Todos os artigos de Nuno Gomes Garcia

O regresso à Idade das Trevas ou “olha lá para baixo, seu filho da puta!”

 

terra da luaExiste uma anedota que envolve o astronauta Edgar Mitchell, o sexto ser humano a pisar a Lua. Ele, ainda impressionado com aquele seu passeio lunar, disse o seguinte:
“Vista da Lua, a política internacional parece insignificante. Eu adoraria agarrar um político pelos colarinhos, levá-lo lá cima, a trezentos mil quilómetros da Terra, e dizer-lhe: olha lá para baixo, seu filho da puta!”
Ora, esse salutar plebeísmo – tão necessário como válvula de escape e que tem o condão de enfiar o dedo na ferida – serve para ilustrar a ideia de que o nosso frágil planeta não passa de um insignificante grão de areia a viajar pelo espaço a uma velocidade colossal. Tudo isso num equilíbrio digno da melhor relojoaria. A única casa da humanidade, a Terra – sempre tão sujeita aos perigos naturais que já provocaram extinções em massa de milhares de espécies, que vão surgindo sob a forma de meteoritos, raios cósmicos ou movimentos tectónicos que tantas cicatrizes deixaram na geologia – dispensava bem as mais recentes ameaças que pairam sobre ela (e sobre nós).
Essas novas ameaças (decorrentes de outras mais perigosas e profundas de que falaremos adiante) materializam-se nas políticas (assentes no ceticismo climático defendido por apenas 1% dos cientistas) levadas a cabo pela administração Trump. O presidente dos EUA, acompanhado do seu cortejo de negacionistas e criacionistas, ultraliberais e falcões da guerra, numa mistura explosiva de obscurantismo e ganância, propagou a falácia de “fazer a América grande outra vez” para conseguir ser eleito naqueles estranhos mundos eleitorais que são os EUA. O slogan fez voar a imaginação dos eleitores até ao tempo que eles consideram ser a idade de ouro do sonho americano quando, no fundo, o desejado por Trump era (é!) promover um retrocesso civilizacional.
Estes líderes mundiais, tão anacrónicos como ignorantes, desprezam a Razão e negam a evidência científica: a ação humana, através da poluição industrial, degrada o ambiente e está, em conjunto com muitas outras causas de origem natural, a conduzir a alterações climáticas que transformarão a Terra num outro planeta muito diferente, mais imprevisível, instável e mortífero.

20-how-to-make-America-great-again-funny-memeO fenómeno planetário, embora sendo irreversível, poderá ver as suas consequências minoradas se todos os países do mundo respeitarem o famoso Acordo de Paris (2015). Um Tratado que, embora insuficiente, pode, se cumprido, ajudar a manter as alterações climáticas dentro de parâmetros mais ou menos razoáveis, evitando-se, assim, os casos extremos de subida dos mares e oceanos, de desertificação galopante, de exacerbação de tempestades, de fomes pandémicas ou de guerras motivadas pela escassez de água… Cataclismos que, por ironia do destino, atingirão em primeiro lugar e com maior violência os países mais pobres, gerando-se assim uma vaga de refugiados climáticos de proporções bíblicas que, em comparação retrospetiva, tornarão a atual “crise dos refugiados” em algo de pequena escala.
Como se disse atrás, o facto de a administração Trump forçar os EUA a abandonarem o Acordo de Paris não é, porém, o mais grave.
Os elementos mais preocupantes residem na constatação de que as nossas sociedades da pós-verdade e dos factos alternativos aceitam a mentira como se fosse uma verdade absoluta, deixando-se manipular pelos interesses obscuros das grandes multinacionais petrolíferas e do armamento que muitos políticos defendem como seus. Esses “interesses” fomentam um modo de vida que, em derradeira análise, nos conduzirão à autodestruição.
Esse modo de vida e a inépcia que a humanidade, mormente a ocidental e a asiática, tem demonstrado para alterar um insustentável paradigma – o consumo descartável, o comprar por comprar, o individualismo que nos isola, o desaparecimento da memória histórica ou a falta de visão de um futuro baseado num desenvolvimento sustentado e cooperativo – são os pecados dos nossos dias. Esta incapacidade de mudarmos é muito mais grave do que o epifenómeno “Trumpista” que assola o mundo.

