4 comentários a 4 trechos de artigo de Pacheco Pereira

Quatro comentários críticos (um pouco longos) a quatro trechos do artigo de opinião de Pacheco Pereira (JPP). Cito e comento cada trecho:

1 – “o relativismo “multicultural” pode ser muito bem avontadado, mas representa uma cedência de valores civilizacionais inaceitável por quem acredita que um mundo com direitos humanos é melhor do que a aceitação de qualquer selvajaria em nome dos “costumes” ou da religião.”

Dificilmente JPP encontrará defensores do relativismo “multicultural” que não acreditem num mundo com direitos humanos. Direi até que mais facilmente JPP encontrará adversários dos direitos humanos entre adversários do relativismo “multicultural”. E isto tanto à esquerda como à direita, tanto entre confissões religiosas como no mais arreligioso posicionamento público. E as razões adivinham-se depressa. Os direitos humanos são uma condição de possibilidade para a convivência de grandes diferenças multiculturais. Num mundo onde vigorem “valores civilizacionais” definidos como normatividade cultural para todas as culturas, porventura com minudências maliciosas como uma escala entre as mais e as menos civilizadas, os direitos humanos serão apenas um produto dessa normatividade que tem muito menos de possibilitadora do que de impositiva.

2 – “apesar das sucessivas declarações apaziguadoras de que a maioria das pessoas que vivem em bairros como Molenbeek em Bruxelas são gente pacífica — e são — e que condena com toda a veemência os actos de terrorismo — aí já não é bem assim, há nuances —, a verdade é que essas comunidades, que deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo, estão longe de o estar. E aí contam as fronteiras que a alteridade cultural ajudou a erguer, dobrada da crescente adesão dos jovens a um islão fundamentalista, e que reforçam o gueto por dentro. Por fora, sabemos quais são os factores que reforçam esse mesmo gueto, a falta de mobilidade vertical que a estagnação económica da Europa dos últimos anos acentuou e a dificuldade que as sociedades europeias têm de criar o élan ascendente que o melting pot americano tem conseguido para a maioria dos seus emigrantes, muitos dos quais chegam sem nada.”

JPP parece preferir uma perspectiva assimilacionista – como a do “melting pot” – às perspectivas multiculturais. E para justificar a preferência compara a situação social das comunidades muçulmanas como a de Molenbeek com a sociedade americana, o que me parece adequado. O que me parece inadequado é o que escolhe comparar entre elas. A explicação mais geral que apresenta para o mal-estar das comunidades muçulmanas na Europa é a ausência de mobilidade social e uma estagnação económica que se regista na Europa como não se regista nos Estados Unidos, factores que transcendem por completo a diferença em questão. Na melhor das hipóteses, JPP poderia argumentar que em certas condições económicas degradadas o melting pot responde melhor do que a pluralidade multicultural. Mas alguma vez deveríamos basear escolha tão decisiva em tais termos de eficiência? Não tivesse havido austeridade e opressão social, será que JPP passaria a perfilhar o pluralismo multicultural, agora pelas razões certas – a não opressão da diversidade e riqueza de modos de pensar e viver que a humanidade consegue dar-se a si mesma? E se sim, então sacrificar o pluralismo multicultural, que tem as suas boas razões, a razões que lhe são estranhas e que devem ser atacadas no seu plano adequado – a luta por menos opressão social, maior mobilidade social, menos desigualdade, menos austeridade, etc. – não é o caminho errado? Tanto mais errado quanto não se concebe o que possa ser um melting pot em que estão em causa religiões?

Por outro lado, assumir que as comunidades muçulmanas deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo é muito discutível. Faço uma comparação que me desagrada fazer por variadas razões, mas que serve, ainda assim, o propósito de desmascarar certos atalhos: Por acaso foi o povo alemão quem esteve na vanguarda da luta contra o nazismo? Não e nem por isso o assumimos historicamente como um povo colaboracionista. Muito menos assumimos que derrotar o nazismo implicasse eliminar a cultura alemã. Mais: não foi a cultura alemã parasitada pelo nazismo? Não foram Nietzsche e Wagner, e os mitos germânicos mobilizados para interpretações autojustificatórias do nazismo? O combate ao terrorismo deve mobilizar certamente as comunidades onde ele por vezes se forma, mas esperar que sejam elas a vanguarda da luta contra o terrorismo resulta apenas em pretexto para as acusar e as condenar ao círculo vicioso que em absolutamente nada contribuirá para acabar com o terrorismo.

3 – “Depois há aquele factor que também o nosso “politicamente correcto” tem dificuldade em confrontar: o terrorismo da Al-Qaeda e do Daesh comporta uma componente religiosa, ou melhor, político-religiosa, que temos muita dificuldade em perceber em sociedades já com séculos de laicização. A resposta que se dá vai das alarvidades de Trump às proclamações sucessivas de que o islão “nada tem que ver” com o terrorismo, que é uma perversão do islão. Na verdade, tem. Não podemos separar o lado “bom” do “mau” de uma religião. Há uma corrente no islão, aliás já antiga, que justifica a exterminação dos “infiéis”, como no passado aconteceu também no cristianismo. Aliás, deveríamos voltar à nossa história cristã para perceber alguma coisa sobre este fundamentalismo, visto que já o tivemos com bastante força no cristianismo, e está longe de desaparecer de todo. Por isso, se ignoramos que estes jovens que se suicidam, e também matam, têm também motivações do foro religioso, não percebemos que a religião, entendida de uma forma que nós consideramos para nosso conforto como “pervertida”, está presente nos actos dos terroristas.”

Sinceramente, eu não percebo a dificuldade de JPP em perceber o facto de o terrorismo da Al-Qaeda e de o Daesh comportar uma componente político-religiosa. A afirmação de que somos sociedades já com séculos de laicização é muitíssimo insatisfatória.

