Todos os artigos de Luísa Semedo

Doutorada em Filosofia, especialidade Ética e Política, Universidade Paris-Sorbonne (Paris IV)

Eu não voto no monhé!

“Eu não voto no monhé” ouvi eu mais de uma vez à porta do Consulado Geral de Portugal em Paris durante a campanha das legislativas em 2015. O monhé era o atual primeiro-ministro António Costa…

Várias vozes caridosas, não racializadas, que se autoproclamam antirracistas (e que eu chamaria de aliados), levantam-se para dizer que os negros foram agredidos no Bairro da Jamaica por serem pobres e não por serem negros e que “os brancos pobres vivem a mesmíssima coisa”.  E ainda que um negro rico ou “bem-sucedido” não é alvo de racismo. Ora, eu não me vou pronunciar sobre se no caso específico houve ou não racismo por parte da polícia, que bateu em mulheres indefesas e espezinhou um homem que já estava imobilizado no chão. O que posso dizer é que conheço do interior alguns bairros sociais, nos quais vivi, que ainda os frequento, e que poderíamos qualificar de mistos na sua composição étnico-racial. E o que relatam os familiares e amigos racializados que aí vivem? Que quando num grupo de jovens há brancos e negros o tratamento infligido aos negros por alguma polícia é mais agressivo, há insultos de caráter racista, há a exigência de documentos a afrodescendentes portugueses, etc…

Esta situação não é só descrita por perceções individuais subjetivas, relatórios de instituições internacionais como o mais recente do Comité Anti-tortura do Conselho da Europa confirmam que Portugal é dos países com maior violência policial, nomeadamente em relação a pessoas afrodescendentes portuguesas ou estrangeiras[1].

Ora, não, a vivência de um branco pobre não é a mesma de um negro pobre.

No Bairro da Serafina em Lisboa onde vivi até aos vinte e quatro anos havia poucas famílias negras ou mistas como a minha e a grande maioria da população do bairro era pobre. Ora, para além da pobreza, pelo facto de sermos racializados, éramos submetidos também à violência tanto verbal como física por parte das outras crianças inclusive por adultos. Quantas vezes ouvi “preta vai prá tua terra!”, quantos insultos aos meus irmãos e ao meu pai… Mais tarde com namorados brancos os comentários de certos familiares “o quê? Com uma preta?” No liceu os tags que via todos os dias nas paredes “Pretos fora de Portugal”, “Raça, Nação” e que demoraram a desaparecer e que pelos vistos não chocavam ninguém. A lista é extensa… A experiência do racismo continua até hoje, sendo eu, por vezes, alvo não somente de insultos racistas nas redes sociais, mas também como aconteceu no ano passado com uma agressão física e verbal nos transportes públicos em França, com um poético “On est chez nous!” acompanhado de um corajoso pontapé (e não me parece que a pessoa que o fez me tivesse atacado por eu ser pobre). E estou longe de viver aquilo que vivem pessoas com nível de melanina superior. Alguns dirão… “mas são casos pontuais!”, como o dizem às mulheres que “só” levam uma chapada de vez em quando por parte de companheiros e… e então não faz mal, não é sistemático… Esquecendo-se de que o “pontual” deixa cicatrizes, condiciona comportamentos, provoca medo e destrói a confiança em si e nos outros.

Os brancos pobres não têm de passar por isto… e, a pobreza equivalente, o acesso à saúde, ao alojamento ou ao trabalho é sempre mais dificultada para uma pessoa racializada (afrodescendente, cigana, etc.).

Os negros ricos ou em posições de poder não são alvo de racismo?

Basta pensar neste episódio do “não voto no monhé” relativo a António Costa, nos Obamas[2], na Christiane Taubira em França, ou desportistas como Serena Williams ou jogadores de futebol insultados para que o simplista argumento caia por terra. O ser “menos negro” conferido, como por magia, pelo dinheiro ou pelo estatuto social não significa “ser branco”.

 

Quando as vozes caridosas dizem “o racismo é só uma questão de classe social” estão a negar a nossa vivência. Estão a por em causa a nossa palavra, os nossos sentimentos, as nossas experiências. É uma falta de respeito e de empatia. A empatia que consiste em colocar-se no lugar do outro sempre com a noção de que há uma distância irredutível entre a sua vivência e a minha simulação da sua experiência. É nesta distância respeitosa que está toda a ética, e diria até a humildade, da praxis empática.

