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A improvável assimilação

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François Fillon, o improvável, vencedor das primárias da Direita e, provável, próximo Presidente da República Francesa, tem produzido declarações, propostas e promessas que nos dizem particularmente respeito, a nós, estrangeiros, binacionais ou franceses de origem estrangeira em França.

O ex-primeiro ministro de Sarkozy – inspirado, quiçá, pelo ex-patrão – lançou-se igualmente na caça ao “politicamente correto”. Investiu a intrépida missão de apregoar em voz alta o pensamento que o medroso povo dissimula no conforto do seu íntimo. E apossou-se da defesa da “direita descomplexada”, que é como quem diz, adotar as mesmas temáticas e propostas do partido de extrema-direita Front National, sem vergonhas nem embaraços.

Passemos ideias exóticas e inovadoras[i], tais como:

– não se deve ensinar que o passado é fonte de interrogação;

­- o fim das aulas de línguas e cultura de origem (ELCO), sem propor alternativas, e com a infundada justificação que a prioridade deve ser dada ao ensino do Francês, como se a aprendizagem de uma língua invalidasse a outra;

­- a defesa do porte de uniforme como símbolo do respeito e autoridade e como forma de “criar uma verdadeira comunidade” entre os alunos.

Estas medidas, no entanto, já nos dão uma ideia da ideologia da uniformização que habita o íntimo do candidato às Presidenciais. Instrui-nos sobre o facto de Fillon defender que é a uniformidade que faz o coletivo excluindo, desta feita, os benefícios da diversidade.

Esta ideia de harmonia na estrita homogeneidade foi, mais claramente, enunciada quando Fillon propôs reservar o acesso à nacionalidade francesa aos assimilados, restringindo-a no caso de crianças nascidas em França de pais estrangeiros à maioridade do jovem, através de um processo de requisição voluntária de nacionalidade, deixando esta de ser automática, e ainda com a obrigação de responder a certos critérios de assimilação.

Conhecemos bem o termo de “assimilados”, pois nas antigas colónias portuguesas, o “assimilado”, distinto do indígena, era o autóctone que tinha atingido um certo nível de desenvolvimento, segundo critérios “civilizacionais” codificados, e que por isso usufruía de direitos superiores aos seus conterrâneos africanos. Os franceses partilhavam, igualmente, esta visão assimilacionista da relação com as populações colonizadas. A política de uniformização dos valores e culturas era praticada pela França que utilizava o termo de “evolués” para denominar uma certa elite africana, o que não deixa sombra de dúvida sobre a desconsideração pelas populações locais assim que o sentimento de superioridade do colonizador[ii].

As palavras têm a sua importância, e nomeadamente nestas questões, não são neutras. Um termo que foi considerado pejorativo, em grande parte devido a este passado colonial, volta alegremente às luzes da ribalta na boca de François Fillon. Verdade seja dita, o (provável) próximo Presidente da República tem uma visão sui generis da colonização francesa, considera que se deve terminar com contrições e penitências e que a França não tem de pedir desculpas por ter “ambicionado partilhar a sua cultura com os povos de África”, omitindo vergonhosamente a extrema violência física e moral da colonização e nomeadamente da escravatura.

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A visão etno-nacionalista de Fillon, de defesa do orgulho em ser francês, de orgulho nas suas origens, na sua História não somente exclui os franceses de origem estrangeira de uma plena pertença à terra que os viu nascer, como entra em contradição com a visão cosmopolita e universalista do Iluminismo, um dos orgulhos históricos franceses. Porém, Fillon demonstrou pouco interesse por essa herança ao defender no seu programa a suspensão da Convenção Europeia dos Direitos Humanos caso as suas proposições entrem em contradição com o Direito Europeu.

Ora, nós estrangeiros, filhos de estrangeiros ou pais de jovens nascidos em França sabemos bem que é possível emocionarmo-nos com a Marseillaise, no início de um jogo de futebol, estando ao mesmo tempo a comer um bom cozido à portuguesa. Nós sabemos que dentro de uma identidade são possíveis várias pertenças, sabemos que um indivíduo não é um ser monolítico e que é a diversidade, a troca com o exterior que nos faz progredir e enriquecer. A assimilação que consiste no abandono, na alteração profunda da sua identidade e especificidades socioculturais de origem é uma degradação de quem somos. A inclusão ou a integração permitem pensar um processo no qual o indivíduo se insere progressivamente na sociedade, guardando as suas particularidades sem que tal seja incompatível com as regras e os valores de República, sem que isso ponha em causa o seu sentimento de comunidade ou de solidariedade com os seus concidadãos.

