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BE(exit) no!

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Se houvesse dúvidas, os últimos resultados da execução orçamental acabaram com elas. A solução governativa que pôs termo ao austerismo em Portugal funciona mesmo. E não teria sido possível sem o apoio e a acção determinada do BE. Outros dela participaram, mas importa-me referir expressamente o BE neste post. Contra todo o medo e todas as desgraças que auguraram os mercados e as agências de “rating”, as instituições europeias e, claro, a nossa direita, há hoje mais dignidade e confiança na sociedade portuguesa. Apesar dos muitos e significativos riscos associados à opção, largar a austeridade, devolver poder de consumo digno, é um caminho que funciona. Devemo-lo também ao BE.

À luz deste sucesso quaisquer sanções, multas ou reprimendas de Bruxelas sobre Portugal só podem ser recebidas como um acto de prepotência inaceitável, de que é necessário tirar consequências à altura. Uma dessas consequências é precisamente não deixar de ter a Comissão Europeia à altura da crítica dos governos, dos partidos, dos movimentos e dos cidadãos nacionais. Por exemplo, suscitando, da maneira que for possível, por mais informal que seja, um pedido de demissão da Comissão Europeia. Nas mãos desta, a União Europeia bem pode dar-se por entregue a coveiros. Os mesmos que, diante da saída do Reino Unido, como se nada fosse com eles, exigem que estugue o passo e saia depressa. Os mesmos que, diante da crise dos refugiados, preferem pagar para que a Turquia faça o trabalho sujo.  Continue reading BE(exit) no!

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Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

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Une femme avec son enfant parmi un groupe de réfugiés et de migrants près de la ville de Gevgelija, dans l’ancienne République yougoslave de Macédoine. Photo UNICEF/Tomislav Georgiev

 

Na abertura da 31ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, altos funcionários da ONU apelaram os Estados membros a não deixar ninguém de lado, e nomeadamente, a demonstrar compaixão pelos civis que fogem às violações sistemáticas dos direitos humanos nos seus países de origem.

“Durante o meu mandato, sublinhei a importância das práticas democráticas, começando pelo direito das pessoas a serem ouvidas através das urnas”, declarou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diante dos membros do Conselho para os Direitos Humanos.

Ban Ki-moon insistiu, igualmente, no seu compromisso pelos direitos de todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica e religiosa, da sua classe social ou da sua orientação sexual.

“Em muitos países, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e pessoas intersexuais são vítimas de violência brutal, e por vezes mortal”, afirmou o chefe da ONU, lamentando o número de pessoas no mundo ainda sujeitos à negação sistemática dos seus direitos. Continue reading Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

RFI – Expulsão dos migrantes de Calais

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http://pt.rfi.fr/franca/20160225-justica-francesa-autoriza-expulsao-dos-migrantes-de-calais

No Magazine Vida em França analisamos a decisão da justiça francesa dar luz verde para a demolição de parte do campo de refugiados em Calais, norte do país. Segundo as autoridades locais, o despejo afecta entre “800 a 1000” pessoas, as organizações humanitários falam de mais de 3000, entre as quais 300 crianças desacompanhados.

A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

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Porque partem os nossos filhos para a Jihad?

O que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

 

« Eu andei sempre atrás dos meus filhos e isso não impediu que esteja onde está », diz a mãe de um dos terroristas portugueses do Estado Islâmico na Síria.

Outros pais de terroristas descrevem a mesma perplexidade face ao extremismo dos filhos, lembrando aqueles que descobrem atónitos que os filhos são delinquentes ou  toxicodependentes.

Pouco sabemos das motivações individuais, de cada um destes filhos, para se implicarem nesta vida de morte. Cada um terá a sua própria experiência da existência, os seus próprios medos e aspirações, mas podemos fazer um retrato geral, através daquilo que sabemos ser comum, neste processo letal de incorporação.

