O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Devo admitir que, durante uma semana, assisti sorridente ao benigno (julgava eu!) espetáculo mediático – na sequência da sua longa campanha eleitoral televisiva que durou quinze anos – em redor do estilo elitista-populista do novo Presidente da República. Um homem, ao que consta muito inteligente, que se sente à-vontade em diferentes ambientes, quase contrastantes: seja em férias passadas com Ricardo Salgado, o ex-banqueiro, seja em romarias populares ou em bairros sociais problemáticos, seja na Festa do Avante!.

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Confesso, até, que cheguei a criticar o facto de uma parte dos deputados no Parlamento não ter aplaudido o juramento prestado por Marcelo Rebelo de Sousa, de mão direita pousada na Constituição da República. Critiquei por considerar esse momento como o desfecho de um processo democrático pelo qual muitos deram a vida para que, hoje, dele desfrutássemos.

A minha tolerância para com o estilo bonacho do novo Presidente da República foi, todavia, abalada quando escutei o discurso que se seguiu ao tal juramento. Uma boa parte da sua comunicação ao país não passou de um chorrilho de anacronismos histórico-culturais, passadistas e bacocos, que refletem bem o espírito de uma certa franja da elite portuguesa, ainda agarrada ao que Marcelo Rebelo de Sousa chamou de “Portugal de Sempre”. Bem, como não sei no que consiste esse “Portugal de Sempre” – embora calcule que seja o Portugal Imperial, colonialista e desrespeitador dos direitos dos outros povos, nomeadamente dos povos africanos… daí a citação de Mouzinho de Albuquerque, o militar que esmagou a rebelião de Gungunhanha, o herói da nação moçambicana – limitei-me a encolher os ombros, pensando: “bem, este discurso bafiento é triste, mas não é admirar dadas as origens do Presidente da República. É o que temos”. 

A tolerância zero, que rapidamente se transformou em indignação, chegou esta semana com a visita oficial – em representação, portanto, do Estado Português – do Presidente da República ao Vaticano. Nesse momento, verifiquei que os próximos cinco anos, quiçá dez, serão de absoluta permeabilidade entre o indivíduo e o cargo que representa. Viveremos, que ninguém tenha dúvidas disso, a “marcelização” da Presidência da República. E esse processo será altamente perigoso para Portugal e os portugueses. Senão, vejamos.

O Papa Francisco, homem que trouxe, indubitavelmente, um ar de alguma modernidade, seja ele real ou não, à organização católica, é o chefe de uma Teocracia que é, também, um Estado soberano. Ora, o Presidente da República Portuguesa, representante de um Estado Laico, eleito por crentes de diversas religiões, agnósticos e ateus, não pode, de maneira nenhuma, beijar a mão de um outro chefe de Estado – que é também o líder espiritual de uma (entre tantas) religiões – pois, além de ser um ato indigno de submissão a uma entidade estrangeira, que ofende muitos portugueses não seguidores do catolicismo, é a prova da total e absoluta promiscuidade entre Marcelo Rebelo de Sousa, o homem conservador e católico, e o cargo de Presidente da República, laico por definição, para o qual foi eleito.

Para que conste: Marcelo Rebelo de Sousa não pode incorporar, nem em palavras nem em atos, na Presidência da República elementos que contrariem e deturpem a sua natureza institucional. Se Marcelo Rebelo de Sousa desejar beijar o anel do Papa ou ajoelhar-se perante o túmulo de João Paulo II deverá fazê-lo em visita privada e nunca numa viagem oficial de Estado como Presidente da República e em representação do povo português, que é, obviamente, diverso, plural e multirreligioso.

Portanto, graças a esta atitude de Marcelo Rebelo de Sousa, os deputados que se recusaram a aplaudir o seu juramento provaram estar cobertos de razão e que, premonitórios, não se deixaram enganar pelo “discurso de afetos” do novo Presidente da República. O povo português, sejamos francos, não precisa de afetos vãos que nada trazem ou de discursos que relembrem (supostas) glórias passadas.

O que os portugueses precisam é de um Presidente da República que respeite a diversidade religiosa daqueles que representa, sejam católicos, muçulmanos, protestantes ou ateus.

O que os portugueses precisam é de um Presidente da República que não se arroje aos pés de outros chefes de Estado em genuflexões beatas que mais parecem vassalagens medievais.

Marcelo Rebelo de Sousa, ao beijar a mão do Papa, fez-me sentir vergonha de ser português, tal qual o seu antecessor quando permitiu que Portugal fosse humilhado pelo Presidente checo. E essa sensação é algo que um Presidente da República jamais deveria causar aos seus concidadãos.

Marcelo Rebelo de Sousa, e isso é claro à luz deste já avançado século XXI, infantilizou o cargo para o qual foi eleito, menorizando-o, a ele, mas, também, ao país. Este episódio, porém, terá sido, infelizmente, apenas o primeiro de uma longa telenovela de outras (in)esperadas e mediáticas saloiices.

Texto publicado no Luso Jornal de 23/02/2016

www.lusojornal.com

 

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