A “burka” de Pacheco Pereira

Considerações pós-leitura do artigo “Da burka ao colete de explosivos” de José Pacheco Pereira, do dia 26 de Março 2016 no jornal Público

Este é daqueles raros momentos em que me regozijo que os meus amigos muçulmanos em França não saibam, na sua maioria, ler português. Aliás eu própria gostaria, nestas ocasiões, de não saber ler tais enormidades escritas na língua de Camões!

Estas alarvidades, já tinham sido proferidas por Pacheco Pereira, na Quadratura do círculo de 24 de março, que aliás entraram em competição, na inépcia, com as declarações de Lobo Xavier que afirmou que a vida de um cidadão ocidental tem um valor superior  às vidas de outros cidadãos do mundo (não estando somente a falar do valor mediático, mas como ele próprio afirma, “também por razões de valores”) e que “o medo tem mais significado na Europa”, sem que isso causasse grande, para não dizer nenhuma, resistência por parte dos comparsas.

As cinco primeiras palavras do artigo de Pacheco Pereira resumem bem o problema de que padece, e eu diria até que constituem a rede, diante dos olhos, da burka que o adorna.

“Recentemente estive num país europeu”, escreve (por acaso até seria interessante saber de que país se trata). Ora estar, visitar ou passar momentaneamente não é viver num país. Pacheco Pereira assume que estas saídas esporádicas dos salões de Carnaxide lhe dão autoridade para falar do que não sabe. O ter reparado, num certo país, superior número de mulheres de burka ou niqab não é razão suficiente para depois poder atirar com “verdades”, sobre os muçulmanos, que desconhece.

Ou então, vá, sejamos compreensivos e partamos do princípio que ele tem uns amigos no estrangeiro que lhe contaram, seria então de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, há amigos que me contaram isto, mas eu não sei se é verdade!” Ou então ele leu nalgum sítio, seria igualmente de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, eu li isto algures, mas não sei se é verdade!”

Mas como sabemos não é de “talvez” que vive o Pacheco Pereira. Um comentador profissional, não diz “talvez”  nem diz “não sei”. Ao comentador profissional é exigido “ a verdade é que…”, “a realidade é que…”, “é um facto que…”.  Ao comentador profissional é exigida assertividade e, na medida do possível, falar e escrever bonito. Mas a assertividade e o falar e escrever bonito não são garantias de validação argumentativa.

Deixo a forma e vou para o conteúdo, saltando o exemplo de ostentação ou exibição do corpo feminino, completamente incongruente e intrigante, da negra ao lado de um branco num autocarro no Mississípi. Como se o simples facto de ser negra lhe conferisse um qualquer caráter superiormente sexualizado, visto neste exemplo a negra não estar nem “pouco vestida”, nem de seio à mostra.

Ora, Pacheco Pereira escreve, com toda a razão, “o facto de alguns dos terroristas que combatem na Síria ou no Iraque serem europeus, e os actos de terrorismo apocalíptico em que o objectivo é matar o maior número de “infiéis” no menor tempo possível serem de responsabilidade de jovens muçulmanos nascidos na França ou na Bélgica, obriga a olhar para Marselha, Paris, Bruxelas e Londres e saber o que é que aí está a acontecer.” Mas o comentador parece ter ficado pelo olhar, esquecendo a segunda parte do enunciado que é de facto saber o que é que aqui está a acontecer.

Ele continua o texto dizendo que parece não existir Islão moderado, que os terroristas se movimentam na “comunidade muçulmana” como “peixe na água”, e que “a verdade é que essas comunidades, que deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo, estão longe de o estar.”

Em França, dificilmente podemos falar de “comunidade muçulmana” pois ela é evidentemente bem mais diversa que a portuguesa, que nós próprios Portugueses temos dificuldade em designar dessa forma.

Em França há cidadãos de cultura muçulmana, há crentes, não crentes, praticantes, não praticantes, convertidos, com origens diversas, de países e continentes diferentes, de correntes do Islão diferentes, com uma ou nenhuma história de colonização recente ou antiga, várias gerações, etc. São cidadãos que estão na polícia, no exército, na administração pública, na Educação Nacional, nos hospitais, nas Universidades, têm cargos de responsabilidade política, etc. E a suas formas de luta contra o terrorismo são múltiplas, uma mais outras menos visíveis.

A ideia de que um terrorista se movimenta alegremente como “peixe na água”, numa comunidade que não existe, com uma t-shirt a dizer “eu sou um terrorista” é provinciana, para não dizer infantil. A infiltração destes grupos é difícil, como o próprio comentador o afirma, justamente porque são grupos altamente secretos, onde reina a paranoia, o medo da delação ou da infiltração.

          Dito isto, Pacheco Pereira tem razão, estamos realmente metidos num grande sarilho, e nomeadamente os muçulmanos que são os que mais vidas humanas, de igual valor a qualquer outra, perdem e choram nesta escalada de violência. E não é com comentários desta estirpe que os vamos resolver.

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1 comentário a “A “burka” de Pacheco Pereira”

  1. Concordo consigo. É uma pena, porque até tinha vindo a gostar do que o PP tem escrito. Eu vivo em Londres e tudo o que ele diz me parece ridículo e completamente alheio à realidade. Depois os “séculos de laicização” dá um bocado vontade de rir; aqui a religião está presente em todos os aspectos da vida. Afirmar-se ateu é uma bizarria e invocar-se o estado laico é quase um apelo à “revolução”.

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