O que sabemos é que, esta minoria de jovens, não são em geral psicopatas, ou seja, não são indivíduos à partida com problemas cognitivos comprovados, mas transformam-se em sociopatas através de mecanismos de recrutamento e dessensibilização bem conhecidos. Há várias formas de desaprender a ver o Outro como sendo uma « alma também », como diria o Pessoa, tais como :

– A desqualificação, inferiorizar o outro, convencer-se que ele não pertence à mesma categoria, podendo assim facilmente passar ao estatuto de objeto. O terrorista tem uma visão utilitarista do Outro, que passa a ser um instrumento para a sua missão, para chegar aos seus fins. É necessário compreender que as vítimas não são o inimigo, as vítimas são o meio encontrado para desígnios mais altos e por vezes abstratos como a luta contra um país, contra valores, a instauração de um clima de medo, a promoção da divisão interna ou a demonstração de força e poder;

– Deixar de ver o outro como uma pessoa, como um indivíduo, e passar a considerar unicamente o grupo, a massa informe, inibindo assim mais uma vez o processo natural de identificação e consequente empatia ;

– Dessensibilizar através de práticas traumáticas, que vão provocar um choque psicológico e de identidade no indivíduo, como por exemplo obrigá-lo a cometer atos atrozes, tal como nos ritos iniciáticos dos gangs;

– Dessensibilizar e potencializar a agressividade através de psicotrópicos. No caso de Daech fala-se da droga Captagon, um estimulante à base de fenitilina, anfetamina e ecstasy que diminui a dor, a empatia, que permite uma maior resistência ao cansaço e uma impressão de poder e invulnerabilidade. Não é evidentemente a droga que faz o terrorista mas facilita a missão a vários níveis.

Para além destes métodos, temos de ter igualmente em conta a nossa predisposição natural à obediência, comprovada pela famosa experiência de Milgram, predisposição esta que pode ser mais ou menos desenvolvida segundo a educação e a cultura em que nos inserimos.

Todas estas técnicas clássicas encontram em jovens vulneráveis em crise existencial, de identidade e de futuro um terreno propício para frutificarem. Na sua grande maioria os Portugueses terroristas vivem fora do país de origem, emigraram ou são segundas gerações. Estes jovens vivem entre as origens e cultura dos pais nas quais não se identificam completamente e ao mesmo tempo sentem-se excluídos no país em que nasceram e cresceram, e encontram a solução a esta crise identitária numa via extremista, uma via em que lhes é prometida, segundo os casos, uma missão a vocação universal, aventura, justiça, poder, dinheiro  e mulheres.

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A vontade de pertencer a um grupo é um fator também a ter em conta pois grande parte dos terroristas vai para a Jihad através de pessoas que lhes são próximas como demonstram vários estudos que põem em relevo a importância da família e dos amigos no recrutamento, como sendo um fator mais relevante que a religião ou o bairro.

Os terroristas não obedecem sempre aos clichés, eles não são forçosamente originários de um meio desfavorecido, sem estudos, solitários, sem nada a perder, aliás alguns dos terroristas portugueses estavam inscritos em Universidades e têm mulheres e filhos. O sacrifício reside justamente em ter algo a perder. O terrorista pode ser alguém de integrado, mas que ressente uma frustração em relação às suas aspirações, ao seu estatuto social, vários terroristas portugueses ansiavam, por exemplo ser estrelas de futebol ou de música.  Daech sabe como meter em valor estes jovens que se sentiam ninguém mas que aspiram a ser alguém. Alguns dos terroristas portugueses afirmam ter subido na hierarquia e passaram de soldados normais a treinadores militares ou recrutadores.

Esse ser alguém passa igualmente pela comunicação, pelo show, estes jovens põem fotos e vídeos nas redes sociais, posam com orgulho e vaidade, adotam nomes de guerra como os gangsta rappers americanos, com armas na mão (daí neste artigo ter sido escolhido não fazer menção aos nomes dos indivíduos).

