Um retrato para a posteridade

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Cavaco Silva termina hoje o seu mandato enquanto presidente da República Portuguesa e, como é da tradição, o seu retrato oficial passa a integrar a Galeria de Retratos dos ex-presidentes do Museu da Presidência da República.

Conhecendo o percurso político de Aníbal Cavaco Silva e o percurso artístico do autor do seu retrato oficial, Carlos Barahona Possollo, é interessante ver como ambos se contaminam: a anterior produção de arte gay erótica do pintor contamina a memória institucional do homofóbico Cavaco numa galeria oficial, enquanto a política de direita conservadora seguida pelo considerado por tantos – mais que qualquer outro – “o pior presidente da república” da democracia, contamina ideologicamente o retratista.

Apesar das suas diferenças, político e artista têm em comum a mesma visão conservadora e academista de como pintar, o que torna a obra do pintor impopular entre o meio da arte “contemporânea”. Não é por acaso que nas redes sociais o artista foi de imediato alvo de crítica e sátira de parte significativa da comunidade artística portuguesa que, em geral, tem a mesma paixão por Cavaco que o diabo pela cruz e que, cumulativamente, olha para a obra de Possollo como uma criação bacoca na sua reprodução de temáticas de gosto classicizante, apontada pelos críticos como procurando de alguma forma reproduzir um estilo à Caravaggio numa técnica pictórica anacrónica pela tentativa de reprodução do real quando a fotografia, muito mais eficaz em mimetizações imagéticas, já existe desde o séc. XIX.

Sabendo que a escolha do quadro foi cega em relação à assinatura do autor e não parecendo Cavaco possuir grande gosto por bacanais e práticas homoeróticas presentes em parte relevante da obra do seu retratista, a razão pela qual o pintor é escolhido é tabu – Cavaco não comenta – mas seguramente prende-se com duas possíveis hipóteses: o ex-presidente não sabia e o ocorrido é uma deliciosa ironia do destino ou, mesmo sabendo, manteve a decisão da escolha do quadro. Neste caso, ou o senhor aprecia bacanais e práticas homoeróticas, pelo menos na pintura (embora as posições políticas de Cavaco pareçam indicar o oposto), ou então faz que não sabe e nem fala disso, mantendo a escolha por quase ninguém no nosso tempo continuar a dominar aquela técnica pictórica, acrescida do facto de dificilmente um artista reconhecido se prestar a servir Cavaco no seu projeto de se retratar para a posteridade.

Não nos podemos esquecer que para muitos, Cavaco é o de má memória: um dos principais responsáveis pelo resgate de bancos à custa do empobrecimento da população, pela redução nos últimos anos do acesso dos mais pobres e da classe média à educação, saúde e cultura, pelo rumo indesejado do país, etc, etc, etc, incluindo – e neste contexto esta questão é fundamental – que tudo fez para manter situações legais e muito concretas de discriminação em relação aos homossexuais, prejudicando-os a eles e aos seus filhos. De tudo isto se contamina o pintor que pode ter obtido o que sonhava (não só por este serviço como seguramente por outras encomendas que virão de gente com os valores e estética de Cavaco), mas que sabe que é obtido graças a alguém por quem tantas pessoas se sentiram afetadas, incluindo gays como o referido artista. É pois uma fama de sabor agridoce: inclui o fel duma larga faixa da população antidireita ou até antipolíticos em geral.

Cavaco, por sua vez preocupou-se em se ver imortalizado da forma mais nacionalista (a bandeira nacional ondula desproporcionalmente no fundo) e realista (nesse sentido não se percebe o que faz agarrado à constituição que não fez cumprir, nem como apesar do vento tanto ondular a bandeira, o cabelinho de sua Excelência e o hirto tecido do seu fato permanecerem imóveis). Claro que estava longe de ousar representar-se fotograficamente na galeria dos retratos, pois nunca se atreveria a inovar costumes e aspirava ao estatuto histórico da pintura. Curiosamente, em busca do mais profundo tradicionalismo institucional, caiu no seu contrário. Como já referi, não havendo muitas hipóteses de artistas portugueses para o seu gosto ou que tivessem o gosto de o representar, sujeitou-se a arriscar a contaminação subjacente da temática libertina do retratista só para obter o retrato formalmente conservador dentro do seu gosto e do dos seus familiares próximos e colaboradores diretos que, apesar dos esforços de legitimação dum certo status, o que obtiveram foi um retrato kitsh. Contudo Cavaco, se fez ou lhe fizeram o trabalho de casa de conhecer a obra a que estava associado o pintor que oficialmente o pintava (e se não fizeram é ainda mais escandaloso), achou que o retrato executado lhe conferia a ilusão mais próxima das aparências a que aspirava. O quadro é portanto revelador das fragilidades e ambições do retratado e do retratista.

O que me parece mais fascinante, quase que diria do ponto de vista dramatúrgico, são os conflitos interiores que terão tido o político e o artista. Cavaco por escolher um pintor de fetiches gays para o retratar (visto ser o que melhor o representava com base numa técnica figurativa conservadora valorizada pelo seu círculo de colaboradores e familiares, incluindo a esposa) e o pintor por querer obter com o seu trabalho certos objetivos a qualquer custo (mesmo associando-se a uma figura de poder que termina o seu mandato mal-amado pela população, inclusive com posições homofóbicas, discriminando nesse sentido o que o artista é e o que outros como ele são). Como tal, ou Possollo com este ato é apoiante de Cavaco (o que é legitimamente democrático mas submete ideologicamente parte da sua identidade), ou disfarça publicamente uma maquiavélica subversão na sua prática artística (o que não acredito) ou apenas se lançou no desafio sem grandes questionamentos nem empatias políticas, aceitando consciente ou inconscientemente converter-se num instrumento de propaganda cavaquista a troco de ganhos que achou compensadores.

O que o pintor nos revela é a sua modesta vontade em “fazer uma imagem o mais parecida, onde ele [Cavaco] se reconhecesse” tendo em conta que a personalidade do artista “não pode prevalecer sobre a figura” (citações de Possollo no Expresso). Se assim é, tal posicionamento enquadra-o no típico perfil do mero funcionário que se iliba da responsabilidade do que faz porque apenas é pago e contratado para isso, o que constitui uma desvalorização da sua própria pessoa, limitando-o do ponto de vista ético, intelectual e político.

Independentemente deste caso, sabemos que em situações terrivelmente extremas de guerra, perseguições, totalitarismo e morte, a desculpa do profissionalismo cego levou ao colaboracionismo que Hannah Arendt identificou no regime nazi. O injusto ou o imoral vingam em grande medida pela frequente dissociação mental entre consequências resultantes do ato realizado pelo trabalho pedido e a suposta obediência a que obriga qualquer remuneração num vínculo profissional. Este é um questionamento que me parece pois importante a qualquer pessoa fazer em relação ao trabalho que desempenha.

Com esta análise, não pretendo ser moralista (o que é sempre um risco de quem tem preocupações éticas), pois sou consciente que, como todos, tenho as minhas imperfeições e não estou isento de contradições, convencimentos ou críticas. Reconheço igualmente que é difícil lograr uma conjugação equilibrada de interesses pessoais com a construção do bem comum ou dos direitos humanos. No entanto, sinto que também não posso demitir-me do meu papel ativo na procura de reflexão pública contra o relativismo ético do mundo atual e em particular na arte. Não me abstenho de posicionar-me na esfera pública de acordo com o meu pensamento, liberdade e valores.

Por isso mesmo, embora respeitando produções artísticas e posicionamentos diferentes dos meus, também não posso deixar de expressar desagrado com aquilo em que certas práticas artísticas têm convertido a arte. Do meu ponto de vista, choca-me a escala e prioridade de valores de um artista que se presta a retratar institucionalmente uma figura como Cavaco quando é gay assumido e militante pela causa LGBT. Não lhe fica bem deixar cair a causa inclusiva dos direitos LGBT, ou seja, dos direitos humanos (já para não falar de outras questões políticas, económicas e sociais), seduzido por valores que me parecem menores: talvez a exclusividade do discutível prestígio das honras de estado, da fama, do dinheiro e/ou até de um romantizado ideal de hipotética imortalidade histórica num quadro institucional conservador.

Isto não quer dizer que, pelo oposto, concorde com certas atitudes de bullying cruel na internet relativamente ao referido pintor. E espero sinceramente não contribuir para humilhações públicas expondo a minha opinião sincera. Pelo menos não é essa a minha intenção. Não me agrada o tom dos que adoptam uma enorme arrogância de suposta superioridade cultural que, dependendo do prisma, terão ou não. Aliás, esta crítica num certo nível também pode ser extensível a mim próprio – que possuo uma formação de gosto que leva a considerar o retrato de Cavaco como foleiro – o que só põe a nú a inevitabilidade das contradições no ser humano e o desafio do equilíbrio entre a necessidade de nos posicionarmos por bons motivos e a consciência da subjetidade de muita coisa que apenas princípios éticos dependentes do contexto podem balizar.

Acrescento ainda que não me parece que este pintor procure coisas muito diferentes (com estilos, metodologias e claques de apoiantes de gosto e interesses também diferentes) daquilo que procuram outros artistas considerados mais “contemporâneos” ou mais “cool” ou mais intelectuais ou mais cotados. Nomes como Julião Sarmento ou João Louro, terão discursos, estratégias e públicos mais sofisticados, mas igualmente instrumentalizam a sua arte com base em ambições intimamente ligadas com o dinheiro, status e poder. Não faltam reconhecidos ou credíveis artistas do nosso meio que em algum momento tiveram as suas obras integradas em importantes exposições, publicações, coleções ou eventos com apoios de ética duvidosa (por exemplo de bancos comprovadamente especulativos e corruptos, assim como de certos lobbies do aparelho partidário ou da maçonaria).

O sistema das artes move-se em grande medida numa lógica elitista e classista dada pelo que Bourdieu chamou de “capital cultural”, um capital a que muitos profissionais do meio aspiram e que alguns, poucos, com os contactos certos instrumentalizam com sucesso para obter lugares de destaque e valor de mercado. Cada artista apenas vinga nos meios de poder que têm a ver com ele. O individual reflete o coletivo em que se encaixa. Ou melhor, o todo forma-se das partes e as partes fazem o todo.

Em geral, os artistas de sucesso têm ainda uma outra condição fundamental: muito ego. Não há artista de sucesso sem um grande ego. Para o bem e para o mal. É um importante fator para a constituição do que chamamos um autor, para que alguém conquiste autoridade na matéria. Cada um é pois resultado do seu ego, dos seus desejos, da sua educação, dos seus valores, das suas ações e das oportunidades que lhe vão surgindo. A fama só amplia tudo, pela visibilidade que dá e pelos meios que se tomam para lá chegar, pois um artista ou um autor ou qualquer pessoa, é o resultado desse percurso.

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