Arquivo da categoria: Portugal

O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança.  Continue reading O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

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O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Devo admitir que, durante uma semana, assisti sorridente ao benigno (julgava eu!) espetáculo mediático – na sequência da sua longa campanha eleitoral televisiva que durou quinze anos – em redor do estilo elitista-populista do novo Presidente da República. Um homem, ao que consta muito inteligente, que se sente à-vontade em diferentes ambientes, quase contrastantes: seja em férias passadas com Ricardo Salgado, o ex-banqueiro, seja em romarias populares ou em bairros sociais problemáticos, seja na Festa do Avante!.

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Confesso, até, que cheguei a criticar o facto de uma parte dos deputados no Parlamento não ter aplaudido o juramento prestado por Marcelo Rebelo de Sousa, de mão direita pousada na Constituição da República. Critiquei por considerar esse momento como o desfecho de um processo democrático pelo qual muitos deram a vida para que, hoje, dele desfrutássemos.

A minha tolerância para com o estilo bonacho do novo Presidente da República foi, todavia, abalada quando escutei o discurso que se seguiu ao tal juramento. Uma boa parte da sua comunicação ao país não passou de um chorrilho de anacronismos histórico-culturais, passadistas e bacocos, que refletem bem o espírito de uma certa franja da elite portuguesa, ainda agarrada ao que Marcelo Rebelo de Sousa chamou de “Portugal de Sempre”. Bem, como não sei no que consiste esse “Portugal de Sempre” – embora calcule que seja o Portugal Imperial, colonialista e desrespeitador dos direitos dos outros povos, nomeadamente dos povos africanos… daí a citação de Mouzinho de Albuquerque, o militar que esmagou a rebelião de Gungunhanha, o herói da nação moçambicana – limitei-me a encolher os ombros, pensando: “bem, este discurso bafiento é triste, mas não é admirar dadas as origens do Presidente da República. É o que temos”.  Continue reading O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Nem Putas, Nem Piegas

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Women bearing provocative words on their bodies take part in a “slut walk” in London on September 22, 2012 to protest against the police and courts’ denial of justice for rape victims. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS

Numa sondagem Ipsos para a associação Mémoire traumatique et victimologie, publicada dia 2 de março,  entre outros dados surpreendentes, ficámos a saber que mais de um quarto dos franceses (27%) declararam que, em certas condições, uma vítima de violação é responsável pelo crime, ou seja, advogam a chamada teoria do “Elle l’a bien cherché!”, ou como se diz em Português “Eh pá, a gaja meteu-se a jeito!”.

Mais de um terço (30,7%) dos jovens entre os 18-24 anos defendem que a mulher pode ter prazer sendo forçada numa relação sexual, ou seja acreditam na teoria, de fina análise psicológica, do “ela disse Não mas queria dizer Sim”. Sabemos também que somente 10% das vítimas de violação fazem queixa. Ora é caso para dizer “nem putas, nem piegas”, para aportuguesar e readaptar o slogan do movimento feminista francês “Ni putes, ni soumises”.

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Estes dados significam que a luta continua, que ganhámos batalhas, sim, mas que não podemos baixar os braços, porque os números são ainda implacáveis, e não deixam sombra para dúvidas, sobre o mundo ainda estruturalmente inigualitário e discriminatório em que vivemos, e isto sem necessitar de recorrer, para o auxílio à demonstração, dos casos mais dramáticos de países como a Arábia Saudita ou o Iémen.

Ora deixo aqui um dado pitoresco, para o leitor menos atento a estes pequenos detalhes da História, que resume bem o porquê da necessidade de prosseguir a luta…

…não há um único país no mundo em que a igualdade de género seja efetiva.

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Somos todos Donald Trump?

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A votação na especialidade do orçamento de estado decidirá amanhã sobre o artigo 81º: a aprovação dos 24,3 milhões respeitantes à contribuição portuguesa para o “mecanismo de apoio à Turquia em favor dos refugiados”. O artigo 81º diz respeito ao “acordo histórico” (palavras de Donald Tusk) entre a União Europeia e a Turquia, segundo o qual a UE se compromete a pagar um total de seis mil milhões de euros à Turquia, a processar de forma mais rápida pedidos de visto de cidadãos Turcos e a acelerar o processo de adesão da Turquia à UE. Em troca, a Turquia compromete-se a receber refugiados extraditados pela União.