O aliado da luta antirracista deve compreender qual é o seu lugar. Não, não é nosso inimigo, sim está do nosso lado e ainda bem, mas não, não é ele que deve ditar como a luta deve ser feita, que estratégia, que agenda, que vocabulário utilizar (penso aqui no caso do Mamadou Ba[3]. O aliado não pode falar em nome dos que são vítimas de racismo. Pode apoiar a causa, lutar por ela, mas não se deve apropriar de forma indevida e errónea da vivência de outrem nem a desqualificar.

“Eu estou com vocês pessoal, MAS… se saem da linha que EU decidi ser a boa para a defesa da VOSSA dignidade eu já não posso ser solidário”. É o que Martin Luther King já tinha, com clarividência, nomeado em 1963 de paternalismo[4].

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 “Então eu que luto por vocês, porque teria menos legitimidade? Como ousam por em causa o meu antirracismo que faço o favor de oferecer aos “manos”?  É o que eu chamaria em 2019 de militância caritativa…

O progresso civilizacional é importante para o coletivo. O fim do racismo, do sexismo, da homofobia será uma evolução para toda(o)s enquanto “humanidade”, para vivermos num mundo inclusivo, justo, de verdadeira paz social, onde ninguém fica de lado, onde ninguém larga a mão de ninguém. Mas estas realidades de discriminação e de ódio têm dinâmicas ao mesmo tempo similares e díspares. Uma convergência de lutas é possível e até necessária, mas não podemos cair no erro do “color-blindness”, “gender-blindness”, etc.  inclusive enquanto agentes de militância. Eu sou aliada da causa LGBTI mas não posso nunca esquecer o que a minha posição de aliada requere: não me atribui a liberdade de falar em nome de…, de considerar que porque consigo imaginar o que é ser discriminada ou por ter amigos e familiares que o são que sei aquilo que vivem, de facto, as pessoas LGBTI. Não, eu não sei o que é dar um beijo à minha namorada na rua e ser insultada ou agredida. Não, eu não sei o que é ter medo de ser posta fora de casa se contar aos meus pais. Eu imagino, eu não sei. Que estranho e indecente posicionamento seria o meu se dissesse “PARA MIM a homofobia nos dias que correm é residual”, “PARA MIM as pessoas homofóbicas em Portugal são uma minoria”. A análise alicerçada no “para mim” quando a situação não foi vivida na pele é inválida.

Há progresso? Claro que há. “Eu não voto no monhé”, mas temos um primeiro-ministro racializado. E é necessário valorizar o progresso porque é a demonstração de que a luta vale a pena e até como forma de respeito por todos os que lutaram antes e que inclusive aí perderam a vida. Mas… este verão fiquei a saber que o meu filho mais novo, de nove anos, nega o facto de ser mestiço, argumentando muito aflito que só é bronzeado. Compreendi a que ponto esta criança já assimilou o racismo e já começa na vida com uma penalizante perceção de quem é. Relembrou-me sentimentos próprios, de pouco orgulho, de há várias décadas e que revejo neste pequeno ser em 2019. Há progresso? Há! Mas tanto caminho a percorrer…

[1] https://www.publico.pt/2018/02/27/sociedade/noticia/conselho-da-europa-diz-que-portugal-e-dos-paises-europeus-com-mais-violencia-policial-1804518

[2] https://www.independent.co.uk/news/world/americas/president-obama-absolutely-suffer-racism-us-president-a7465281.html

[3] https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/mamadou-ba-neste-momento-temo-pelo-que-possa-acontecer-me

[4] “I have almost reached the regrettable conclusion that the Negro’s great stumbling block in his stride toward freedom is not the White Citizen’s Counciler or the Ku Klux Klanner, but the white moderate, who is more devoted to “order” than to justice; who prefers a negative peace which is the absence of tension to a positive peace which is the presence of justice; who constantly says: “I agree with you in the goal you seek, but I cannot agree with your methods of direct action”; who paternalistically believes he can set the timetable for another man’s freedom; who lives by a mythical concept of time and who constantly advises the Negro to wait for a “more convenient season.” (Letter from a Birmingham Jail, 16 April 1963)

Um olho no Pacheco Pereira, outro no cigano

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No ano passado, em “A burka de Pacheco Pereira”, já havia reagido ao desconhecimento do comentador profissional sobre a sociedade francesa, desconhecimento este que o condenara a uma visão redutora dos muçulmanos.