Primeiro, talvez fosse bom lembrar que mesmo aqui em Portugal não é preciso remontar a um século atrás para darmos conta de um movimento com uma fortíssima componente político-religiosa e que certamente não escapa à capacidade de compreensão de ninguém. Basta abrir a página de Wikipedia para ler palavras como estas de António Sardinha, um dos doutrinadores do Integralismo Lusitano: “O que se nos impõe é restituir à Pátria o sentimento da sua grandeza, – não duma grandeza retórica ou enfática, mas naturalmente, da grandeza que se desprende da vocação superior que a Portugal pertence dentro do plano providencial de Deus, como nação ungida para a dilatação da Fé e do Império. Dilatar a Fé e o Império equivale a sustentar o guião despedaçado da Civilização. Os motivos de luta e de apostolado que outrora nos levavam à Cruzada e à Navegação, esses motivos subsistem”. Falta alguma coisa? Nações cristãs motivadas pela luta cruzada fizeram parte do imaginário de muitos – hoje em dia ainda de alguns – e não são menos dadas a perceber pelo facto histórico de termos uma história de laicização com séculos. Significa isto que é tudo igual ou comparável salvaguardadas as proporções? É claro que não. Significa é que as causas estão novamente mal identificadas. Não é o carácter político-religioso do Daesh que o torna ignominioso. É a violência, a destruição, o horror que perpetra contra pessoas, comunidades, culturas. E essa ignomínia tem de ser compreendida em bases distintas do que a citação de versículos do Corão.

Em segundo lugar, não há lado “bom” e “mau” da religião, pelo que não faz qualquer sentido argumentar que se erra ao pôr as coisas nos termos de uma alternativa como: ou o Islão é bom ou está pervertido. Nem uma coisa nem outra, da mesma maneira que não há culturas sãs e culturas pervertidas. A própria abordagem médico-psiquiatrizante a culturas e religiões é já de si um perigoso absurdo. O que há é usos bons e maus da religião, tal como há, houve e continuará a haver usos bons e maus da cultura. Mais precisamente, entenda-se por usos maus e bons, respectivamente, usos opressores e usos emancipatórios. Curiosa, lamentável e ironicamente, Nietzsche já não viu a sua obra sofrer os usos opressores que eram nela própria tão bem desmascarados.

Em terceiro lugar, quando se fala da laicização do estado, convém ter em atenção dois pontos. Por um lado, a secularização das sociedades é um processo histórico que deu lugar a uma época pós-secular. Habermas deu bem conta desse aspecto há já alguns anos e referia-se à sociedade ocidental, esta em que vivemos convencidos de que nada volta atrás. Este regresso do político-religioso tem muitas feições, sendo o fundamentalismo islâmico dos nossos dias uma delas, o que certamente não é mera coincidência. O mundo não é global apenas para o mercado. Aliás, é bom sublinhar aquilo que se tende a não sublinhar: este fundamentalismo anima-se tanto de dentro da sociedade europeia como de fora dela. Por outro lado, a separação do estado e da igreja não é, como tanto se faz crer, uma separação ganha contra a religião, como se “ nós” cá tivéssemos feito o trabalho de casa que nos países islâmicos não terá sido feito. Na verdade, consta do ADN do cristianismo a separação das esferas religiosa e secular – “Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”. Aliás, não se perde nada em notar ainda que grande parte dos conceitos políticos que consideramos como se fossem naturais à política, aos seus poderes e às suas instituições, são o resultado de conceitos teológicos secularizados. Ao menos nisso há que concordar com Carl Schmitt. E evidentemente esses conceitos vêm da tradição teológica cristã, da sua metafísica própria. Por exemplo, donde veio o conceito de soberania senão de um “secularização” que Jean Bodin fez a um versículo de uma carta de S. Paulo em que se caracterizava o poder de deus? Portanto, se formos intelectualmente mais corajosos havíamos de reconhecer à política (ou algo análogo à política) poder por esse mundo fora constituir-se com outros conceitos teológicos secularizados, ou até com conceitos não tão secularizados. Enquanto Cristo separava as duas ordens, a religiosa e a secular, Maomé, que era realmente um homem, liderava política e espiritualmente uma comunidade que organizou, a que até conferiu uma constituição, e onde pelo menos se concebeu a possibilidade da convivência de várias religiões. Ter corrido mal é outra história. O ponto é que narrativas muito diferentes tornam compreensível que tenham desenvolvido, nos seus respetivos processos históricos, soluções muito diferentes para que se alcançassem a convivência e a paz sociais. Batota é esperar que só umas soluções funcionem ou que uma solução funcione para todas as narrativas ou para todos os tempos. Ou pior: que não funcionando aquela em que nos reconheçamos nos sintamos no direito de fazer funcionar o argumento da força. Precisamente o que nos derrota.

4 – “Dito isto, estamos metidos num grande sarilho.”

Nisto concordamos. Mas por razões diferentes. Não vamos lá com “valores civilizacionais” que realmente não têm amplitude suficiente para acolher o pluralismo multicultural, não vamos lá com dedos acusadores apontados a comunidades acossadas, não vamos lá pela assunção de que existem lados “bons” e “maus” na religião. Vamos lá se combatermos o terrorismo é certo. Em toda a parte e de forma solidária. Mas, mais a montante, é imprescindível darmos respostas mais satisfatórias à sociedade crescentemente desigual e socialmente imóvel que é a sociedade europeia, se concebermos outras possibilidades de organização a sociedades que não a europeia, e outras possibilidades de convivência com a nossa e dentro da nossa. A História é muito mais criativa do que imaginamos.

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