À luz do programa de François Fillon podemo-nos, ainda, preocupar com o futuro das nossas associações, que poderão ser julgadas de comunitaristas, embora saibamos que as coletividades têm um papel importante na integração dos estrangeiros ou de origem estrangeira, através da promoção à cidadania, pelo sentimento de participação na vida da polis, pela troca com os cidadãos franceses ou de outras comunidades.

Quantos franceses ficaram a conhecer Portugal pela mão de um português de França, o mesmo que dá a conhecer a França à família e amigos em Portugal?

Muito resta a fazer, nomeadamente a luta contra a alienação política dos Portugueses que estão sub-representados nas inscrições nas listas eleitorais. A integração passa de facto por uma responsabilidade partilhada, por um compromisso entre o cidadão e as instituições públicas, mas sobretudo pela construção conjunta de uma comunidade plural e cosmopolita alicerçada em ideais humanistas e não numa forçada aculturação empobrecedora tanto para o indivíduo como para a Nação.

[i] Cf. discurso de Sablé-sur-Sarthe 28/08/2016 e http://www.fillon2017.fr

[ii] Keese, Alexander, Living with Ambiguity: Integrating an African Elite in French and Portuguese Africa, 1930-61, Stuttgart, Franz Steiner, 2007.

Artigo publicado no Luso Jornal de 07/12/2016

http://www.lusojornal.com

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Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?   Continue reading Ser ou não ser gay…

RFI – Expulsão dos migrantes de Calais

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http://pt.rfi.fr/franca/20160225-justica-francesa-autoriza-expulsao-dos-migrantes-de-calais

No Magazine Vida em França analisamos a decisão da justiça francesa dar luz verde para a demolição de parte do campo de refugiados em Calais, norte do país. Segundo as autoridades locais, o despejo afecta entre “800 a 1000” pessoas, as organizações humanitários falam de mais de 3000, entre as quais 300 crianças desacompanhados.

Não digam que não sabiam

Os média andam em alvoroço porque o fascista-entertainer-milionário Donald Trump fez a proposta indecente de proibir a entrada de muçulmanos nos EUA.

« Chez nous » também temos direito a estes belos cartazes do FN nas ruas e túneis de França, mas as reacções não são tão comovidas.

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Sarkozy afirmou até que não havia nada de imoral em votar FN. E não faz a distinção entre um partido republicano como o PS e um neo-fascista como o FN e faz ainda, como muitos outros, a amálgama grotesca e grosseira entre a extrema-esquerda, que sabemos defende o cosmopolitismo, e a extrema-direita que o abomina.

Ora,

Basta de desculpabilizar os eleitores do FN!

Basta de dizer que é um voto de protesto!

Basta de dizer que são pessoas desnorteadas e outros qualificativos paterno-relativistas!

Querem protestar votem no PG, no PCF, no NPA, nos Verdes, no Modem, no PRG, no Nouvelle Donne, no Parti Pirate, votem em branco ou abstenham-se e não digam que não sabiam que estavam a votar num partido racista e fascista.

Apesar da campanha de cosmética das Le Pen filha e sobrinha, a verdadeira natureza está à mostra e é assumida!

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La déchéance d’identité française

Le FN fait semblant de ne pas être néo-nazi!

Les Républicains font semblant d’être républicains!

Le PS fait semblant d’être de gauche!

Les seuls qui s’en sortent avec cette déchéance c’est le FN puisque la feinte et le mensonge font partie de leur vraie nature!

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Le jour où les autres partis se décideront enfin à retrouver leur vraie identité historique peut-être que le FN ne gagnera plus avec c(s)es déchéances!

Au contraire des pseudo-Républicains, le PS démontre qu’il est un parti républicain en faisant barrage à l’extrême droite, mais ce sera avec des vraies politiques sociales de gauche que le barrage sera le plus efficace!

Allez les Socialistes français, regardez vers le Portugal et travaillez aussi pour la convergence des Gauches françaises.

Une solution qui aurait fait gagner 10 des 13 régions de la métropole à la Gauche!

Porque partem os nossos filhos para a Jihad?

O que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

 

« Eu andei sempre atrás dos meus filhos e isso não impediu que esteja onde está », diz a mãe de um dos terroristas portugueses do Estado Islâmico na Síria.

Outros pais de terroristas descrevem a mesma perplexidade face ao extremismo dos filhos, lembrando aqueles que descobrem atónitos que os filhos são delinquentes ou  toxicodependentes.

Pouco sabemos das motivações individuais, de cada um destes filhos, para se implicarem nesta vida de morte. Cada um terá a sua própria experiência da existência, os seus próprios medos e aspirações, mas podemos fazer um retrato geral, através daquilo que sabemos ser comum, neste processo letal de incorporação.

