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O regresso à Idade das Trevas ou “olha lá para baixo, seu filho da puta!”

 

terra da luaExiste uma anedota que envolve o astronauta Edgar Mitchell, o sexto ser humano a pisar a Lua. Ele, ainda impressionado com aquele seu passeio lunar, disse o seguinte:
“Vista da Lua, a política internacional parece insignificante. Eu adoraria agarrar um político pelos colarinhos, levá-lo lá cima, a trezentos mil quilómetros da Terra, e dizer-lhe: olha lá para baixo, seu filho da puta!”
Ora, esse salutar plebeísmo – tão necessário como válvula de escape e que tem o condão de enfiar o dedo na ferida – serve para ilustrar a ideia de que o nosso frágil planeta não passa de um insignificante grão de areia a viajar pelo espaço a uma velocidade colossal. Tudo isso num equilíbrio digno da melhor relojoaria. A única casa da humanidade, a Terra – sempre tão sujeita aos perigos naturais que já provocaram extinções em massa de milhares de espécies, que vão surgindo sob a forma de meteoritos, raios cósmicos ou movimentos tectónicos que tantas cicatrizes deixaram na geologia – dispensava bem as mais recentes ameaças que pairam sobre ela (e sobre nós).
Essas novas ameaças (decorrentes de outras mais perigosas e profundas de que falaremos adiante) materializam-se nas políticas (assentes no ceticismo climático defendido por apenas 1% dos cientistas) levadas a cabo pela administração Trump. O presidente dos EUA, acompanhado do seu cortejo de negacionistas e criacionistas, ultraliberais e falcões da guerra, numa mistura explosiva de obscurantismo e ganância, propagou a falácia de “fazer a América grande outra vez” para conseguir ser eleito naqueles estranhos mundos eleitorais que são os EUA. O slogan fez voar a imaginação dos eleitores até ao tempo que eles consideram ser a idade de ouro do sonho americano quando, no fundo, o desejado por Trump era (é!) promover um retrocesso civilizacional.
Estes líderes mundiais, tão anacrónicos como ignorantes, desprezam a Razão e negam a evidência científica: a ação humana, através da poluição industrial, degrada o ambiente e está, em conjunto com muitas outras causas de origem natural, a conduzir a alterações climáticas que transformarão a Terra num outro planeta muito diferente, mais imprevisível, instável e mortífero.

20-how-to-make-America-great-again-funny-memeO fenómeno planetário, embora sendo irreversível, poderá ver as suas consequências minoradas se todos os países do mundo respeitarem o famoso Acordo de Paris (2015). Um Tratado que, embora insuficiente, pode, se cumprido, ajudar a manter as alterações climáticas dentro de parâmetros mais ou menos razoáveis, evitando-se, assim, os casos extremos de subida dos mares e oceanos, de desertificação galopante, de exacerbação de tempestades, de fomes pandémicas ou de guerras motivadas pela escassez de água… Cataclismos que, por ironia do destino, atingirão em primeiro lugar e com maior violência os países mais pobres, gerando-se assim uma vaga de refugiados climáticos de proporções bíblicas que, em comparação retrospetiva, tornarão a atual “crise dos refugiados” em algo de pequena escala.
Como se disse atrás, o facto de a administração Trump forçar os EUA a abandonarem o Acordo de Paris não é, porém, o mais grave.
Os elementos mais preocupantes residem na constatação de que as nossas sociedades da pós-verdade e dos factos alternativos aceitam a mentira como se fosse uma verdade absoluta, deixando-se manipular pelos interesses obscuros das grandes multinacionais petrolíferas e do armamento que muitos políticos defendem como seus. Esses “interesses” fomentam um modo de vida que, em derradeira análise, nos conduzirão à autodestruição.
Esse modo de vida e a inépcia que a humanidade, mormente a ocidental e a asiática, tem demonstrado para alterar um insustentável paradigma – o consumo descartável, o comprar por comprar, o individualismo que nos isola, o desaparecimento da memória histórica ou a falta de visão de um futuro baseado num desenvolvimento sustentado e cooperativo – são os pecados dos nossos dias. Esta incapacidade de mudarmos é muito mais grave do que o epifenómeno “Trumpista” que assola o mundo.