7451308-Ecology-The-planet-malate-of-pollution-and-submerged-by-waste-Stock-PhotoEmbora cientes (é impossível, lá no fundo, não o estar) do impacto nefasto que o nosso modo de vida, viciado num irrealizável crescimento económico contínuo que necessita dos recursos de três Terras para se consumar, poderá ter nas gerações vindouras, no futuro dos nossos filhos ou netos, nós, os homens e mulheres que vivem nesta esfera mais ou menos perfeita, obcecados pela rapidez e pelo efémero, pelas redes sociais e pelas notícias supérfluas emitidas em catadupa, esquecemos a nossa própria mortalidade. O facto de, em comparação com o passado, pouco convivermos com a morte ou a doença, graças aos avanços da medicina, tornou-nos em animais arrogantes, incapazes de olharmos para além do nosso próprio umbigo.
Nós, hoje, já assimilamos a ideia de que o planeta é pequeno. Para isso basta ver uma fotografia que o mostre a pairar no espaço negro e hostil ou reler com atenção a provocação de Edgar Mitchell que abriu este texto. Falta-nos, contudo, assimilar a certeza de que a nossa existência se alicerça na fragilidade desse mesmo pequeno planeta.
Se, enquanto espécie, substituirmos a arrogância pela humildade e o individualismo pela cooperação entre países ricos e pobres, se apostarmos na transferência de riqueza e tecnologia, se trocarmos a atual corrida às armas por uma corrida às energias renováveis…
Se o Homo for verdadeiramente Sapiens, então, ainda vamos a tempo de nos salvarmos.

Palmira: Património da (Des)humanidade

Eis a minha declaração de interesses: ao longo de muitos anos, trabalhei como arqueólogo, e considero, portanto, que terei alguma sensibilidade, talvez acima da média, para as questões da defesa do Património Histórico e Arqueológico. Dito isto, vejamos.

Desde que o DAESH (ou “Estado Islâmico”) conquistou Palmira em maio de 2015, numa das mais inacreditáveis ofensivas do seu exército de patas-ao-léu – isso tudo não obstante os “intensos” e “certeiros” bombardeamentos da força aérea dos EUA, o grande aliado das teocracias do Golfo Pérsico e da máquina-de-rebentar curdos que é a Turquia –, que os meios de comunicação social ocidentais, pelo menos os daqueles países cuja língua domino, se fartaram (e bem!) de chamar a atenção para os atentados contra os monumentos que constituem o Património da Humanidade da cidade, com o selo da UNESCO, perpetrados pelos combatentes do DAESH. Quem é que, no seu perfeito juízo, não fica chocado com a destruição de obras de arte com mais de dois mil anos?

A atenção dada a esses crimes de lesa-cultura não chocará ninguém e ainda bem que acontece.

O que me choca, todavia, é, em contraste, a falta de atenção que esses mesmos meios de comunicação social deram (e dão) à “Humanidade” que habitava a cidade que é “Património” da UNESCO. Como se na fórmula “Património da Humanidade”, a primeira palavra tivesse mais importância do que a última. Como se sem “Humanidade” fosse possível existir “Património”. Continue a ler Palmira: Património da (Des)humanidade

Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

 

Artigo que põe o dedo na ferida do problema belga e europeu: a pobreza, a falta de oportunidades escolares e de trabalho, a guetização fomentada por péssimas politicas públicas…No fundo, uma espécie de Apartheid social e laboral que potencia o extremismo violento.

Tradução portuguesa da primeira parte do artigo de David Van Reybrouk, originalmente escrito em flamengo, mas cuja versão francesa saiu no Le Monde de 27 de Março de 2016 (pode ser lida aqui: http://www.pressreader.com/france/le-monde/20160327/281925952144035)

A Bélgica negligenciou as suas mais recentes fraturas

A Bélgica, focalizada sobre o passado, açambarcada pela rutura entre flamengos e valões, abandonou os seus habitantes saídos da emigração. Aturdidos por esse “Apartheid”, a juventude esquecida radicalizou-se até à derrapagem final.

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Bairro de Molenbeek, em Bruxelas

Poucos países da União Europeia têm um fosso tão grande entre os estudantes autóctones e aqueles de origem estrangeira do que a Bélgica. Existem poucos países da União Europeia onde as pessoas oriundas da emigração (ditas alóctones) têm tantos problemas em encontrar trabalho. Nenhum outro país europeu forneceu tantos combatentes para a Síria como a Bélgica. Nós não o sabíamos?

