Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?  

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Ora, a meu ver existe uma inexatidão na analogia. “Eu sou Charlie” ou “Eu sou Paris” estaria mais próximo da frase “Eu sou Pulse” (o nome da discoteca), ou “Eu sou Orlando”.  “Eu sou gay”, no caso dos ataques ao jornal Charlie Hebdo, equivaleria talvez a um “Eu sou jornalista”.  Mas “ser  Charlie” ou “ser jornalista” não mexe com a nossa identidade profunda. No ataque ao Hyper Cacher, em que a motivação do ataque terrorista foi claramente antissemita, também não foi utilizado o “Eu sou judeu” que estaria, neste caso, mais próximo do “Eu sou gay”. Há várias razões para não declarar, em solidariedade, ser uma coisa que não se é, inclusive a homofobia, mas aquela que me parece mais interessante neste caso é o argumento do medo. “Eu sou gay” é uma declaração que ainda hoje implica consequências pois todos sabemos a que ponto estamos a falar de uma comunidade particularmente ostracizada. Não ter utilizado o “eu sou gay” como se utilizou o “eu sou Charlie” é também revelador da consciência geral da condição particularmente vulnerável, em que se encontra a comunidade LGBT em todo mundo. Como escrevi há uns tempos não há nenhum país no mundo que respeite a paridade homem-mulher, e podemos igualmente colocar a questão se existe algum país no mundo em que as pessoas LGBT não sejam alvo de violência extrema, de discriminações ou de chacota. Recordo-me, por exemplo, de um episódio recente e banal numa “evoluída” conferência na “civilizada” Calouste Gulbenkian em Paris, em que a utilização por um orador da palavra “bicha” em vez de “fila” deu azo a hilaridade quase geral.

Quando tive conhecimento do massacre de Orlando, um dos meus primeiros pensamentos foi para os pré-adolescentes que estão neste momento em pleno questionamento sobre a sua orientação sexual. Rememorei quando, muito pequena, ouvi falar pela primeira vez dos skinheads e do Klu Klux Klan, e da ideia de se poder matar alguém unicamente devido à sua cor e de como fiquei aterrada por mim e pela minha família. Pensei nos mais jovens que foram, na semana passada, pela primeira vez confrontados à possibilidade de poderem ser assassinados unicamente por serem quem são. E de como o medo poderá influenciar as suas existências, as suas liberdades.

Diz-se que 10% da população é LGBT, nas “Comunidades” em França essa percentagem parece não existir, gays “assumidos” e politizados, por exemplo, contam-se pelos dedos das mãos. É necessário ter consciência que estamos a falar de Portugueses que estão em especial dificuldade pois acumulam os constragimentos de fazerem duplamente parte das “minorias”, com todos os obstáculos à integração que tal acarreta. Os Portugueses LGBT em França são por vezes, como os outros, obrigados a parecer mais franceses que François e mais heterossexuais que a Christine Boutin. Muitos destes Portugueses vivem em núcleos familiares restritos e em caso de rotura com a família ficam em situação particularmente vulnerável. A condição emigrante potencia muitas vezes as dificuldades que já viviam em Portugal.  Um trabalho sobre a igualdade nas Comunidades passa, igualmente, por incorporar a questão LGBT nas nossas preocupações.

Ser ou não ser gay não é questão de escolha, mas pode ainda, infelizmente, ser uma questão de vida ou de morte.

Texto publicado no Luso Jornal 22/06/2016

http://www.lusojornal.com

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