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As bases do discurso de recrutamento não se resumem a argumentos religiosos, e isto tanto para os jovens de origem muçulmana como para os outros. Estamos perante um discurso de revolta, um discurso “revolucionário”, um discurso anti-ocidente, anti-ordem estabelecida, anti-semitismo, anti-mondialização, etc. Alguns terroristas portugueses afirmam lutar pelos oprimidos, adotando um discurso não somente religioso mas também político.

Ora pouca coisa se pode fazer contra alguém que está disposto a morrer, tornar-se num kamikaze demora um tempo importante de preparação, tanto mental como técnica, e desfazer esta verdadeira « lavagem ao cérebro » é missão laboriosa. O que nos resta de exequível enquanto pais é a prevenção.

Muitos dirão que não devemos expor argumentos de explicação porque desculparia de alguma forma os atos cometidos, ora não é disso que se trata aqui, explicar não é desculpar, trata-se aqui de perceber quem somos, quem são estes nossos filhos para poder prever comportamentos. Não podemos ficar na perplexidade, ou na simples culpabilização e repressão, não é essa a nossa missão. Excluir os terroristas da esfera da humanidade, considerá-los unicamente como monstros, nos quais realmente se tornaram, é tapar os olhos a fenómenos que nós próprios coproduzimos através de sociedades individualistas, sociedades do desespero em que os nosso filhos não vêm futuro. Os terroristas são e devem ser responsabilizados, incriminados e julgados pelos seus atos, mas dito isto, que podemos nós fazer pelos nossos filhos?

Devemos repensar a integração, a educação, o « vivre ensemble » e estarmos atentos aos sinais de alerta, quando se têm dúvidas consultar associações especializadas e profissionais das questões ligadas à deriva sectária. Em França, podemos contactar a Miviludes (Mission interministérielle de vigilance et de lutte contre les dérives sectaires) e a associação CPDSI (Centre de Prévention contre les dérives sectaires liées à l’islam).

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O número de terroristas e os meios de que dispõem, não são por si só suficientes, para meter em causa a existência dos nossos países. O objetivo destes terroristas é que sejamos nós mesmos os nossos próprios carrascos, dividindo-nos, propagando o ódio, a rejeição do outro, fazendo mudar constituições, diminuindo os nossos direitos e liberdades, fomentando uma guerra civil. Nem tudo está na nossa mão, as questões geo-políticas são de difícil resolução para o cidadão comum que nós somos, mas podemos [tentar] prevenir e [tentar] levar os nossos filhos para outros caminhos mesmo que para isso seja necessário pedir ajuda…

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Artigo publicado no Luso Jornal (25/11/2015), em versão ligeiramente reduzida http://www.lusojornal.com

De que guerras fogem aqueles que morrem afogados no Mediterrâneo?

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Refugiados líbios à procura de Paz depois da destruição do seu país pelas bombas largadas em nome de uma falsa Democracia

Qualquer ser humano que possua um coração feito de carne dentro do peito chora com o sofrimento dos milhares de homens e mulheres que foram (e são) engolidos pelas ondas quando, desesperados, resolvem arriscar as suas vidas e as das crianças que carregam nos braços em busca de uma vida digna. Apenas as carcaças desumanizadas ficam indiferentes perante esta situação de catástrofe humanitária, recusando-lhes qualquer tipo de ajuda e fechando-lhes a porta na cara. E vemos que, inacreditavelmente, o mundo anda cheio dessas carcaças ambulantes.

É sabido que, hoje, os migrantes/refugiados que tentam a travessia do Mediterrânio com o objetivo de penetrar no limes da “Fortaleza Europa” vêm essencialmente de duas regiões do mundo: o Médio Oriente e o Norte de África. Sabemos, também, que esses migrantes/refugiados fogem da guerra e das misérias que ela arrasta.

