Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

 

Artigo que põe o dedo na ferida do problema belga e europeu: a pobreza, a falta de oportunidades escolares e de trabalho, a guetização fomentada por péssimas politicas públicas…No fundo, uma espécie de Apartheid social e laboral que potencia o extremismo violento.

Tradução portuguesa da primeira parte do artigo de David Van Reybrouk, originalmente escrito em flamengo, mas cuja versão francesa saiu no Le Monde de 27 de Março de 2016 (pode ser lida aqui: http://www.pressreader.com/france/le-monde/20160327/281925952144035)

A Bélgica negligenciou as suas mais recentes fraturas

A Bélgica, focalizada sobre o passado, açambarcada pela rutura entre flamengos e valões, abandonou os seus habitantes saídos da emigração. Aturdidos por esse “Apartheid”, a juventude esquecida radicalizou-se até à derrapagem final.

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Bairro de Molenbeek, em Bruxelas

Poucos países da União Europeia têm um fosso tão grande entre os estudantes autóctones e aqueles de origem estrangeira do que a Bélgica. Existem poucos países da União Europeia onde as pessoas oriundas da emigração (ditas alóctones) têm tantos problemas em encontrar trabalho. Nenhum outro país europeu forneceu tantos combatentes para a Síria como a Bélgica. Nós não o sabíamos?

Sim, sabíamo-lo. Desde há mais de dez anos, os sociólogos têm avisado que a escolarização dos alóctones tem perdido força. Se bem que os estudantes de origem belga se comportem razoavelmente nos testes internacionais, o fosso que os separa das crianças e dos jovens saídos da emigração não para de se alargar. 28% destes últimos abandonam a escola sem conseguirem obter qualquer diploma do ensino secundário. Aos 17 anos de idade, 68% de entre eles chumbaram pelo menos uma vez (números do ensino francófono). Em nenhum outro país europeu, a segregação entre os estudantes “brancos” performantes e os estudantes alóctones é tão grande como na Bélgica.

Em Bruxelas, os bairros de emigrantes depauperados encontram-se entre as comunas mais pobres da Bélgica. Quem nasça numa família de emigrantes deverá ignorar as estatísticas, pois elas mostrar-lhe-ão que a sua geração não terá mais competências do que a dos seus pais. Mostrar-lhe-ão que as suas oportunidades no mercado de trabalho serão consideravelmente mais reduzidas do que aquelas dos seus contemporâneos: se o desemprego médio anda, na sua comuna, à volta de 30%, o dos jovens eleva-se a 40% e, em certos bairros, atinge mesmo os 50% ou 60%.

Estas percentagens sugerem que isto não resulta apenas de falta de determinação, mas, sim, que existem também estruturas contra as quais o individuo não se consegue medir. E se, quase por acaso, ele conseguir arranjar um trabalho, essas mesmas estatísticas provar-lhe-ão que uma pessoa em cada duas que saia da emigração se deverá contentar com um trabalho precário de baixos salários.

Os sociólogos belgas falam, por estes dias, de «etno-estratificação»: será a sua origem a definir para qual segmento do mercado de trabalho um indivíduo será conduzido.

A menos, claro, que se opte por uma existência mais perigosa. A criminalidade prolifera nesses bairros. Cada vez mais, a criminalidade serve de trampolim para a violência de inspiração religiosa.

O professor belga Rik Coolsaet analisou quais os motivos que levaram os combatentes belgas a partirem para a guerra na Síria; e ele chegou à conclusão que a religião é, na maior parte das vezes, um mero acessório. Ele subscreve a tese de que se trata não tanto de «muçulmanos radicalizados», mas, sim, de «radicais islamizados». Em muitos desses casos, a radicalização religiosa não é o fruto de um processo de meses ou de anos, mas de apenas algumas semanas. Os jovens que se juntam às fileiras do Estado Islâmico conhecem melhor as técnicas de como roubar um carro do que as suras do Corão.

Tradução de Nuno Gomes Garcia

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