Palmira: Património da (Des)humanidade

Eis a minha declaração de interesses: ao longo de muitos anos, trabalhei como arqueólogo, e considero, portanto, que terei alguma sensibilidade, talvez acima da média, para as questões da defesa do Património Histórico e Arqueológico. Dito isto, vejamos.

Desde que o DAESH (ou “Estado Islâmico”) conquistou Palmira em maio de 2015, numa das mais inacreditáveis ofensivas do seu exército de patas-ao-léu – isso tudo não obstante os “intensos” e “certeiros” bombardeamentos da força aérea dos EUA, o grande aliado das teocracias do Golfo Pérsico e da máquina-de-rebentar curdos que é a Turquia –, que os meios de comunicação social ocidentais, pelo menos os daqueles países cuja língua domino, se fartaram (e bem!) de chamar a atenção para os atentados contra os monumentos que constituem o Património da Humanidade da cidade, com o selo da UNESCO, perpetrados pelos combatentes do DAESH. Quem é que, no seu perfeito juízo, não fica chocado com a destruição de obras de arte com mais de dois mil anos?

A atenção dada a esses crimes de lesa-cultura não chocará ninguém e ainda bem que acontece.

O que me choca, todavia, é, em contraste, a falta de atenção que esses mesmos meios de comunicação social deram (e dão) à “Humanidade” que habitava a cidade que é “Património” da UNESCO. Como se na fórmula “Património da Humanidade”, a primeira palavra tivesse mais importância do que a última. Como se sem “Humanidade” fosse possível existir “Património”.

Assim, ao longo de dez meses de histerismo patrimonial perante a destruição levada a cabo pelo invencível exército do DAESH, com os seus temíveis Toyotas carregados de armamento ao nível de uma potência militar como o Lesoto, e ao qual as forças da NATO não conseguiram deter, a cidade de Palmira esvaziou-se de gente. Gente essa que se foi acumulando ora nas valas comuns abertas no deserto, ora nos campos de refugiados turcos, ora ao longo das barreiras de arame farpado da “Fortaleza Europa”. Os media ocidentais choraram (e bem, insisto) sobre a poeira derramada pelos desmantelamentos do Património da UNESCO ao mesmo tempo que ignoravam as centenas de milhares de pessoas que desapareceram da cidade, que antes da guerra civil estava cheia de fulgor e pujança.

Entretanto, há uns dias, o exército sírio (que, certamente por esquecimento, alguns jornais já não identificam como o maléfico “exército do regime de Assad”), libertou Palmira com a ajuda dos bombardeamentos da força aérea russa (que, pelos vistos, são um bocadinho mais “intensos” e “certeiros” quando se trata de atingir os terroristas do DAESH, aos quais alguns intelectuais de esquerda chamam de “sub-humanos”, como se ao desumanizar os assassinos se tornasse mais fácil derrotá-los).

Ora, os jornais e as televisões, nestes dias pós-libertação, continuam a ignorar a “Humanidade” – a que fugiu de Palmira, a que morreu em Palmira e a que resistiu em Palmira – para se concentrarem apenas no “Património”.

Conclusão: se, em Portugal (ou em qualquer outro país da Europa), se desse tanta atenção ao Património europeu como se dá ao Património de Palmira, eu nunca teria sido obrigado a emigrar e viveria, hoje, uma vida de luxo na minha villa alentejana graças à riqueza acumulada no desempenho da minha antiga profissão. Seria um arqueólogo riquíssimo!

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