Sim, sabíamo-lo. Desde há mais de dez anos, os sociólogos têm avisado que a escolarização dos alóctones tem perdido força. Se bem que os estudantes de origem belga se comportem razoavelmente nos testes internacionais, o fosso que os separa das crianças e dos jovens saídos da emigração não para de se alargar. 28% destes últimos abandonam a escola sem conseguirem obter qualquer diploma do ensino secundário. Aos 17 anos de idade, 68% de entre eles chumbaram pelo menos uma vez (números do ensino francófono). Em nenhum outro país europeu, a segregação entre os estudantes “brancos” performantes e os estudantes alóctones é tão grande como na Bélgica. Continue a ler Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Devo admitir que, durante uma semana, assisti sorridente ao benigno (julgava eu!) espetáculo mediático – na sequência da sua longa campanha eleitoral televisiva que durou quinze anos – em redor do estilo elitista-populista do novo Presidente da República. Um homem, ao que consta muito inteligente, que se sente à-vontade em diferentes ambientes, quase contrastantes: seja em férias passadas com Ricardo Salgado, o ex-banqueiro, seja em romarias populares ou em bairros sociais problemáticos, seja na Festa do Avante!.

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Confesso, até, que cheguei a criticar o facto de uma parte dos deputados no Parlamento não ter aplaudido o juramento prestado por Marcelo Rebelo de Sousa, de mão direita pousada na Constituição da República. Critiquei por considerar esse momento como o desfecho de um processo democrático pelo qual muitos deram a vida para que, hoje, dele desfrutássemos.

A minha tolerância para com o estilo bonacho do novo Presidente da República foi, todavia, abalada quando escutei o discurso que se seguiu ao tal juramento. Uma boa parte da sua comunicação ao país não passou de um chorrilho de anacronismos histórico-culturais, passadistas e bacocos, que refletem bem o espírito de uma certa franja da elite portuguesa, ainda agarrada ao que Marcelo Rebelo de Sousa chamou de “Portugal de Sempre”. Bem, como não sei no que consiste esse “Portugal de Sempre” – embora calcule que seja o Portugal Imperial, colonialista e desrespeitador dos direitos dos outros povos, nomeadamente dos povos africanos… daí a citação de Mouzinho de Albuquerque, o militar que esmagou a rebelião de Gungunhanha, o herói da nação moçambicana – limitei-me a encolher os ombros, pensando: “bem, este discurso bafiento é triste, mas não é admirar dadas as origens do Presidente da República. É o que temos”.  Continue a ler O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Paris recusa o Front National

12359986_940862652663121_3284487004398437571_nOs eleitores de Paris, principal cidade visada pelos atentados terroristas, não deram mais de 9,65% dos votos ao partido da extrema-direita.

Ou seja, as grandes vítimas do terrorismo não foram na conversa miserável do clã Le Pen. Conversa assente no Ódio a tudo que é diferente e minoritário: Islão, estrangeiros, imigrantes, homossexuais, amantes de curling e pólo aquático…

Isto só prova que as sociedades (como a parisiense) profundamente multiculturais, multiétnicas, multirreligiosas e livres de preconceitos e constrangimentos morais são as grandes barreiras perante o caudal do obscurantismo fascizante do FN, UKIP e outros.

A civilização moderna e cosmopolita – apesar das crises do terrorismo, Austeridade, desemprego e precariedade – não aceita o FN. Elementar.

Islamofobia e “Estado Islâmico”: o fruto e a força da mesma ignorância

gghghConfundir e correlacionar as ações sanguinárias do autodenominado “Estado Islâmico” com o conjunto dos seguidores da fé muçulmana tornou-se o desporto preferido das franjas mais reacionárias e cavernícolas das sociedades Ocidentais. Essa boçalidade tem sido por demais visível nos debates para as eleições primárias dos EUA entre os candidatos republicanos (conservadores), embora esse não seja o único palco para tão ignóbil exercício.

Felizmente, por enquanto, essas opiniões ainda perfazem uma minoria, que, todavia, a crise socioeconómica e os promotores da Austeridade poderão reforçar na sua busca incessante por um bode expiatório. E, dirão os apoiantes do Front National, quem melhor prestará esse serviço de expiação do que os muçulmanos que vivem entre nós. O perigo de um Pogrom moderno é, portanto, algo que não é de descartar.