7451308-Ecology-The-planet-malate-of-pollution-and-submerged-by-waste-Stock-PhotoEmbora cientes (é impossível, lá no fundo, não o estar) do impacto nefasto que o nosso modo de vida, viciado num irrealizável crescimento económico contínuo que necessita dos recursos de três Terras para se consumar, poderá ter nas gerações vindouras, no futuro dos nossos filhos ou netos, nós, os homens e mulheres que vivem nesta esfera mais ou menos perfeita, obcecados pela rapidez e pelo efémero, pelas redes sociais e pelas notícias supérfluas emitidas em catadupa, esquecemos a nossa própria mortalidade. O facto de, em comparação com o passado, pouco convivermos com a morte ou a doença, graças aos avanços da medicina, tornou-nos em animais arrogantes, incapazes de olharmos para além do nosso próprio umbigo.
Nós, hoje, já assimilamos a ideia de que o planeta é pequeno. Para isso basta ver uma fotografia que o mostre a pairar no espaço negro e hostil ou reler com atenção a provocação de Edgar Mitchell que abriu este texto. Falta-nos, contudo, assimilar a certeza de que a nossa existência se alicerça na fragilidade desse mesmo pequeno planeta.
Se, enquanto espécie, substituirmos a arrogância pela humildade e o individualismo pela cooperação entre países ricos e pobres, se apostarmos na transferência de riqueza e tecnologia, se trocarmos a atual corrida às armas por uma corrida às energias renováveis…
Se o Homo for verdadeiramente Sapiens, então, ainda vamos a tempo de nos salvarmos.

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Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?   Continue reading Ser ou não ser gay…

Palmira: Património da (Des)humanidade

Eis a minha declaração de interesses: ao longo de muitos anos, trabalhei como arqueólogo, e considero, portanto, que terei alguma sensibilidade, talvez acima da média, para as questões da defesa do Património Histórico e Arqueológico. Dito isto, vejamos.

Desde que o DAESH (ou “Estado Islâmico”) conquistou Palmira em maio de 2015, numa das mais inacreditáveis ofensivas do seu exército de patas-ao-léu – isso tudo não obstante os “intensos” e “certeiros” bombardeamentos da força aérea dos EUA, o grande aliado das teocracias do Golfo Pérsico e da máquina-de-rebentar curdos que é a Turquia –, que os meios de comunicação social ocidentais, pelo menos os daqueles países cuja língua domino, se fartaram (e bem!) de chamar a atenção para os atentados contra os monumentos que constituem o Património da Humanidade da cidade, com o selo da UNESCO, perpetrados pelos combatentes do DAESH. Quem é que, no seu perfeito juízo, não fica chocado com a destruição de obras de arte com mais de dois mil anos?

A atenção dada a esses crimes de lesa-cultura não chocará ninguém e ainda bem que acontece.

O que me choca, todavia, é, em contraste, a falta de atenção que esses mesmos meios de comunicação social deram (e dão) à “Humanidade” que habitava a cidade que é “Património” da UNESCO. Como se na fórmula “Património da Humanidade”, a primeira palavra tivesse mais importância do que a última. Como se sem “Humanidade” fosse possível existir “Património”. Continue reading Palmira: Património da (Des)humanidade

A “burka” de Pacheco Pereira

Considerações pós-leitura do artigo “Da burka ao colete de explosivos” de José Pacheco Pereira, do dia 26 de Março 2016 no jornal Público

Este é daqueles raros momentos em que me regozijo que os meus amigos muçulmanos em França não saibam, na sua maioria, ler português. Aliás eu própria gostaria, nestas ocasiões, de não saber ler tais enormidades escritas na língua de Camões!

Estas alarvidades, já tinham sido proferidas por Pacheco Pereira, na Quadratura do círculo de 24 de março, que aliás entraram em competição, na inépcia, com as declarações de Lobo Xavier que afirmou que a vida de um cidadão ocidental tem um valor superior  às vidas de outros cidadãos do mundo (não estando somente a falar do valor mediático, mas como ele próprio afirma, “também por razões de valores”) e que “o medo tem mais significado na Europa”, sem que isso causasse grande, para não dizer nenhuma, resistência por parte dos comparsas.

