O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança. 

Estes discursos de explicação mais ou menos rigorosos, que vozes, outrora sensatas, reduzem a desculpas ou a justificações, são no entanto necessários. São estes discursos de análise, diagnósticos de cabeça fria, embora inoportunos no quente do acontecimento, que nos permitem tentar pensar um problema que nos parece inextricável. Explicar e compreender, e não desculpar ou justificar é o que permite a análise, é o que permite lidar com as situações, prever e minimizar riscos.

Miguel Tiago apontou como causas dos atentados, entre outras, as políticas de direita, a pobreza, a fome, o desemprego, o imperialismo e o capitalismo. Outra voz de esquerda, a de Marisa Matias do BE, denunciou “o lucro com o armamento”,  “as medalhas de honra e outros prémios a príncipes sauditas”, “os acordos vergonhosos com líderes  que continuam a fazer jogo duplo e a alimentar o terrorismo”, a “compra de crude extraído nos poços ocupados pelos terroristas”.

Concordo com a maioria destes fatores, já o tendo escrito anteriormente, mas falta aqui qualquer coisa… e o que falta são os executantes, são os terroristas, são os líderes de Daesh e Al-Quaeda.

Ora criticamos e bem, apesar de haver explicação para esse facto, o que podemos chamar de etnocentrismo afetivo, em que a morte  de um ocidental francês ou belga vale mais do que a morte de um nigeriano ou de um sírio. E no entanto continuamos a praticar e a fomentar o etnocentrismo intelectual.

Criticamos e bem, a exclusão dos terroristas da esfera da nossa humanidade, pois só assumindo que são pessoas como nós podemos compreender o que é a banalidade do mal, para parafrasear Hannah Arendt.  No entanto, continuamos, à esquerda, a fazer uma exclusão dos terroristas e dos líderes do terror enquanto agentes racionais, apelidamo-los de fantoches ou marionetas de situações causadas por nós, numa posição de arrogante superioridade intelectual e moral, negando assim qualquer tipo de racionalidade e responsabilidade pessoal aos executantes dos atentados.

Ao querermos demonstrar a nossa visão tolerante e consciente do mundo em que vivemos, acabamos, porventura de maneira inconsciente, por contribuir para o discurso etnocêntrico do Ocidente que à partida condenamos. “Olhem como somos tão bons e sensatos que até somos capazes de produzir um mea culpa!” É a chamada culpabilidade baseada no orgulho e não na humildade. Uma culpabilidade baseada na convicção de que somos seres moralmente perfeitos e que estranhamente derrapamos, mas no entanto, estamos em cima do acontecimento e já podemos até apontar as nossas falhas. Que eficácia! Assumir a responsabilidade é igualmente assumir que se tem poder, consequentemente retirar responsabilidade é retirar poder.

Ora deixo aqui um debate interessante sobre o nosso “inimigo”, que demonstra que apesar da nossa responsabilidade que não deve ser escamoteada, nomeadamente na nossa contribuição inegável ao espaço que proporcionámos para que estes movimentos extremistas crescessem,  os terroristas podem também ter a sua agenda, as suas razões próprias, que nos parecem evidentemente insanas e bárbaras, mas se não as tivermos em conta na nossa luta contra o terrorismo, provavelmente não ganhamos a batalha, nós no Ocidente, mas sobretudo as populações que estão a bater às nossas portas, cruelmente fechadas, fugidas destes violentos assassinos.

http://www.courrierinternational.com/article/enquete-ce-que-veut-vraiment-letat-islamique

http://thinkprogress.org/world/2015/02/20/3625446/atlantic-left-isis-conversation-bernard-haykel/

Ao longo da História já nos outorgamos suficiente propriedade alheia, partilhemos agora, humildemente, a culpa com os nossos “inimigos”, que lhes seja dado também o benefício da culpa.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s