Dizer que algo tão complexo e diversificado como a civilização muçulmana – que se estende dos confins da África Ocidental ao Cazaquistão, de Marrocos a Singapura – se resume aos atos perpetrados por alguns milhares (existem 1,6 mil milhões de muçulmanos, cerca de 22% da população terrestre) de extremistas que usam o Islão como fachada para a sua política expansionista é, e ponderei bastante se deveria usar esta palavra, estúpido. Isso equivale a dizer que os extremistas cristãos do Klu Klux Klan – que queimavam e enforcavam afroamericanos nos EUA dos anos 50 do século XX – são um grupo representativo dos 2,2 mil milhões de cristãos que existem no mundo.

Mais estúpido se torna ainda quando esse discurso sai da boca de cidadãos portugueses, visto que uma boa parte da cultura lusófona – basta pensar no Fado ou na língua que une falantes em cinco continentes – assenta num dos alicerces da História de Portugal: a presença da civilização islâmica no nosso território ao longo de 500 anos e, depois do século XIII, a permanente interação entre Portugal e o mundo muçulmano.

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E a Diáspora?

EmigraçãoA mim – português que reside no estrangeiro há um punhado de anos e pai de dois filhos que vivem entre três culturas e quatro línguas – faz-me alguma confusão que um Governo do PS apoiado no Parlamento pelos três Partidos à sua Esquerda não tenha um Ministério que se dedique a tempo inteiro aos problemas e anseios dos 5 milhões de portugueses e lusodescendentes que vivem fora de Portugal. Número enorme – cerca de um terço dos portugueses existentes no mundo – que já inclui o meio milhão que foi obrigado a emigrar nos últimos cinco anos por causa da política criminosa da Direita (e da Extrema-Direita) que esteve no Poder.

Mais confusão me faz ainda por saber que este Governo PS é apoiado por Partidos que têm, sei-o por experiência própria, uma verdadeira e genuína preocupação pelos portugueses que vivem no exterior, conhecendo a mais-valia económica e cultural que representam e o seu papel incomparável na promoção de Portugal no mundo.

Estes milhões de portugueses que vivem no estrangeiro, que tentam perpetuar a nossa cultura na educação dos seus filhos ou na interação quotidiana com cidadãos de outras nacionalidades, não mereceriam um Ministério próprio? Com um ministro inteiramente dedicado aos seus problemas e que os (nos) utilizasse como meio de promover Portugal e a Lusofonia?

Parece que não… A ver qual será a política a seguir… se a mesma de total e absoluto abandono.

De que guerras fogem aqueles que morrem afogados no Mediterrâneo?

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Refugiados líbios à procura de Paz depois da destruição do seu país pelas bombas largadas em nome de uma falsa Democracia

Qualquer ser humano que possua um coração feito de carne dentro do peito chora com o sofrimento dos milhares de homens e mulheres que foram (e são) engolidos pelas ondas quando, desesperados, resolvem arriscar as suas vidas e as das crianças que carregam nos braços em busca de uma vida digna. Apenas as carcaças desumanizadas ficam indiferentes perante esta situação de catástrofe humanitária, recusando-lhes qualquer tipo de ajuda e fechando-lhes a porta na cara. E vemos que, inacreditavelmente, o mundo anda cheio dessas carcaças ambulantes.

É sabido que, hoje, os migrantes/refugiados que tentam a travessia do Mediterrânio com o objetivo de penetrar no limes da “Fortaleza Europa” vêm essencialmente de duas regiões do mundo: o Médio Oriente e o Norte de África. Sabemos, também, que esses migrantes/refugiados fogem da guerra e das misérias que ela arrasta.

Mas urge colocar a questão essencial. Um autoquestionamento que uma boa parte da população europeia – preocupada com a sua própria sobrevivência e comida pelos seus egoísmos nacionais, que tão bem definem a Europa historicamente –, nem sequer consegue levar a cabo. Essa incapacidade de se interrogar é, como não poderia deixar de ser, exacerbada pela informação noticiosa “empacotada” das televisões e dos jornais, fornecida e orientada por um regime, aquele em que vivemos, que é, ele próprio, o principal causador de todas essas desgraças. Não só das nossas, europeus, mas também das alheias, das dos desgraçados que morrem no mar.

E é esta a questão que urge colocar: “Quem promove as guerras que expulsa essa gente das suas terras?”.