Mas urge colocar a questão essencial. Um autoquestionamento que uma boa parte da população europeia – preocupada com a sua própria sobrevivência e comida pelos seus egoísmos nacionais, que tão bem definem a Europa historicamente –, nem sequer consegue levar a cabo. Essa incapacidade de se interrogar é, como não poderia deixar de ser, exacerbada pela informação noticiosa “empacotada” das televisões e dos jornais, fornecida e orientada por um regime, aquele em que vivemos, que é, ele próprio, o principal causador de todas essas desgraças. Não só das nossas, europeus, mas também das alheias, das dos desgraçados que morrem no mar.

E é esta a questão que urge colocar: “Quem promove as guerras que expulsa essa gente das suas terras?”.

A resposta é simples. Somos nós.

Somos nós, todos aqueles que elegeram os governantes que ordenaram o bombardeamento e a destruição da Líbia, fazendo-a recuar aos seus tempos tribais enquanto as “nossas” companhias petrolíferas matam a sua sede com o petróleo roubado ao povo líbio.

Somos nós, todos aqueles que deram o seu voto a políticos que atiram gasolina para cima da guerra civil síria e destruíram o Iraque, recorrendo a mentiras e a sofismas para – a história repete-se – encherem os bolsos dos acionistas da SHEL, da EXXONMOBIL ou da ENI.

Somos nós, todos aqueles que aplaudem quem gerou, apoia, treina e arma grupos terroristas que arrastam as populações de imensos territórios para um obscurantismo medieval.

Sempre que virmos uma criança a boiar morta nas águas do Mediterrâneo, lembremo-nos do nosso voto que, num qualquer domingo de sol, foi cair dentro de uma urna e elegeu Nicolas Sarkozy, o principal fomentador da destruição da Líbia pelas bombas da NATO.

Sempre que virmos um barco virado do avesso e rodeado de cadáveres, lembremo-nos de quem elegemos para os cargos de chefia da União Europeia, uma das instituições responsáveis pelos desastres sírio e iraquiano.

Sempre que virmos seres humanos como nós a serem pescados das águas, lembremo-nos dos cordiais cumprimentos entre os políticos que elegemos e o rei saudita, o grande apoiante material e ideológico do Estado Islâmico, esse antro de fanáticos que tanto degola cristãos como enforca muçulmanos.

Façamos, portanto, um mea culpa, pois ele é mais do que necessário.

O Iraque de Saddam Hussein, a Síria de Assad ou a Líbia de Kadhafi, longe de serem Estados livres, eram países modernos, com o maior nível de desenvolvimento humano das respetivas regiões. O Iraque, a Síria e a Líbia passaram de ditaduras estáveis a infernos ardentes, levando as suas populações (e as dos países vizinhos) à miséria e à morte. Qualquer ser humano que estivesse nessa situação faria o mesmo que fazem os milhares de migrantes/refugiados: tentaria a travessia para um lugar de paz que lhes permitisse uma vida digna.

A maneira infantil como nós usamos o nosso voto é responsável pela morte dessa gente. Um voto irrefletido e leviano em quem promove a guerra é uma arma de destruição maciça.

Só existe, portanto, uma solução para acabar com a tragédia no Mediterrânio.

E ela é a seguinte: é hora de usarmos a democracia que temos para escorraçar do Poder os políticos que fomentam as guerras nos outros países e as crises económicas nos nossos.

Só elegendo Governos de rutura com este paradigma que visa ingerir na vida política de terceiros e destruir os países do Médio Oriente ou de África para lhes sacar petróleo ou outras matérias-primas (com o intuito de, assim, alimentar um regime moribundo baseado no dinheiro fácil, na especulação e na exploração) conseguiremos estancar a hemorragia de vidas que tinta o Mediterrâneo de vermelho.

O voto naqueles que defendem a paz e o respeito mútuo entre todos os povos é a nossa arma. Seja para nos salvar a nós próprios, seja para salvar aqueles que morrem na travessia do mar. Para isso, basta utilizar o voto com seriedade, convicção e, claro, maciçamente.