Todos os artigos de Luísa Semedo

Doutorada em Filosofia, especialidade Ética e Política, Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV)

I’m not a number

« Au loin, à distance, j’ai vu quelque chose. En m’approchant, j’ai vu que ça bougeait. De plus près, j’ai vu que c’était un homme. Face à face, j’ai vu que c’était mon frère. » Proverbe berbère

O terror abateu-se mais uma vez sobre Paris, estamos de novo em estado de choque, siderados!
O terrorismo tem como desígnio aniquilar a nossa força, a nossa resistência mas sobretudo a nossa razão.
Ao terrível « déjà vu » das imagens televisivas, junta-se o « déjà vu » de certos comentários e reações. Desde as essenciais e emocionantes reações de amizade, solidariedade e humanismo aos já usuais « deslizes » xenófobos e islamofóbicos, e agora mais um álibi para não exercer o nosso dever de receber refugiados, porque aí estariam terroristas dissimulados. Ora outro dos desígnios do terrorismo é precisamente o clássico « dividir para reinar », armadilha esta que indignos políticos de direita e extrema-direita não se coíbem de tirar partido. http://www.liberation.fr/…/a-droite-et-a-l-extreme-droite-c… .
Outra ideia que vamos ver de novo surgir é a comparação do número de mortos e a incompreensão perante a diferença de tratamento entre barbáries. Na altura dos atentados do Charlie Hebdo, surgiu a questão da diferença de consideração entre Charlie e Baga http://www.courrierinternational.com/…/massacres-de-boko-ha…http://www.dailymaverick.co.za/…/2015-01-12-i-am-charlie-b…/  e agora surgirão vários comentários a denunciar a diferença de tratamento entre os mortos em França, na Síria, no Iraque ou no Mediterrâneo.
Ora várias considerações:

1. Não há razão para fazer comparações quantitativas, uma vida é uma vida, e não é a mobilização por Paris que deve ser criticada mas a falta de mobilização pelas populações que nos são mais longínquas.

2. É uma reação perfeitamente normal preocuparmo-nos em prioridade com os que nos estão próximos, com aqueles com que melhor nos identificamos pois é uma questão de pura sobrevivência da espécie, é uma disposição natural que constitui uma vantagem seletiva. Permitimos a sobrevivência da espécie de forma mais efetiva se concentramos os nossos esforços sobre aqueles que nos são próximos, sobre aqueles sobre quem podemos exercer a nossa ação de forma imediata.
A natureza é pragmática nestas coisas!

3. Quanto maior o número de vítimas menor é a empatia porque justamente a identificação é mais difícil, não é por acaso que nomear as vítimas tem mais impacto como no caso do pequenino Aylan, ou do nome Charlie. Os slogans “Je suis Charlie” ou “Je suis Aylan” são disso uma demonstração.

Mas bem sabemos que há uma diferença entre “o que é” e aquilo que “deve ser”.
A maneira de contornar estes comportamentos naturais é de lhes acrescentar princípios. E o princípio de que “uma vida é uma vida e tem o mesmo valor que qualquer outra”, resolve em parte o nosso dilema, quer esta vida esteja em Paris, Beirute ou numa desoladora embarcação de infortuna no Mediterrâneo.

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Ceci n’est pas un Président de la République

[Ceci n’est pas un Président de la République.]

Nem quando é representado e nem quando representa !
Esteve ausente das comemorações da República que dão legitimidade ao cargo que ocupa!
Excluiu partidos e os seus eleitores da República!
Defendeu como superior interesse nacional uma República encurvada, refém dos mercados!
Habituou-nos amiudadamente a não respeitar a Constituição da República Portuguesa que, por acaso, até diz o seguinte no artigo 108 º : « O poder político pertence ao POVO e é exercido nos termos da Constituição. »
Ora o povo votou e desceu à rua para dizer que queria uma mudança.
Está agora nas mãos deste Presidente respeitar a Constituição e a República que representa e DAR AO POVO O QUE É DO POVO! Que o canto do cisne presidencial seja enfim republicano!