A resposta é simples. Somos nós.

Somos nós, todos aqueles que elegeram os governantes que ordenaram o bombardeamento e a destruição da Líbia, fazendo-a recuar aos seus tempos tribais enquanto as “nossas” companhias petrolíferas matam a sua sede com o petróleo roubado ao povo líbio.

Somos nós, todos aqueles que deram o seu voto a políticos que atiram gasolina para cima da guerra civil síria e destruíram o Iraque, recorrendo a mentiras e a sofismas para – a história repete-se – encherem os bolsos dos acionistas da SHEL, da EXXONMOBIL ou da ENI.

Somos nós, todos aqueles que aplaudem quem gerou, apoia, treina e arma grupos terroristas que arrastam as populações de imensos territórios para um obscurantismo medieval.

Sempre que virmos uma criança a boiar morta nas águas do Mediterrâneo, lembremo-nos do nosso voto que, num qualquer domingo de sol, foi cair dentro de uma urna e elegeu Nicolas Sarkozy, o principal fomentador da destruição da Líbia pelas bombas da NATO.

Sempre que virmos um barco virado do avesso e rodeado de cadáveres, lembremo-nos de quem elegemos para os cargos de chefia da União Europeia, uma das instituições responsáveis pelos desastres sírio e iraquiano.

Sempre que virmos seres humanos como nós a serem pescados das águas, lembremo-nos dos cordiais cumprimentos entre os políticos que elegemos e o rei saudita, o grande apoiante material e ideológico do Estado Islâmico, esse antro de fanáticos que tanto degola cristãos como enforca muçulmanos.

Façamos, portanto, um mea culpa, pois ele é mais do que necessário.

O Iraque de Saddam Hussein, a Síria de Assad ou a Líbia de Kadhafi, longe de serem Estados livres, eram países modernos, com o maior nível de desenvolvimento humano das respetivas regiões. O Iraque, a Síria e a Líbia passaram de ditaduras estáveis a infernos ardentes, levando as suas populações (e as dos países vizinhos) à miséria e à morte. Qualquer ser humano que estivesse nessa situação faria o mesmo que fazem os milhares de migrantes/refugiados: tentaria a travessia para um lugar de paz que lhes permitisse uma vida digna.

A maneira infantil como nós usamos o nosso voto é responsável pela morte dessa gente. Um voto irrefletido e leviano em quem promove a guerra é uma arma de destruição maciça.

Só existe, portanto, uma solução para acabar com a tragédia no Mediterrânio.

E ela é a seguinte: é hora de usarmos a democracia que temos para escorraçar do Poder os políticos que fomentam as guerras nos outros países e as crises económicas nos nossos.

Só elegendo Governos de rutura com este paradigma que visa ingerir na vida política de terceiros e destruir os países do Médio Oriente ou de África para lhes sacar petróleo ou outras matérias-primas (com o intuito de, assim, alimentar um regime moribundo baseado no dinheiro fácil, na especulação e na exploração) conseguiremos estancar a hemorragia de vidas que tinta o Mediterrâneo de vermelho.

O voto naqueles que defendem a paz e o respeito mútuo entre todos os povos é a nossa arma. Seja para nos salvar a nós próprios, seja para salvar aqueles que morrem na travessia do mar. Para isso, basta utilizar o voto com seriedade, convicção e, claro, maciçamente.

Estou vivo!

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Entretanto, fora da Europa

Agradeço-vos, queridos amigos, a vossa preocupação pelo bem-estar da minha família depois da bárbarie de ontem à noite. Estamos bem, embora, obviamente, para sempre chocados com os monstros que resolveram assassinar a sangue frio quase 200 inocentes em nome, nada mais do que isso, da sua própria insanidade.

Chocado, todavia, tem sido o meu estado natural quando olho para o mundo que nos rodeia ao longo dos últimos anos.

Chocado, sempre, pela destruição da Líbia perpretada pelos governantes europeus que elegemos e que, agora, filhos da mãe, entram pela minha casa dentro a chorar lágrimas de crocodilo, deixando-me profundamente enojado.

Chocado, sempre, com o facto dos governantes europeus que elegemos continuarem a ser aliados das teocracias (Arábia Saudita e afins) que financiam os islamo-fascistas que arrastam a Síria, o Iraque, a Líbia… para a idade das trevas.