A crise financeira internacional teve o condão de evidenciar que, na UE, o que está escrito, sendo lei, não se aplica a todos de igual forma. É hoje claro, por exemplo, que as sanções previstas no pacto orçamental se aplicam aos economicamente mais fracos, mas não aos mais fortes. A crise dos refugiados está a prestar um esclarecimento adicional: o que está escrito como lei pode não se aplicar de todo.

O “acordo histórico” entre a UE e a Turquia é uma violação da lei Europeia. Em particular, a proposta de extradição em bloco de refugiados para a Turquia viola o ponto 1 do Artigo 19º da Convenção dos Direitos Fundamentais da União Europeia que expressamente proíbe extradições em bloco. Por esta razão, o acordo foi publicamente condenado por Vicente Cochelet, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, durante uma conferência de imprensa em Genebra. Foi ainda condenado pela UNICEF e por organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional. Continue reading Somos todos Donald Trump?

Um retrato para a posteridade

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Cavaco Silva termina hoje o seu mandato enquanto presidente da República Portuguesa e, como é da tradição, o seu retrato oficial passa a integrar a Galeria de Retratos dos ex-presidentes do Museu da Presidência da República.

Conhecendo o percurso político de Aníbal Cavaco Silva e o percurso artístico do autor do seu retrato oficial, Carlos Barahona Possollo, é interessante ver como ambos se contaminam: a anterior produção de arte gay erótica do pintor contamina a memória institucional do homofóbico Cavaco numa galeria oficial, enquanto a política de direita conservadora seguida pelo considerado por tantos – mais que qualquer outro – “o pior presidente da república” da democracia, contamina ideologicamente o retratista.

Apesar das suas diferenças, político e artista têm em comum a mesma visão conservadora e academista de como pintar, o que torna a obra do pintor impopular entre o meio da arte “contemporânea”. Não é por acaso que nas redes sociais o artista foi de imediato alvo de crítica e sátira de parte significativa da comunidade artística portuguesa que, em geral, tem a mesma paixão por Cavaco que o diabo pela cruz e que, cumulativamente, olha para a obra de Possollo como uma criação bacoca na sua reprodução de temáticas de gosto classicizante, apontada pelos críticos como procurando de alguma forma reproduzir um estilo à Caravaggio numa técnica pictórica anacrónica pela tentativa de reprodução do real quando a fotografia, muito mais eficaz em mimetizações imagéticas, já existe desde o séc. XIX.

Sabendo que a escolha do quadro foi cega em relação à assinatura do autor e não parecendo Cavaco possuir grande gosto por bacanais e práticas homoeróticas presentes em parte relevante da obra do seu retratista, a razão pela qual o pintor é escolhido é tabu – Cavaco não comenta – mas seguramente prende-se com duas possíveis hipóteses: o ex-presidente não sabia e o ocorrido é uma deliciosa ironia do destino ou, mesmo sabendo, manteve a decisão da escolha do quadro. Neste caso, ou o senhor aprecia bacanais e práticas homoeróticas, pelo menos na pintura (embora as posições políticas de Cavaco pareçam indicar o oposto), ou então faz que não sabe e nem fala disso, mantendo a escolha por quase ninguém no nosso tempo continuar a dominar aquela técnica pictórica, acrescida do facto de dificilmente um artista reconhecido se prestar a servir Cavaco no seu projeto de se retratar para a posteridade.

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Não insultem os católicos!

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Não insultem os cristãos e nomeadamente os católicos, maioritários em Portugal, porque eles também têm sentido de humor e sabem fazer piadas, inclusive sobre si próprios.

Não insultem os católicos, eles também acreditam na igualdade de género, apesar de Eva ser um apêndice de Adão, e de a mulher ter um papel subalterno na hierarquia eclesiástica.

Não insultem os católicos, eles também defendem a liberdade da mulher a dispor do seu corpo e estão a favor da legalização do IVG apesar de a Igreja ser contra.

Não insultem os católicos, eles também compreendem a importância do preservativo, e sabem que amar é mais que procriar.

Não insultem os católicos, eles também não discriminam as pessoas baseadas na sua orientação sexual e acreditam que vários tipos de famílias são possíveis, apesar da discriminação defendida pela Instituição.

Ora, amigos ateus, não sejamos mais papistas que Francisco, e deixemo-nos de paternalismos ofensivos à inteligência dos católicos.

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A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

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