Cavaco GIF

O fiel companheiro

O prémio « Europeu do ano » foi dedicado aos 11 milhões que vivem em Portugal !

http://www.dn.pt/portugal/interior/premio-europeu-do-ano-e-dedicado-aos-11-milhoes-que-vivem-em-portugal-4867156.html

Zynismus  é cinismo em alemão, palavra que tem como origem grega kynos que significa cão. Rui Machete ao receber o prémio assumiu uma postura de fiel companheiro ao declarar “Também cumprimos com o que nos foi pedido e ajudamos a Alemanha a justificar o seu papel de liderança”. É preciso relembrar que Rui Machete recebeu, em Berlim, o prémio das mãos do  comissário europeu alemão Günther Öttinger, o mesmo que tinha chamado de mau aluno à França por ser um « país deficitário recidivista» .

http://www.lesechos.fr/20/11/2014/lesechos.fr/0203953850320_deficit-de-la-france—le-coup-de-semonce-d-un-commissaire-europeen.htm

Portugal vê-se assim atribuir um diploma/prémio de bom aluno, mas Rui Machete não recebeu o prémio « em nome do » povo português mas às suas custas!

Vergonha em alemão é scham…

#NotInMyName

Os donos do terreno

http://next.liberation.fr/musique/2015/10/23/a-lisbonne-le-rythme-est-dans-l-afro_1408412

Ainda me lembro, no início dos anos 90, da minha surpresa no dia em que um « amigo branco » no Bairro da Serafina me perguntou se tinha música de pessoal negro para lhe emprestar. Perguntei-lhe se ele estava a falar de música estilo Michael Jackson ou Prince e ele respondeu « não música do teu pai, música africana, funaná, kuduro… », anos mais tarde estes estilos de música « democratizaram-se » em Portugal.

A presença cultural africana em Portugal deu um salto estimável e ao contrário do que afirma o subtítulo do artigo, só conheço « misturas » entre negros e brancos.

No entanto…

…há um trabalho colossal a ser feito para o reconhecimento da influência africana na cultura e identidade portuguesa ;

…há um trabalho colossal a ser feito para a representatividade dos Portugueses de origem africana nos media e na política (ex. quantos deputados de origem africana têm assento no parlamento ?) ;

… há um trabalho colossal a ser feito contra o racismo estrutural e institucional e ainda contra o racismo ordinário, que ainda tanto me choca quando o oiço nas ruas e cafés, em Portugal.

Quase tudo resta a fazer, não somente no que diz respeito aos direitos, à integração ou à representatividade dos Portugueses de origem africana, mas a todos aqueles que saem do imaginário coletivo do que é ou deve ser um perfeito cidadão em Portugal em termos de cor, origem, nacionalidade, orientação sexual, género ou condição física/mental.

Os « donos do terreno » (perdão aos Buraka)  ainda são aqueles que viram a cara para não ver que vivem num país mestiço e diverso, cabe-nos a nós fazer barulho (ou música !) para lhes engrandecer o campo de visão!

This government will self-destruct in ten days…

Ora aqui está o XX Governo Constitucional de Portugal!

Os futuros ex-ministros estão motivados, temos a Super Star, o Vice irrevogável, um ministro da administração interna que atestou da idoneidade de Ricardo Salgado (http://www.publico.pt/…/novo-ministro-da-administracao-inte…), temos um ministro da saúde que considera que tudo está bem no hospitais portugueses e que os médicos que se queixam são uns pobres comunistas com « opiniões » (http://www.tvi24.iol.pt/…/servicos-de-urgencia-em-portugal-…), uma ministra da Cultura, da Igualdade e da Cidadania que não percebe nada de Cultura mas que é expert na Igualdade, se excluirmos as questões LGBT da fórmula e que já tem trabalho de casa : 4 mulheres em 17 membros do executivo ! (http://www.cmjornal.xl.pt/…/teresa_morais_junta_cultura_igu…)
E entretanto ficámos a saber das novas medidas « austeritárias » em relação às pensões de invalidez (http://dinheirodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=238544).
Vão ser 10 longos dias!