Chocado, sempre, por ver crianças afogadas no mar quando fogem das guerras que os governantes europeus que elegemos têm ajudado a fomentar em nome de não se sabe muito bem o quê.

Chocado, sempre, por ver famílias inteiras de refugiados de guerra a dormirem ao frio e à chuva nas fronteiras que os governantes europeus que elegemos fecharam com arame farpado.

Chocado, sempre, quando vejo os governantes europeus que elegemos a poluirem os seus discursos com palavras xenófobas e racistas.

Chocado, sempre, por ouvir alguns dos meus vizinhos a dizerem que o melhor é começar já a caça aos árabes para eles verem o que é bom.

Sim, chocado tem sido o meu estado natural nos últimos tempos.

Deixo-vos uma imagem da Síria… Pois imagino que imagens dos brutais e sanguinários ataques de ontem já devem ter visto milhares nas últimas 12 horas

Mais pobreza, mais emigração e mais envelhecimento: o suicídio português?

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Um singelo agradecimento aos Governos que desperdiçam portugueses

A frase que dá título a este texto não é uma mera questão retórica. Ela dá corpo à que deveria ser a grande (talvez a única!) prioridade de qualquer governo português: a sobrevivência do povo que compõe o estado-nação mais antigo e coeso da Europa. Ou seja, a continuidade de Portugal deveria ser o cerne da governança.

Essas três palavras – pobreza, emigração e envelhecimento – assemelham-se a tabus. Não existe um governo, seja da direita (PSD/CDS), seja centrista (PS), que tome medidas que diminuam o peso dessas três condicionantes sobre a sociedade portuguesa. Na verdade, os partidos de centro-direita que governam Portugal desde o começo da crise que se arrasta desde 2008 (embora as suas raízes mergulhem em águas bem mais profundas) parece terem pavor de falar, uma vez no poder, dessas chagas sociais tão evidentes.

Antes de avançarmos, lancemos, então, alguns números que nos ajudem a fundamentar a análise:

– Uma projeção das demógrafas Maria Filomena Mendes e Maria João Valente Rosa refere que em 2050 a população portuguesa terá 33% de pessoas com mais de 65 anos (hoje, são menos de 20%);

– A manter-se o atual nível de fecundidade (dos mais baixos do mundo: cada mulher portuguesa tem, em média, 1,28 filhos, longe dos 2,1 necessárias para a renovação geracional. As mulheres francesas, por exemplo, têm 2,01 filhos), Portugal, a continuar esta tendência, perderá cerca de 6,5% da sua população, mais ou menos 700 mil habitantes;

– Essa perda de população não será compensada pela imigração (o número de estrangeiros a viver em Portugal diminuiu drasticamente). Bem pelo contrário, o regresso à emigração maciça (saiu de Portugal, nos últimos 5 anos, quase meio milhão de portugueses) fará com que a população portuguesa diminua ainda mais;

– O aumento da pobreza – hoje, 25% da população vive abaixo do limiar da pobreza (cerca de 421 euros/mês por pessoa) – é sem, dúvida, a principal causa que conduz tanto à decisão de não ter filhos, ou de ter apenas um e muito tardiamente, como à decisão de emigrar.

Assim, tendo em mente que em Portugal há poucas crianças a nascer e muitos jovens a emigrar, dissequemos uma por uma, essas três palavras que quase nenhum político do centro-direita que chegue ao governo deseja proferir ou que, quando o faz, fá-lo segundo a perspetiva errada, ou seja, apenas durante as campanhas eleitorais e quase sempre recorrendo a discursos vazios e demagógicos.