O que sabemos é que, esta minoria de jovens, não são em geral psicopatas, ou seja, não são indivíduos à partida com problemas cognitivos comprovados, mas transformam-se em sociopatas através de mecanismos de recrutamento e dessensibilização bem conhecidos. Há várias formas de desaprender a ver o Outro como sendo uma « alma também », como diria o Pessoa, tais como :

– A desqualificação, inferiorizar o outro, convencer-se que ele não pertence à mesma categoria, podendo assim facilmente passar ao estatuto de objeto. O terrorista tem uma visão utilitarista do Outro, que passa a ser um instrumento para a sua missão, para chegar aos seus fins. É necessário compreender que as vítimas não são o inimigo, as vítimas são o meio encontrado para desígnios mais altos e por vezes abstratos como a luta contra um país, contra valores, a instauração de um clima de medo, a promoção da divisão interna ou a demonstração de força e poder;

– Deixar de ver o outro como uma pessoa, como um indivíduo, e passar a considerar unicamente o grupo, a massa informe, inibindo assim mais uma vez o processo natural de identificação e consequente empatia ;

– Dessensibilizar através de práticas traumáticas, que vão provocar um choque psicológico e de identidade no indivíduo, como por exemplo obrigá-lo a cometer atos atrozes, tal como nos ritos iniciáticos dos gangs;

– Dessensibilizar e potencializar a agressividade através de psicotrópicos. No caso de Daech fala-se da droga Captagon, um estimulante à base de fenitilina, anfetamina e ecstasy que diminui a dor, a empatia, que permite uma maior resistência ao cansaço e uma impressão de poder e invulnerabilidade. Não é evidentemente a droga que faz o terrorista mas facilita a missão a vários níveis.

Para além destes métodos, temos de ter igualmente em conta a nossa predisposição natural à obediência, comprovada pela famosa experiência de Milgram, predisposição esta que pode ser mais ou menos desenvolvida segundo a educação e a cultura em que nos inserimos.

Todas estas técnicas clássicas encontram em jovens vulneráveis em crise existencial, de identidade e de futuro um terreno propício para frutificarem. Na sua grande maioria os Portugueses terroristas vivem fora do país de origem, emigraram ou são segundas gerações. Estes jovens vivem entre as origens e cultura dos pais nas quais não se identificam completamente e ao mesmo tempo sentem-se excluídos no país em que nasceram e cresceram, e encontram a solução a esta crise identitária numa via extremista, uma via em que lhes é prometida, segundo os casos, uma missão a vocação universal, aventura, justiça, poder, dinheiro  e mulheres.

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A vontade de pertencer a um grupo é um fator também a ter em conta pois grande parte dos terroristas vai para a Jihad através de pessoas que lhes são próximas como demonstram vários estudos que põem em relevo a importância da família e dos amigos no recrutamento, como sendo um fator mais relevante que a religião ou o bairro.

Os terroristas não obedecem sempre aos clichés, eles não são forçosamente originários de um meio desfavorecido, sem estudos, solitários, sem nada a perder, aliás alguns dos terroristas portugueses estavam inscritos em Universidades e têm mulheres e filhos. O sacrifício reside justamente em ter algo a perder. O terrorista pode ser alguém de integrado, mas que ressente uma frustração em relação às suas aspirações, ao seu estatuto social, vários terroristas portugueses ansiavam, por exemplo ser estrelas de futebol ou de música.  Daech sabe como meter em valor estes jovens que se sentiam ninguém mas que aspiram a ser alguém. Alguns dos terroristas portugueses afirmam ter subido na hierarquia e passaram de soldados normais a treinadores militares ou recrutadores.

Esse ser alguém passa igualmente pela comunicação, pelo show, estes jovens põem fotos e vídeos nas redes sociais, posam com orgulho e vaidade, adotam nomes de guerra como os gangsta rappers americanos, com armas na mão (daí neste artigo ter sido escolhido não fazer menção aos nomes dos indivíduos).

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As bases do discurso de recrutamento não se resumem a argumentos religiosos, e isto tanto para os jovens de origem muçulmana como para os outros. Estamos perante um discurso de revolta, um discurso “revolucionário”, um discurso anti-ocidente, anti-ordem estabelecida, anti-semitismo, anti-mondialização, etc. Alguns terroristas portugueses afirmam lutar pelos oprimidos, adotando um discurso não somente religioso mas também político.

Ora pouca coisa se pode fazer contra alguém que está disposto a morrer, tornar-se num kamikaze demora um tempo importante de preparação, tanto mental como técnica, e desfazer esta verdadeira « lavagem ao cérebro » é missão laboriosa. O que nos resta de exequível enquanto pais é a prevenção.