No artigo “Da burka ao colete de explosivos” JPP utilizava como argumento de autoridade ter estado recentemente num país europeu. Este argumento do “eu sei porque passei por lá” não lhe é próprio, nas últimas semanas saltaram do chapéu um número impressionante de ilustres especialistas dos bairros periféricos de Lisboa que afirmam conhecer a Cova da Moura porque lá deram uma vez um salto para comer uma cachupa, tornando a Cova da Moura na atração turística mais badalada, mais in, mais the place to be do ano.

Ora, no seu mais recente artigo de opinião de dia 24 de Julho, no Público, “Trump e os ciganos” – versão requentada do que já tinha proferido na Quadratura do Círculo de dia 20 de Julho – o cronista volta a dar voz ao seu desconhecimento, afirmando que não aprende nada com a extrema-direita francesa mas com Trump. No entanto, engana-se, pois teria muito a aprender com o FN e com a maneira como os outros partidos geriram o seu sucesso, porque se olhasse para mais perto e não se perdesse no outro lado do Atlântico a ver a Fox News, não confundiria o FN de Marine Le Pen com o do pai, e sobretudo não faria os mesmos erros de análise (voluntários ou não) já feitos, há muito, pela Direita francesa de Sarkozy & Co. utilizando, exatamente, os mesmos argumentos:

– Denúncia do politicamente correto;

– Defesa da palavra “descomplexada” (exprimir em público o que o povo pensa em privado e tem medo de dizer);

– Mistura entre liberdade de expressão e aceitação da linguagem racista, homofóbica ou misógina;

– Construção de uma retórica criadora de um fantasioso problema nacional envolvendo comunidades que representam uma parte minoritária da população, utilizando como exemplos situações pontuais ou circunscritas;

– Culpabilização de supostos modos de vida dessas comunidades;

– Instrumentalização da luta feminista como encobrimento da islamofobia/ciganofobia.

É necessário avisar o José Pacheco Pereira que a estratégia de Sarkozy & Co. para arrecadar os votos dos eleitores do FN falhou, porque se esqueceram que o povo prefere sempre o original à cópia e que quem lucrou com esses erros foi precisamente a extrema-direita. Hollande, Valls & Co. também queimaram as asas neste jogo que JPP acabou de descobrir. O que estes assessores, acredito que involuntários, da extrema-direita fizeram foi simplesmente abrir a caixa de Pandora.

O “politicamente correto” é a fina fronteira que permite, nomeadamente na esfera pública, um respeito mínimo em relação ao Outro. Como dizia Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano, “Le masque devient visage.” Ora o politicamente correto é pedagógico, e pode acabar por resultar na passagem da máscara à cara, e o mesmo é inversamente válido, libertar a palavra racista, é deitar abaixo o último limite entre a decência e a selvajaria civil. Foi o que aconteceu no Reino Unido e nos EUA: durante a campanha do referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE e sobretudo após a vitória do campo do Brexit os crimes de ódio aumentaram de 49% em relação ao mês anterior, verificando-se o mesmo fenómeno após a vitória de Trump com a multiplicação de manifestações de provocação dos supremacistas brancos.

Ana Gomes, eurodeputada, afirmou há alguns meses numa conferência em Paris que no Parlamento europeu a presença crescente da extrema-direita e o seguidismo da sua agenda, inclusive, por parte da Esquerda é inédita. Segundo Ana Gomes ouvem-se declarações que seriam impensáveis há alguns anos e sobretudo existe uma inércia gritante por parte das outras forças políticas. A “linguagem patrulhada” que JPP denuncia não está a ser a regra, é sobretudo a palavra descomplexada, populista, racista, homofóbica à la Le Pen, Sarkozy, Trump, Ventura ou Gentil Martins que se está a propagar. E o comentador está a participar, mesmo se involuntariamente, de forma ativa nesta ascensão do populismo. Ele é parte integrante deste movimento, ao não condenar de forma clara as declarações racistas de André Ventura banalizando-as e defendendo, ainda por cima, que “ele até tem alguma razão”.