Pobreza

Em Portugal – fruto da austeridade, do desemprego causado pela destruição do aparelho produtivo desde o tempo dos governos de Cavaco Silva, e dos cortes nas transferências sociais do Estado para as famílias mais pobres (uma diminuição de quase 8%) – a pobreza atinge agora 2 milhões e quinhentos mil portugueses. Essa pobreza acentuou as desigualdades sociais (os ricos estão mais ricos e os pobres estão mais pobres), ao ponto de os jovens das famílias mais fragilizadas não terem meios de pagar as propinas da universidade, quando a Constituição, como se sabe, estipula uma educação gratuita e universal. Desde que os governos de centro-direita, o PS/PSD-CDS-PP, criaram a obrigatoriedade das propinas, Portugal deu um passo adiante na elitização do ensino universitário, impossibilitando aos mais pobres o acesso, e, simultaneamente e sem surpresa, ajudaram a fomentar as universidades privadas. Mais uma vez, como acontece tantas vezes, os políticos do chamado, um pouco aparvalhadamente, “arco da governação, fragilizam o sistema público de maneira a facilitar os negócios privados dos poderosos “amigos”, numa troca promíscua de favores. Veja-se o ataque que se faz hoje ao Serviço Nacional de Saúde: fecha-se um serviço público, gratuito e de qualidade, para, logo a seguir, a poucos quilómetros, abrir o mesmo serviço numa clinica/hospital privado, só ao alcance de quem tem possibilidades de ter um seguro de saúde, caro e fora do alcance dos mais pobres. Também na saúde, como na educação, se está a criar, no nosso país, serviços (cada vez mais débeis por falta de investimento público) para os pobres e serviços privados, caros, para quem a eles pode aceder.

Por fanatismo ideológico, o governo PSD/CDS-PP promoveu a desvalorização interna (cortes nos salários e nas pensões, despedimentos em massa, precarização dos serviços públicos, aumento dos impostos, massacre das classes média e baixa, ataque às pequenas e médias empresas que vivem do mercado interno, venda dos bens públicos a preços de saldo a estrangeiros) e fomentou a pobreza. As suas políticas fizeram com que o movimento ascendente do “elevador social” português se interrompesse. Assim, atualmente, é muito difícil a um jovem que nasceu pobre conseguir sair dessa triste e injusta condição, pois, pura e simplesmente, não tem meios para pagar os seus estudos e, consequentemente, adquirir alguns dos instrumentos indispensáveis à sua afirmação como ser humano neste mundo altamente competitivo. Portugal regressou, em certa medida, à sociedade de castas do tempo do salazarismo: um pobre não pode ansiar a uma vida digna, nem que para isso trabalhe arduamente. O nosso país, como é manifesto, padece de uma enfermidade terceiro-mundista: a pobreza de quem trabalha.

Emigração

Portugal vive a terceira grande vaga de emigração em pouco mais de 100 anos (1890-1920, 1960-1974, 2008-?). Com a crise financeira de 2008 e a consequente Grande Recessão dos últimos anos, a sangria migratória ganhou amplitude, atingindo proporções salazaristas. Ou seja, a quantidade de portugueses a saírem do Portugal desde 2008 atingiu números próximos da emigração maciça dos anos 60 e 70.

O meio milhão de portugueses que emigrou, jovens e menos jovens, qualificados e não qualificados, dá razão a Vitorino Magalhães Godinho que, em 1978, disse que a emigração é uma “constante estrutural” da demografia portuguesa. Essa “constante estrutural” é, claro, fruto da persistência da miséria e da falta de oportunidades que decorrem das políticas dos últimos governos. O atual governo, embora agora o negue um pouco estupidamente, convidou de forma desavergonhada os portugueses a abandonarem o seu país e a irem viver para o estrangeiro. Tal como se os portugueses fossem quinquilharia inútil que se pode atirar para o lixo com o desprezo de quem pouco se importa com os seus concidadãos. A emigração deu, claro, muito jeito a este governo e permitiu-lhe aguentar até ao fim da legislatura. Caso os portugueses que emigraram não tivessem aceitado o “convite” dos membros do governo de Passos Coelho (e do próprio primeiro-ministro), os números do desemprego atingiriam números estratosféricos e a tão maltratada Segurança Social há muito que teria colapsado.

Depois de expulsar centenas de milhares de portugueses de Portugal, o Governo, não inteiramente satisfeito com o colapso social provocado, decidiu abandoná-los nos respetivos países de acolhimento, tal como prova o desmantelamento de alguns dos pilares identitários da Diáspora portuguesa, tais como, por exemplo, o Ensino do Português no Estrangeiro e a rede consular.

Portugal – apesar de programas de uma total vacuidade, claramente para inglês ver, tal como o VEM (Valorização do Empreendorismo Emigrante), plano desenvolvido pelos mesmos políticos que “convidaram” os portugueses a emigrar que, com uma mão cheia de nada, visa agora atraí-los – já perdeu a esmagadora maioria desses portugueses. Os novos emigrantes, magoados com Portugal, desligam-se do nosso país, formam famílias mistas, multiculturais, e jamais regressarão. Os seus filhos, nascidos no estrangeiro, a não ser que o Estado português deixe de secundarizar os emigrantes, já não serão bem portugueses… serão uma outra coisa qualquer, quiçá mais rica. É uma pena que Portugal tenha de os perder.

