Todos os artigos de Luísa Semedo

Doutorada em Filosofia, especialidade Ética e Política, Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV)

O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança.  Continue a ler O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

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Nem Putas, Nem Piegas

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Women bearing provocative words on their bodies take part in a “slut walk” in London on September 22, 2012 to protest against the police and courts’ denial of justice for rape victims. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS

Numa sondagem Ipsos para a associação Mémoire traumatique et victimologie, publicada dia 2 de março,  entre outros dados surpreendentes, ficámos a saber que mais de um quarto dos franceses (27%) declararam que, em certas condições, uma vítima de violação é responsável pelo crime, ou seja, advogam a chamada teoria do “Elle l’a bien cherché!”, ou como se diz em Português “Eh pá, a gaja meteu-se a jeito!”.

Mais de um terço (30,7%) dos jovens entre os 18-24 anos defendem que a mulher pode ter prazer sendo forçada numa relação sexual, ou seja acreditam na teoria, de fina análise psicológica, do “ela disse Não mas queria dizer Sim”. Sabemos também que somente 10% das vítimas de violação fazem queixa. Ora é caso para dizer “nem putas, nem piegas”, para aportuguesar e readaptar o slogan do movimento feminista francês “Ni putes, ni soumises”.

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Estes dados significam que a luta continua, que ganhámos batalhas, sim, mas que não podemos baixar os braços, porque os números são ainda implacáveis, e não deixam sombra para dúvidas, sobre o mundo ainda estruturalmente inigualitário e discriminatório em que vivemos, e isto sem necessitar de recorrer, para o auxílio à demonstração, dos casos mais dramáticos de países como a Arábia Saudita ou o Iémen.

Ora deixo aqui um dado pitoresco, para o leitor menos atento a estes pequenos detalhes da História, que resume bem o porquê da necessidade de prosseguir a luta…

…não há um único país no mundo em que a igualdade de género seja efetiva.

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Não insultem os católicos!

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Não insultem os cristãos e nomeadamente os católicos, maioritários em Portugal, porque eles também têm sentido de humor e sabem fazer piadas, inclusive sobre si próprios.

Não insultem os católicos, eles também acreditam na igualdade de género, apesar de Eva ser um apêndice de Adão, e de a mulher ter um papel subalterno na hierarquia eclesiástica.

Não insultem os católicos, eles também defendem a liberdade da mulher a dispor do seu corpo e estão a favor da legalização do IVG apesar de a Igreja ser contra.

Não insultem os católicos, eles também compreendem a importância do preservativo, e sabem que amar é mais que procriar.

Não insultem os católicos, eles também não discriminam as pessoas baseadas na sua orientação sexual e acreditam que vários tipos de famílias são possíveis, apesar da discriminação defendida pela Instituição.

Ora, amigos ateus, não sejamos mais papistas que Francisco, e deixemo-nos de paternalismos ofensivos à inteligência dos católicos.

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RFI – Expulsão dos migrantes de Calais

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http://pt.rfi.fr/franca/20160225-justica-francesa-autoriza-expulsao-dos-migrantes-de-calais

No Magazine Vida em França analisamos a decisão da justiça francesa dar luz verde para a demolição de parte do campo de refugiados em Calais, norte do país. Segundo as autoridades locais, o despejo afecta entre “800 a 1000” pessoas, as organizações humanitários falam de mais de 3000, entre as quais 300 crianças desacompanhados.

A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

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Ser ou não ser engraçadinha(o)

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Vamos aos factos :

­‒ No domingo dia 24 de janeiro, o candidato apoiado pela direita, Marcelo Rebelo de Sousa saiu vitorioso das eleições presidenciais.

‒ Nesse mesmo dia a candidata Marisa Matias, apoiada pelo Bloco de Esquerda, teve mais do dobro dos votos do candidato Edgar Silva apoiado pelo PCP.

­‒ Nessa noite o Bloco de Esquerda preferiu ver o copo meio cheio e escapou-lhe que a vitória estava do lado da direita e que os Portugueses não iam ser presididos pelos tão aplaudidos 10% da Marisa mas pelos 52% do Marcelo.

‒ Nessa mesma noite Jerónimo de Sousa, nervoso com os maus resultados, disse as seguinte frases :

«Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, portanto, enfim, com um discurso ajeitadamente populista, que pudesse aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Aquilo que caracteriza, portanto, este partido defensor dos interesses dos trabalhadores e do nosso povo, nesta coisa não somos capazes de mudar. (Ouvir aqui) »

‒ Entretanto as frases do Jerónimo sofreram severas medidas de austeridade, na ordem dos 80%, e passaram a ser citadas da seguinte forma :

« Podíamos arranjar uma candidata engraçadinha, mas não somos capazes de mudar. »

Os ânimos exaltaram-se, a vistas cegaram e o Secretário Geral do Partido Comunista Português, entre outros nomes bonitos foi insultado de velho-xexé por parte de Elizabete Azevedo-Harman.

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Não digam que não sabiam

Os média andam em alvoroço porque o fascista-entertainer-milionário Donald Trump fez a proposta indecente de proibir a entrada de muçulmanos nos EUA.

« Chez nous » também temos direito a estes belos cartazes do FN nas ruas e túneis de França, mas as reacções não são tão comovidas.

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Sarkozy afirmou até que não havia nada de imoral em votar FN. E não faz a distinção entre um partido republicano como o PS e um neo-fascista como o FN e faz ainda, como muitos outros, a amálgama grotesca e grosseira entre a extrema-esquerda, que sabemos defende o cosmopolitismo, e a extrema-direita que o abomina.

Ora,

Basta de desculpabilizar os eleitores do FN!

Basta de dizer que é um voto de protesto!

Basta de dizer que são pessoas desnorteadas e outros qualificativos paterno-relativistas!

Querem protestar votem no PG, no PCF, no NPA, nos Verdes, no Modem, no PRG, no Nouvelle Donne, no Parti Pirate, votem em branco ou abstenham-se e não digam que não sabiam que estavam a votar num partido racista e fascista.

Apesar da campanha de cosmética das Le Pen filha e sobrinha, a verdadeira natureza está à mostra e é assumida!

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