JPP admite o óbvio na Quadratura do Círculo, ele não convive com ciganos, mas esquece-se de dizer que não convive ele nem a maioria dos portugueses, pois os cidadãos de etnia cigana não representam mais de 0,5% da população. Mais uma vez, Pacheco Pereira faz afirmações baseadas no “ouvi dizer” e participa na campanha de criação de um falso problema nacional com os ciganos. O que resultará no mesmo que aconteceu em França, pois são as populações que menos vivem com muçulmanos que mais votam FN e são as pessoas que vivem em ambiente multicultural que menos votam na extrema-direita. Ou seja, o voto racista é, muitas vezes, baseado em projeções, em medos fantasiosos, em receios resultantes de declarações como as de JPP que afirma que há aqui um problema que não deve ser silenciado e que, claro, ele tem coragem de denunciar.

JPP acaba o artigo com a técnica de diversão conhecida… “então e as meninas ciganas?” Dizendo que a esquerda não faz um centésimo dos protestos indignados sobre a condição das mulheres, e eu pergunto ao comentador feminista onde está a sua indignação contra o racismo? Porque prefere desculpabilizar as palavras racistas do seu camarada de partido e dar enfâse às “situações inaceitáveis que são permitidas a um número significativo de ciganos”?

Estamos todos de acordo, ninguém está acima da lei, mas também ninguém deveria estar abaixo. A linha vermelha não está em calarmos situações inaceitáveis que são impostas a um número significativo de ciganos. Afinal, quem quer silenciar quem?

A Escravatura, o segredo de família do Presidente

PR, Marcelo Rebelo de Sousa, visita Senegal
O Presidente da República de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa , espreita na porta “do não retorno” durante uma visita à Casa dos Escravos (entreposto para a América) na ilha de Gorée, Senegal, 13 de abril de 2017.  ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A 9 de Abril, Marine Le Pen negou a responsabilidade da França pela Rusga do Vel-d’Hiv, que consistiu na maior detenção e deportação de judeus realizada neste país durante a IIa Guerra Mundial. Quatro dias depois, a 13 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa negou, no Senegal, pelas suas descuidadas declarações eufemísticas sobre a Escravatura, apimentadas de um orgulho de mau gosto numa falsa pioneira abolição, a real responsabilidade de Portugal na perpetração deste Crime contra a Humanidade.

Com as devidas diferenças históricas e entre estas duas personalidades, ambos desejam, no entanto, preservar o segredo, o segredo de família que embaraça, que não nos enobrece, que nos causa vergonha. E o próprio do segredo de família é o silencio partilhado de uma realidade conhecida bem como as estratégias para a sua preservação, como negar, rever, desculpabilizar ou relativizar que se traduzem em expressões do estilo: “não aconteceu”, “não fui eu”, “foi o outro”, “não foi bem assim”, “o outro ainda fez pior”, “não foi assim tão grave”, “o que já lá vai, já lá vai”.

Apesar de em França ainda existirem figuras como Le Pen ou Fillon que repudiam nos seus programas eleitorais qualquer tipo de arrependimentos de Estado, a lei francesa nos últimos anos evoluiu, finalmente, sobre a questão da memória da Escravatura. Em 2001, foi promulgada a Lei Taubira para o reconhecimento do tráfico negreiro e da Escravatura enquanto crimes contra a Humanidade. No seguimento dessa lei, foi criado em 2004, o Comité Nacional para a Memória e História da Escravatura e, em 2006, foi instituído o dia 10 de maio como o dia comemorativo da memória da Escravatura e da sua abolição. Para além disso, a lei prevê que os manuais escolares e os projetos de investigação em História e Ciências Humanas acordem a devida importância a este facto histórico. Apesar do caminho que resta a percorrer, os franceses avançaram no desvelamento do segredo e na convicção de que a Verdade é o melhor remédio para a cicatrização destas feridas, tal como Mandela o compreendera quando criou no pós-apartheid a “Comissão Verdade e Reconciliação”.