As cinco primeiras palavras do artigo de Pacheco Pereira resumem bem o problema de que padece, e eu diria até que constituem a rede, diante dos olhos, da burka que o adorna.

“Recentemente estive num país europeu”, escreve (por acaso até seria interessante saber de que país se trata). Ora estar, visitar ou passar momentaneamente não é viver num país. Pacheco Pereira assume que estas saídas esporádicas dos salões de Carnaxide lhe dão autoridade para falar do que não sabe. O ter reparado, num certo país, superior número de mulheres de burka ou niqab não é razão suficiente para depois poder atirar com “verdades”, sobre os muçulmanos, que desconhece.

Ou então, vá, sejamos compreensivos e partamos do princípio que ele tem uns amigos no estrangeiro que lhe contaram, seria então de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, há amigos que me contaram isto, mas eu não sei se é verdade!” Ou então ele leu nalgum sítio, seria igualmente de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, eu li isto algures, mas não sei se é verdade!” Continue reading A “burka” de Pacheco Pereira

O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança.  Continue reading O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Nem Putas, Nem Piegas

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Women bearing provocative words on their bodies take part in a “slut walk” in London on September 22, 2012 to protest against the police and courts’ denial of justice for rape victims. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS

Numa sondagem Ipsos para a associação Mémoire traumatique et victimologie, publicada dia 2 de março,  entre outros dados surpreendentes, ficámos a saber que mais de um quarto dos franceses (27%) declararam que, em certas condições, uma vítima de violação é responsável pelo crime, ou seja, advogam a chamada teoria do “Elle l’a bien cherché!”, ou como se diz em Português “Eh pá, a gaja meteu-se a jeito!”.

Mais de um terço (30,7%) dos jovens entre os 18-24 anos defendem que a mulher pode ter prazer sendo forçada numa relação sexual, ou seja acreditam na teoria, de fina análise psicológica, do “ela disse Não mas queria dizer Sim”. Sabemos também que somente 10% das vítimas de violação fazem queixa. Ora é caso para dizer “nem putas, nem piegas”, para aportuguesar e readaptar o slogan do movimento feminista francês “Ni putes, ni soumises”.

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Estes dados significam que a luta continua, que ganhámos batalhas, sim, mas que não podemos baixar os braços, porque os números são ainda implacáveis, e não deixam sombra para dúvidas, sobre o mundo ainda estruturalmente inigualitário e discriminatório em que vivemos, e isto sem necessitar de recorrer, para o auxílio à demonstração, dos casos mais dramáticos de países como a Arábia Saudita ou o Iémen.

Ora deixo aqui um dado pitoresco, para o leitor menos atento a estes pequenos detalhes da História, que resume bem o porquê da necessidade de prosseguir a luta…

…não há um único país no mundo em que a igualdade de género seja efetiva.

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Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

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Une femme avec son enfant parmi un groupe de réfugiés et de migrants près de la ville de Gevgelija, dans l’ancienne République yougoslave de Macédoine. Photo UNICEF/Tomislav Georgiev

 

Na abertura da 31ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, altos funcionários da ONU apelaram os Estados membros a não deixar ninguém de lado, e nomeadamente, a demonstrar compaixão pelos civis que fogem às violações sistemáticas dos direitos humanos nos seus países de origem.

“Durante o meu mandato, sublinhei a importância das práticas democráticas, começando pelo direito das pessoas a serem ouvidas através das urnas”, declarou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diante dos membros do Conselho para os Direitos Humanos.

Ban Ki-moon insistiu, igualmente, no seu compromisso pelos direitos de todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica e religiosa, da sua classe social ou da sua orientação sexual.

“Em muitos países, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e pessoas intersexuais são vítimas de violência brutal, e por vezes mortal”, afirmou o chefe da ONU, lamentando o número de pessoas no mundo ainda sujeitos à negação sistemática dos seus direitos. Continue reading Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão