Nem Putas, Nem Piegas

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Women bearing provocative words on their bodies take part in a “slut walk” in London on September 22, 2012 to protest against the police and courts’ denial of justice for rape victims. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS

Numa sondagem Ipsos para a associação Mémoire traumatique et victimologie, publicada dia 2 de março,  entre outros dados surpreendentes, ficámos a saber que mais de um quarto dos franceses (27%) declararam que, em certas condições, uma vítima de violação é responsável pelo crime, ou seja, advogam a chamada teoria do “Elle l’a bien cherché!”, ou como se diz em Português “Eh pá, a gaja meteu-se a jeito!”.

Mais de um terço (30,7%) dos jovens entre os 18-24 anos defendem que a mulher pode ter prazer sendo forçada numa relação sexual, ou seja acreditam na teoria, de fina análise psicológica, do “ela disse Não mas queria dizer Sim”. Sabemos também que somente 10% das vítimas de violação fazem queixa. Ora é caso para dizer “nem putas, nem piegas”, para aportuguesar e readaptar o slogan do movimento feminista francês “Ni putes, ni soumises”.

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Estes dados significam que a luta continua, que ganhámos batalhas, sim, mas que não podemos baixar os braços, porque os números são ainda implacáveis, e não deixam sombra para dúvidas, sobre o mundo ainda estruturalmente inigualitário e discriminatório em que vivemos, e isto sem necessitar de recorrer, para o auxílio à demonstração, dos casos mais dramáticos de países como a Arábia Saudita ou o Iémen.

Ora deixo aqui um dado pitoresco, para o leitor menos atento a estes pequenos detalhes da História, que resume bem o porquê da necessidade de prosseguir a luta…

…não há um único país no mundo em que a igualdade de género seja efetiva.

Estamos, portanto, perante a mais vasta violação planetária dos direitos humanos, tendo em conta que ela diz respeito a metade da Humanidade. O mesmo leitor, menos atento, estará porventura agora a levar as mãos à cabeça e a pensar “mas que raio! A mais vasta violação dos direitos humanos e eu não dei por ela?”,  pois não deu, porque estamos a falar de discriminações de tal forma enraizadas e resistentes que passam despercebidas. E ainda por cima… estamos tão bem… está já tudo tão eficazmente organizado, para quê inquietar o status quo, esse moço tão reconfortante? Para quê meter rebuliço na concórdia?

É preciso dizer que este status quo mantêm metade da humanidade numa situação de exploração laboral, em que mesmo na ocidental e civilizada praia europeia se mantêm uma desigualdade salarial que atinge quase os 17%, o que equivale a 59 dias de trabalho gratuito efetuado pelas mulheres se compararmos com o nível salarial dos homens.

E se o leitor está agora, quiçá, fora de si, ruborizado, com o estômago em fogo a pensar “mas isto é altamente injusto! E porque não estamos todos na rua a mandar vir com esta pouca vergonha! E porque não pensei nisto antes?” Sossegue!  Não é o único neste caso.

A causa feminista que, na sua aceção mais simples e fundamental, consiste na defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres, não reúne consenso, pois até o representante-mor de todos os Portugueses, Marcelo Rebelo de Sousa, declarou a semana passada, ser um Presidente quase feminista, ou seja, um Presidente que é quase pela igualdade de direitos entre os seus compatriotas. Esta hesitação desajeitada, fruto porventura do improviso, mas reveladora das convicções do Presidente, põe a nu uma questão mais profunda que é a da (des)mobilização respeitante a esta causa. Estamos [quase] todos de acordo em relação ao enunciado, mas divergimos na necessidade de luta e na estratégia a adotar.

É corrente ouvirmos, hoje, da boca de alguns que afirmam  defender a igualdade, que o combate feminista é uma anacrónica e desnecessária luta, alicerçada num discurso piegas de vitimização. “Para quê bater na mesma tecla?”, “Já toda a gente sabe que a mulher é igual ao homem!”, “E já houve progresso, deixa o curso natural da História fazer o seu trabalho!”, “E os homens que também são violentados?”, atiram-nos em desespero de causa, como último argumento, desvalorizando a luta feminista através da árvore que esconde a floresta.

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A História é neste, como em muitos casos, mais vagarosa que as nossas consciências, e em vários domínios, sem ações positivas e voluntárias atingiríamos a igualdade somente daqui a um século, sem esquecer que nenhum progresso civilizacional, que nenhum direito que foi arrancado com militância, convicção e por vezes à custa de vidas, está eternamente garantido, como o comprovam os recentes ataques ao direito à IVG.

Necessitamos de repensar as leis para atingirmos não somente a igualdade de oportunidades mas sobretudo a igualdade de resultados, mas necessitamos igualmente de uma mudança de mentalidades para que as mulheres se sintam em segurança para poderem declarar que são vítimas sem serem apelidadas de piegas, para que se sintam livres do seu corpo e do seu desejo sem serem batizadas de putas, para que se sintam fortes e capazes para quebrar telhados de vidro, reivindicarem direitos e igualdade.

A luta continua…

Não estás sozinha.


Texto publicado no Luso Jornal de 23/03/2016

www.lusojornal.com

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