Envelhecimento

A esperança média de vida em Portugal, tal como em quase todos os países do mundo, não para de crescer graças aos avanços tecnológicos da medicina. No nosso país, todavia, para a grande maioria dos idosos, uma vida mais longa significa mais anos de sofrimento socioeconómico. Os cortes nas pensões (que, mais do que nunca, também servem para apoiar filhos e netos desempregados) e, muitas vezes, o abandono tornam insuportável a vida dos mais velhos.

Porém, Portugal sofrerá um envelhecimento não apenas devido ao aumento da esperança média de vida. Outros dois fatores, mais importantes, contribuem para o envelhecer da população: a reduzidíssima taxa de natalidade e a emigração dos mais jovens. A médio e longo prazo, esta conjuntura tornará inviável a sobrevivência da Segurança Social. Portugal, por essa altura, transformar-se-á num país cheio de velhos e quase sem crianças. O nosso país será tão triste como um asilo para indigentes.

Os culpados

Essa conjuntura catastrófica que poderá levar ao desaparecimento de Portugal tal como o conhecemos é culpa do PSD e do partido que o parasita, o CDS-PP; mas é também culpa do PS, pois os governos “socialistas” há muito que traíram os valores de esquerda, exercendo, na prática, políticas que em nada os distingue dos governos de direita. Não nos podemos esquecer que foi um governo do PS que trouxe a austeridade cega para Portugal.

Portanto, ao contrário do que dizem os eleitos que representam os partidos que compõem este governo que conduziu o país ao retrocesso civilizacional, mentindo com todos os dentes que têm na boca, Portugal e a sua sociedade estão incomparavelmente piores do que em 2011, ano em que a sucessiva incompetência, má gestão do erário e das empresas públicas (para depois justificar a sua privatização ao desbarato numa enorme espiral de promiscuidade entre público e privado) e, por fim, corrupção (à vista de quem a quiser ver) dos vários governos PS/PSD levaram o país à bancarrota.

Como sempre, os políticos dos partidos do costume mentiram durante a campanha eleitoral de 2011 e, uma vez com a “mão no pote”, cederam à chamada troika todos os instrumentos de soberania que, se se tivessem mantido nas mãos do Estado português, permitir-nos-iam sair do buraco em que nos meteram sem que para isso se tivesse de esmagar a dignidade do nosso povo.

Eis o que os portugueses ganharam por entregar a gestão da crise aos mesmos que a criaram: mais pobreza, emigração imparável, maior desigualdade, crescimento da dívida (passou de 90% para 130% do PIB em 4 anos), corte de salários, aumento de impostos, desemprego estruturalmente elevado (principalmente o dos jovens), serviços públicos de menor qualidade, retrocesso económico e social…

A solução

Como poderá, então, Portugal escapar ao abismo demográfico e social e recuperar a sua economia? O primeiro passo deverá ser já dado em setembro deste ano, nas eleições legislativas. Os portugueses deverão punir os partidos da alternância que se vão rodando no poder para, uma vez lá, aplicarem as mesmas políticas que fizeram com que 25% da população seja muito pobre, que projetaram o desemprego real para os 29%, que conduziram 5% da população a emigrar.

Depois de décadas de política de direita, Portugal precisa de uma verdadeira alternativa que aplique uma política de esquerda, que coloque os interesses dos portugueses à frente dos interesses dos credores, nacionais ou estrangeiros, que, numa frente alargada, exija a renegociação da dívida e que recupere para si os instrumentos de soberania vendidos a Bruxelas e a Frankfurt, pois só com eles Portugal poderá recuperar a sua independência.

Só assim, com uma política de esquerda, que seja simultaneamente patriótica e internacionalista, que defenda todos os povos europeus submetidos à desumanidade de organizações capitalistas apátridas e sem rosto… Só assim é que Portugal não desaparecerá. Só com uma política de esquerda que se centre nos interesses e na dignidade dos seus povos é que a Europa escapará à sua milenar História de guerras e destruição. Tal como estão hoje, Portugal e a Europa continuam na senda de um longo e doloroso suicídio.