Marcelo Rebelo de Sousa, ao não fazer este trabalho de Verdade na Ilha de Gorée, e não podendo negar a existência do acontecido, num momento à la Trump, preferiu o método da revisão, ao enunciar imprecisões históricas, facilmente verificáveis. Ora, o Marquês de Pombal não aboliu a Escravatura fazendo de nós uns vanguardistas da liberdade e igualdade dos povos. Ele deu com uma mão ao abolir a Escravatura em Portugal continental para tirar com a outra ao criar as Companhias de comércio do Grão-Pará e Maranhão e a de Pernambuco e Paraíba para facilitar a exportação de escravos para o Brasil. E a Escravatura não foi apenas, como diz o Presidente, uma injustiça ou um sacrifício aos Direitos Humanos, foi um Crime contra a Humanidade organizado e planeado, em que milhões de mulheres e homens foram durante séculos reduzidos, com violência, a mercadorias, a bens comerciais e sexuais. Esta infâmia continuou em versão dita light até 1974-75 com a opressão colonial nomeadamente através da prática de trabalhos forçados, com consequências que ainda hoje se fazem sentir nos descendentes destas populações escravizadas, com repercussões no desenvolvimento destes países a nível social e económico e ainda no Portugal atual em questões essenciais como a identidade, a discriminação ou a representatividade.

É difícil, bem sei, para o Senhor Presidente e para o romance nacional de admitir que a grandeza de país conquistador desses mares nunca antes navegados, foi acompanhada de crime, de barbaridade e de violações. É algo que gostaríamos que ficasse só entre nós, um segredo de família do qual nem vítimas nem culpados falam. Mas é esta a nossa história comum. Como descendente tanto de colonizadores como de colonizados, sinto na pele e na consciência a dualidade do que significa um Crime contra a Humanidade onde somos, enquanto seres humanos, ao mesmo tempo as vítimas e os culpados, os resistentes e os cúmplices, os cobardes e os heróis. Sejamos bravos e encaremos de uma vez por todas “a besta do passado olho no olho” para que “tendo pedido e recebido perdão e tendo feito correções, viremos agora a página — não para esquecê-lo, mas para não deixá-lo aprisionar-nos para sempre. Avancemos em direção a um futuro glorioso de uma nova sociedade em que as pessoas valham não em razão de irrelevâncias biológicas ou de outros estranhos atributos, mas porque são pessoas de valor infinito (…).[1]

[1] Desmond Tutu, Foreword by Chairperson, Truth and Reconciliation Commission of South Africa Report, Vol. I, 1998, pag. 22.

http://www.justice.gov.za/trc/report/finalreport/Volume%201.pdf

Artigo publicado no Lusojornal (www.lusojornal.com) de dia 26 de Abril 2017:

A escravatura

Recomendo:

  • Petição lançada por Pedro Schacht:

UM REGRESSO AO PASSADO EM GORÉE? NÃO EM NOSSO NOME!

Carta Aberta – Artigo DN

  • A intervenção de Miguel Vale de Almeida:

  • O artigo de André Barata:

“Maafa”: o grande desastre

A improvável assimilação

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François Fillon, o improvável, vencedor das primárias da Direita e, provável, próximo Presidente da República Francesa, tem produzido declarações, propostas e promessas que nos dizem particularmente respeito, a nós, estrangeiros, binacionais ou franceses de origem estrangeira em França.

O ex-primeiro ministro de Sarkozy – inspirado, quiçá, pelo ex-patrão – lançou-se igualmente na caça ao “politicamente correto”. Investiu a intrépida missão de apregoar em voz alta o pensamento que o medroso povo dissimula no conforto do seu íntimo. E apossou-se da defesa da “direita descomplexada”, que é como quem diz, adotar as mesmas temáticas e propostas do partido de extrema-direita Front National, sem vergonhas nem embaraços.

Passemos ideias exóticas e inovadoras[i], tais como:

– não se deve ensinar que o passado é fonte de interrogação;

­- o fim das aulas de línguas e cultura de origem (ELCO), sem propor alternativas, e com a infundada justificação que a prioridade deve ser dada ao ensino do Francês, como se a aprendizagem de uma língua invalidasse a outra;

­- a defesa do porte de uniforme como símbolo do respeito e autoridade e como forma de “criar uma verdadeira comunidade” entre os alunos.

