Arquivo da categoria: Terrorismo

Palmira: Património da (Des)humanidade

Eis a minha declaração de interesses: ao longo de muitos anos, trabalhei como arqueólogo, e considero, portanto, que terei alguma sensibilidade, talvez acima da média, para as questões da defesa do Património Histórico e Arqueológico. Dito isto, vejamos.

Desde que o DAESH (ou “Estado Islâmico”) conquistou Palmira em maio de 2015, numa das mais inacreditáveis ofensivas do seu exército de patas-ao-léu – isso tudo não obstante os “intensos” e “certeiros” bombardeamentos da força aérea dos EUA, o grande aliado das teocracias do Golfo Pérsico e da máquina-de-rebentar curdos que é a Turquia –, que os meios de comunicação social ocidentais, pelo menos os daqueles países cuja língua domino, se fartaram (e bem!) de chamar a atenção para os atentados contra os monumentos que constituem o Património da Humanidade da cidade, com o selo da UNESCO, perpetrados pelos combatentes do DAESH. Quem é que, no seu perfeito juízo, não fica chocado com a destruição de obras de arte com mais de dois mil anos?

A atenção dada a esses crimes de lesa-cultura não chocará ninguém e ainda bem que acontece.

O que me choca, todavia, é, em contraste, a falta de atenção que esses mesmos meios de comunicação social deram (e dão) à “Humanidade” que habitava a cidade que é “Património” da UNESCO. Como se na fórmula “Património da Humanidade”, a primeira palavra tivesse mais importância do que a última. Como se sem “Humanidade” fosse possível existir “Património”. Continue reading Palmira: Património da (Des)humanidade

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Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

 

Artigo que põe o dedo na ferida do problema belga e europeu: a pobreza, a falta de oportunidades escolares e de trabalho, a guetização fomentada por péssimas politicas públicas…No fundo, uma espécie de Apartheid social e laboral que potencia o extremismo violento.

Tradução portuguesa da primeira parte do artigo de David Van Reybrouk, originalmente escrito em flamengo, mas cuja versão francesa saiu no Le Monde de 27 de Março de 2016 (pode ser lida aqui: http://www.pressreader.com/france/le-monde/20160327/281925952144035)

A Bélgica negligenciou as suas mais recentes fraturas

A Bélgica, focalizada sobre o passado, açambarcada pela rutura entre flamengos e valões, abandonou os seus habitantes saídos da emigração. Aturdidos por esse “Apartheid”, a juventude esquecida radicalizou-se até à derrapagem final.

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Bairro de Molenbeek, em Bruxelas

Poucos países da União Europeia têm um fosso tão grande entre os estudantes autóctones e aqueles de origem estrangeira do que a Bélgica. Existem poucos países da União Europeia onde as pessoas oriundas da emigração (ditas alóctones) têm tantos problemas em encontrar trabalho. Nenhum outro país europeu forneceu tantos combatentes para a Síria como a Bélgica. Nós não o sabíamos?

Sim, sabíamo-lo. Desde há mais de dez anos, os sociólogos têm avisado que a escolarização dos alóctones tem perdido força. Se bem que os estudantes de origem belga se comportem razoavelmente nos testes internacionais, o fosso que os separa das crianças e dos jovens saídos da emigração não para de se alargar. 28% destes últimos abandonam a escola sem conseguirem obter qualquer diploma do ensino secundário. Aos 17 anos de idade, 68% de entre eles chumbaram pelo menos uma vez (números do ensino francófono). Em nenhum outro país europeu, a segregação entre os estudantes “brancos” performantes e os estudantes alóctones é tão grande como na Bélgica. Continue reading Bélgica: pobreza, guetização e extremismo