Muitos dirão que não devemos expor argumentos de explicação porque desculparia de alguma forma os atos cometidos, ora não é disso que se trata aqui, explicar não é desculpar, trata-se aqui de perceber quem somos, quem são estes nossos filhos para poder prever comportamentos. Não podemos ficar na perplexidade, ou na simples culpabilização e repressão, não é essa a nossa missão. Excluir os terroristas da esfera da humanidade, considerá-los unicamente como monstros, nos quais realmente se tornaram, é tapar os olhos a fenómenos que nós próprios coproduzimos através de sociedades individualistas, sociedades do desespero em que os nosso filhos não vêm futuro. Os terroristas são e devem ser responsabilizados, incriminados e julgados pelos seus atos, mas dito isto, que podemos nós fazer pelos nossos filhos?

Devemos repensar a integração, a educação, o « vivre ensemble » e estarmos atentos aos sinais de alerta, quando se têm dúvidas consultar associações especializadas e profissionais das questões ligadas à deriva sectária. Em França, podemos contactar a Miviludes (Mission interministérielle de vigilance et de lutte contre les dérives sectaires) e a associação CPDSI (Centre de Prévention contre les dérives sectaires liées à l’islam).

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O número de terroristas e os meios de que dispõem, não são por si só suficientes, para meter em causa a existência dos nossos países. O objetivo destes terroristas é que sejamos nós mesmos os nossos próprios carrascos, dividindo-nos, propagando o ódio, a rejeição do outro, fazendo mudar constituições, diminuindo os nossos direitos e liberdades, fomentando uma guerra civil. Nem tudo está na nossa mão, as questões geo-políticas são de difícil resolução para o cidadão comum que nós somos, mas podemos [tentar] prevenir e [tentar] levar os nossos filhos para outros caminhos mesmo que para isso seja necessário pedir ajuda…

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Artigo publicado no Luso Jornal (25/11/2015), em versão ligeiramente reduzida http://www.lusojornal.com

I’m not a number

« Au loin, à distance, j’ai vu quelque chose. En m’approchant, j’ai vu que ça bougeait. De plus près, j’ai vu que c’était un homme. Face à face, j’ai vu que c’était mon frère. » Proverbe berbère

O terror abateu-se mais uma vez sobre Paris, estamos de novo em estado de choque, siderados!
O terrorismo tem como desígnio aniquilar a nossa força, a nossa resistência mas sobretudo a nossa razão.
Ao terrível « déjà vu » das imagens televisivas, junta-se o « déjà vu » de certos comentários e reações. Desde as essenciais e emocionantes reações de amizade, solidariedade e humanismo aos já usuais « deslizes » xenófobos e islamofóbicos, e agora mais um álibi para não exercer o nosso dever de receber refugiados, porque aí estariam terroristas dissimulados. Ora outro dos desígnios do terrorismo é precisamente o clássico « dividir para reinar », armadilha esta que indignos políticos de direita e extrema-direita não se coíbem de tirar partido. http://www.liberation.fr/…/a-droite-et-a-l-extreme-droite-c… .
Outra ideia que vamos ver de novo surgir é a comparação do número de mortos e a incompreensão perante a diferença de tratamento entre barbáries. Na altura dos atentados do Charlie Hebdo, surgiu a questão da diferença de consideração entre Charlie e Baga http://www.courrierinternational.com/…/massacres-de-boko-ha…http://www.dailymaverick.co.za/…/2015-01-12-i-am-charlie-b…/  e agora surgirão vários comentários a denunciar a diferença de tratamento entre os mortos em França, na Síria, no Iraque ou no Mediterrâneo.
Ora várias considerações:

1. Não há razão para fazer comparações quantitativas, uma vida é uma vida, e não é a mobilização por Paris que deve ser criticada mas a falta de mobilização pelas populações que nos são mais longínquas.

2. É uma reação perfeitamente normal preocuparmo-nos em prioridade com os que nos estão próximos, com aqueles com que melhor nos identificamos pois é uma questão de pura sobrevivência da espécie, é uma disposição natural que constitui uma vantagem seletiva. Permitimos a sobrevivência da espécie de forma mais efetiva se concentramos os nossos esforços sobre aqueles que nos são próximos, sobre aqueles sobre quem podemos exercer a nossa ação de forma imediata.
A natureza é pragmática nestas coisas!

3. Quanto maior o número de vítimas menor é a empatia porque justamente a identificação é mais difícil, não é por acaso que nomear as vítimas tem mais impacto como no caso do pequenino Aylan, ou do nome Charlie. Os slogans “Je suis Charlie” ou “Je suis Aylan” são disso uma demonstração.

Mas bem sabemos que há uma diferença entre “o que é” e aquilo que “deve ser”.
A maneira de contornar estes comportamentos naturais é de lhes acrescentar princípios. E o princípio de que “uma vida é uma vida e tem o mesmo valor que qualquer outra”, resolve em parte o nosso dilema, quer esta vida esteja em Paris, Beirute ou numa desoladora embarcação de infortuna no Mediterrâneo.

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