Estas medidas, no entanto, já nos dão uma ideia da ideologia da uniformização que habita o íntimo do candidato às Presidenciais. Instrui-nos sobre o facto de Fillon defender que é a uniformidade que faz o coletivo excluindo, desta feita, os benefícios da diversidade.

Esta ideia de harmonia na estrita homogeneidade foi, mais claramente, enunciada quando Fillon propôs reservar o acesso à nacionalidade francesa aos assimilados, restringindo-a no caso de crianças nascidas em França de pais estrangeiros à maioridade do jovem, através de um processo de requisição voluntária de nacionalidade, deixando esta de ser automática, e ainda com a obrigação de responder a certos critérios de assimilação.

Conhecemos bem o termo de “assimilados”, pois nas antigas colónias portuguesas, o “assimilado”, distinto do indígena, era o autóctone que tinha atingido um certo nível de desenvolvimento, segundo critérios “civilizacionais” codificados, e que por isso usufruía de direitos superiores aos seus conterrâneos africanos. Os franceses partilhavam, igualmente, esta visão assimilacionista da relação com as populações colonizadas. A política de uniformização dos valores e culturas era praticada pela França que utilizava o termo de “evolués” para denominar uma certa elite africana, o que não deixa sombra de dúvida sobre a desconsideração pelas populações locais assim que o sentimento de superioridade do colonizador[ii].

As palavras têm a sua importância, e nomeadamente nestas questões, não são neutras. Um termo que foi considerado pejorativo, em grande parte devido a este passado colonial, volta alegremente às luzes da ribalta na boca de François Fillon. Verdade seja dita, o (provável) próximo Presidente da República tem uma visão sui generis da colonização francesa, considera que se deve terminar com contrições e penitências e que a França não tem de pedir desculpas por ter “ambicionado partilhar a sua cultura com os povos de África”, omitindo vergonhosamente a extrema violência física e moral da colonização e nomeadamente da escravatura.

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A visão etno-nacionalista de Fillon, de defesa do orgulho em ser francês, de orgulho nas suas origens, na sua História não somente exclui os franceses de origem estrangeira de uma plena pertença à terra que os viu nascer, como entra em contradição com a visão cosmopolita e universalista do Iluminismo, um dos orgulhos históricos franceses. Porém, Fillon demonstrou pouco interesse por essa herança ao defender no seu programa a suspensão da Convenção Europeia dos Direitos Humanos caso as suas proposições entrem em contradição com o Direito Europeu.

Ora, nós estrangeiros, filhos de estrangeiros ou pais de jovens nascidos em França sabemos bem que é possível emocionarmo-nos com a Marseillaise, no início de um jogo de futebol, estando ao mesmo tempo a comer um bom cozido à portuguesa. Nós sabemos que dentro de uma identidade são possíveis várias pertenças, sabemos que um indivíduo não é um ser monolítico e que é a diversidade, a troca com o exterior que nos faz progredir e enriquecer. A assimilação que consiste no abandono, na alteração profunda da sua identidade e especificidades socioculturais de origem é uma degradação de quem somos. A inclusão ou a integração permitem pensar um processo no qual o indivíduo se insere progressivamente na sociedade, guardando as suas particularidades sem que tal seja incompatível com as regras e os valores de República, sem que isso ponha em causa o seu sentimento de comunidade ou de solidariedade com os seus concidadãos.

À luz do programa de François Fillon podemo-nos, ainda, preocupar com o futuro das nossas associações, que poderão ser julgadas de comunitaristas, embora saibamos que as coletividades têm um papel importante na integração dos estrangeiros ou de origem estrangeira, através da promoção à cidadania, pelo sentimento de participação na vida da polis, pela troca com os cidadãos franceses ou de outras comunidades.

Quantos franceses ficaram a conhecer Portugal pela mão de um português de França, o mesmo que dá a conhecer a França à família e amigos em Portugal?

Muito resta a fazer, nomeadamente a luta contra a alienação política dos Portugueses que estão sub-representados nas inscrições nas listas eleitorais. A integração passa de facto por uma responsabilidade partilhada, por um compromisso entre o cidadão e as instituições públicas, mas sobretudo pela construção conjunta de uma comunidade plural e cosmopolita alicerçada em ideais humanistas e não numa forçada aculturação empobrecedora tanto para o indivíduo como para a Nação.

