O cidadão, a Presidenta e o Revival Tour

A semana passada, o Bloco de Esquerda lançou mais uma pedrada no charco das consciências progressistas do país, com a proposta de mudar o nome do Cartão do Cidadão para Cartão da Cidadania, por questões ligadas ao género da palavra cidadão.

Tivemos então o prazer de assistir ao “Revival Tour”, um espetáculo de tributo àquelas vedetas que tinham caído em esquecimento e que regressam às luzes da ribalta num show animado e jovial, feito de nostalgias e obscurantismos.

Voltámos a ouvir para o deleite de pequenos e grandes os comentários jocosos antifeministas assim que o clássico “então não há nada mais urgente?”, e assistimos aos já tradicionais e populares malabarismos gramaticais assistidos pelos guardiães da língua.

Uma dessas guardiãs, de sua graça Isabel Casanova, fez um brilharete no “Revival Tour”  com a sua muito aplaudida performance, “Calem-se, por favor, mas de vez!” da qual deixo aqui uns excertos, uns pequenos “amuse-bouches”, (expressão francesa de homenagem a Casanova, “linguista séria”, que confere autoridade à Academie Française para legiferar sobre a Língua Portuguesa):

“E contrariamente ao que já foi publicamente dito, não é verdade que «a língua reflete os valores, usos e costumes da sociedade».”

“Felizmente o bom senso dos portugueses só muito levemente acolheu o delírio da presidenta.”

(Que a ainda Presidenta Dilma Rousseff não a oiça e que se lancem petições no change.org para retirar a delirante palavra dos dicionários!)

conversa-com-a-presidenta dilma rousseff

Para ver o espetáculo gratuito na sua versão integral ide por aqui…

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/controversias/calem-se-por-favor-mas-de-vez/3315

Esta performance de aparência inédita é na realidade número antigo, interpretado com mais ou menos mestria por antecessores seus. 

Há quase quarenta anos, em 1979, quando Maria de Lourdes Pintasilgo foi eleita Primeira-Ministra de Portugal, assistimos a performance similar. E não é que na altura também se cantava o “Oh diabo, mas que delírio chamar Primeira-ministra!”

pintasilgo primeiro ministro

Aqui fica o excerto da performance da altura, do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, solicitado pelo Diário de Notícias para resolver o imbróglio (citado no livro “Mulheres, liderança política e media” de Carla Martins):

“a designação primeiro-ministro constitui um grupo de duas palavras já de tal modo solidificado que cada um dos elementos parece ter perdido autonomia. (…) desencadear o processo de formação do feminino em relação a ela implicaria uma espécie de desintegração da forma. Remotivação de cada um dos elementos, formação do feminino e reintegração no léxico da nova lexia ‒ com a correspondente consagração pelo seu uso ‒ o que é sempre demorado, bastante incerto e linguisticamente pouco económico. (…) o êxito de uma tal opção, agora, nos parece um tanto duvidoso junto do falante comum.[1]

E não é que o “falante comum” dissolveu o “grupo de duas palavras já de tal modo solidificado” e sobreviveu corajosamente à “desintegração da forma”!

 No mesmo livro Carla Martins cita as palavras de uma crónica de Adelino Alves em 1979 no jornal O Dia

“Eu ainda me lembro de certa dificuldade no uso da palavra “deputada” que tão mal soava a ouvidos mais exigentes, mas a verdade é que o termo no feminino acabou por vencer.[2]

Ora, relembro à “linguista séria”, que apresenta “argumentos um pouco mais científicos” e que nos mandou tão educadamente calar, que a Académie Française não cessou funções em 1984. Esta instituição, apesar de ser eminentemente conservadora, já foi entretanto emitindo uma quantas declarações neste últimos 32 anos. As de 10 de outubro de 2014 assumem “o desejo legítimo dos indivíduos” de fazer concordar a denominação dos seus cargos públicos com a sua “identidade própria”. E relembra ainda as declarações de 2002 em que a Académie se opõe a qualquer autoritarismo no uso da feminização da denominação dos cargos e que deixa o tempo fazer a triagem entre a melhor forma de designação.

Dito isto, não vou mandar calar a Senhora Casanova até porque não sou em nada “séria” para possuir essa autoridade, mas permito-me aconselhá-la a rever noções básicas como a diferença entre argumentos científicos e opiniões. E contrariamente ao que Isabel Casanova poderá pensar as suas opiniões como linguista refletem os seus “valores, usos e costumes”.

 

[1] “A primeiro-ministro ou a senhora primeiro-ministro”, DN, 30/07/1979

[2] Adelino Alves, « Ministros e ministras », O Dia, 28/07/1979

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