidade de um acordo à Esquerda será a prova da maioridade e do alargamento da nossa Democracia (que acabou com o despautério do conceito de “Arco da Governação”) e criará um novo paradigma na relação de forças políticas em Portugal. E, muito importante, servirá igualmente de exemplo para os outros povos europeus, nomeadamente para o espanhol.

Sabemos que, ao contrário do governo Syriza, um governo de maioria de Esquerda liderado por António Costa poderá contar com o imprescindível apoio dos socialistas europeus e da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, na esperança de que este novo status quo dê ânimo a uma nova e real correlação de forças contra os partidos do PPE (Partido Popular Europeu) que dominam a União Europeia de forma “austeritária”, tentando contrariar de forma antidemocrática as decisões soberanas dos povos que compõem a Europa.

O pós-10 de novembro de 2015 deverá ver o nascimento de uma Nova Esquerda baseada numa política de convergência, onde, mantendo-se as identidades históricas de cada partido, aliará princípios e compromissos, idealismo e responsabilidades, e que terá como denominador comum a defesa da dignidade do povo, a luta pelo progresso social e colocar as pessoas no centro das políticas.

*Artigo escrito a quatro mãos por  Nuno Gomes Garcia e Luísa Semedo publicado no Lusojornal de Paris a 18 Novembro 2015. http://www.lusojornal.com

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