[i] Cf. discurso de Sablé-sur-Sarthe 28/08/2016 e http://www.fillon2017.fr

[ii] Keese, Alexander, Living with Ambiguity: Integrating an African Elite in French and Portuguese Africa, 1930-61, Stuttgart, Franz Steiner, 2007.

Artigo publicado no Luso Jornal de 07/12/2016

http://www.lusojornal.com

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Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?   Continue a ler Ser ou não ser gay…

O cidadão, a Presidenta e o Revival Tour

A semana passada, o Bloco de Esquerda lançou mais uma pedrada no charco das consciências progressistas do país, com a proposta de mudar o nome do Cartão do Cidadão para Cartão da Cidadania, por questões ligadas ao género da palavra cidadão.

Tivemos então o prazer de assistir ao “Revival Tour”, um espetáculo de tributo àquelas vedetas que tinham caído em esquecimento e que regressam às luzes da ribalta num show animado e jovial, feito de nostalgias e obscurantismos.

Voltámos a ouvir para o deleite de pequenos e grandes os comentários jocosos antifeministas assim que o clássico “então não há nada mais urgente?”, e assistimos aos já tradicionais e populares malabarismos gramaticais assistidos pelos guardiães da língua.

Uma dessas guardiãs, de sua graça Isabel Casanova, fez um brilharete no “Revival Tour”  com a sua muito aplaudida performance, “Calem-se, por favor, mas de vez!” da qual deixo aqui uns excertos, uns pequenos “amuse-bouches”, (expressão francesa de homenagem a Casanova, “linguista séria”, que confere autoridade à Academie Française para legiferar sobre a Língua Portuguesa):

“E contrariamente ao que já foi publicamente dito, não é verdade que «a língua reflete os valores, usos e costumes da sociedade».”

“Felizmente o bom senso dos portugueses só muito levemente acolheu o delírio da presidenta.”

(Que a ainda Presidenta Dilma Rousseff não a oiça e que se lancem petições no change.org para retirar a delirante palavra dos dicionários!)

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Para ver o espetáculo gratuito na sua versão integral ide por aqui…

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/controversias/calem-se-por-favor-mas-de-vez/3315

Esta performance de aparência inédita é na realidade número antigo, interpretado com mais ou menos mestria por antecessores seus.  Continue a ler O cidadão, a Presidenta e o Revival Tour

A “burka” de Pacheco Pereira

Considerações pós-leitura do artigo “Da burka ao colete de explosivos” de José Pacheco Pereira, do dia 26 de Março 2016 no jornal Público

Este é daqueles raros momentos em que me regozijo que os meus amigos muçulmanos em França não saibam, na sua maioria, ler português. Aliás eu própria gostaria, nestas ocasiões, de não saber ler tais enormidades escritas na língua de Camões!

Estas alarvidades, já tinham sido proferidas por Pacheco Pereira, na Quadratura do círculo de 24 de março, que aliás entraram em competição, na inépcia, com as declarações de Lobo Xavier que afirmou que a vida de um cidadão ocidental tem um valor superior  às vidas de outros cidadãos do mundo (não estando somente a falar do valor mediático, mas como ele próprio afirma, “também por razões de valores”) e que “o medo tem mais significado na Europa”, sem que isso causasse grande, para não dizer nenhuma, resistência por parte dos comparsas.

As cinco primeiras palavras do artigo de Pacheco Pereira resumem bem o problema de que padece, e eu diria até que constituem a rede, diante dos olhos, da burka que o adorna.

“Recentemente estive num país europeu”, escreve (por acaso até seria interessante saber de que país se trata). Ora estar, visitar ou passar momentaneamente não é viver num país. Pacheco Pereira assume que estas saídas esporádicas dos salões de Carnaxide lhe dão autoridade para falar do que não sabe. O ter reparado, num certo país, superior número de mulheres de burka ou niqab não é razão suficiente para depois poder atirar com “verdades”, sobre os muçulmanos, que desconhece.

Ou então, vá, sejamos compreensivos e partamos do princípio que ele tem uns amigos no estrangeiro que lhe contaram, seria então de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, há amigos que me contaram isto, mas eu não sei se é verdade!” Ou então ele leu nalgum sítio, seria igualmente de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, eu li isto algures, mas não sei se é verdade!” Continue a ler A “burka” de Pacheco Pereira