Palmira: Património da (Des)humanidade

Eis a minha declaração de interesses: ao longo de muitos anos, trabalhei como arqueólogo, e considero, portanto, que terei alguma sensibilidade, talvez acima da média, para as questões da defesa do Património Histórico e Arqueológico. Dito isto, vejamos.

Desde que o DAESH (ou “Estado Islâmico”) conquistou Palmira em maio de 2015, numa das mais inacreditáveis ofensivas do seu exército de patas-ao-léu – isso tudo não obstante os “intensos” e “certeiros” bombardeamentos da força aérea dos EUA, o grande aliado das teocracias do Golfo Pérsico e da máquina-de-rebentar curdos que é a Turquia –, que os meios de comunicação social ocidentais, pelo menos os daqueles países cuja língua domino, se fartaram (e bem!) de chamar a atenção para os atentados contra os monumentos que constituem o Património da Humanidade da cidade, com o selo da UNESCO, perpetrados pelos combatentes do DAESH. Quem é que, no seu perfeito juízo, não fica chocado com a destruição de obras de arte com mais de dois mil anos?

A atenção dada a esses crimes de lesa-cultura não chocará ninguém e ainda bem que acontece.

O que me choca, todavia, é, em contraste, a falta de atenção que esses mesmos meios de comunicação social deram (e dão) à “Humanidade” que habitava a cidade que é “Património” da UNESCO. Como se na fórmula “Património da Humanidade”, a primeira palavra tivesse mais importância do que a última. Como se sem “Humanidade” fosse possível existir “Património”. Continue a ler Palmira: Património da (Des)humanidade

4 comentários a 4 trechos de artigo de Pacheco Pereira

Quatro comentários críticos (um pouco longos) a quatro trechos do artigo de opinião de Pacheco Pereira (JPP). Cito e comento cada trecho:

1 – “o relativismo “multicultural” pode ser muito bem avontadado, mas representa uma cedência de valores civilizacionais inaceitável por quem acredita que um mundo com direitos humanos é melhor do que a aceitação de qualquer selvajaria em nome dos “costumes” ou da religião.”

Dificilmente JPP encontrará defensores do relativismo “multicultural” que não acreditem num mundo com direitos humanos. Direi até que mais facilmente JPP encontrará adversários dos direitos humanos entre adversários do relativismo “multicultural”. E isto tanto à esquerda como à direita, tanto entre confissões religiosas como no mais arreligioso posicionamento público. E as razões adivinham-se depressa. Os direitos humanos são uma condição de possibilidade para a convivência de grandes diferenças multiculturais. Num mundo onde vigorem “valores civilizacionais” definidos como normatividade cultural para todas as culturas, porventura com minudências maliciosas como uma escala entre as mais e as menos civilizadas, os direitos humanos serão apenas um produto dessa normatividade que tem muito menos de possibilitadora do que de impositiva.

2 – “apesar das sucessivas declarações apaziguadoras de que a maioria das pessoas que vivem em bairros como Molenbeek em Bruxelas são gente pacífica — e são — e que condena com toda a veemência os actos de terrorismo — aí já não é bem assim, há nuances —, a verdade é que essas comunidades, que deveriam estar na vanguarda da luta contra o terrorismo que lhe é tão próximo, estão longe de o estar. E aí contam as fronteiras que a alteridade cultural ajudou a erguer, dobrada da crescente adesão dos jovens a um islão fundamentalista, e que reforçam o gueto por dentro. Por fora, sabemos quais são os factores que reforçam esse mesmo gueto, a falta de mobilidade vertical que a estagnação económica da Europa dos últimos anos acentuou e a dificuldade que as sociedades europeias têm de criar o élan ascendente que o melting pot americano tem conseguido para a maioria dos seus emigrantes, muitos dos quais chegam sem nada.”

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Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

 

Artigo que põe o dedo na ferida do problema belga e europeu: a pobreza, a falta de oportunidades escolares e de trabalho, a guetização fomentada por péssimas politicas públicas…No fundo, uma espécie de Apartheid social e laboral que potencia o extremismo violento.

Tradução portuguesa da primeira parte do artigo de David Van Reybrouk, originalmente escrito em flamengo, mas cuja versão francesa saiu no Le Monde de 27 de Março de 2016 (pode ser lida aqui: http://www.pressreader.com/france/le-monde/20160327/281925952144035)

A Bélgica negligenciou as suas mais recentes fraturas

A Bélgica, focalizada sobre o passado, açambarcada pela rutura entre flamengos e valões, abandonou os seus habitantes saídos da emigração. Aturdidos por esse “Apartheid”, a juventude esquecida radicalizou-se até à derrapagem final.

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Bairro de Molenbeek, em Bruxelas

Poucos países da União Europeia têm um fosso tão grande entre os estudantes autóctones e aqueles de origem estrangeira do que a Bélgica. Existem poucos países da União Europeia onde as pessoas oriundas da emigração (ditas alóctones) têm tantos problemas em encontrar trabalho. Nenhum outro país europeu forneceu tantos combatentes para a Síria como a Bélgica. Nós não o sabíamos?

Sim, sabíamo-lo. Desde há mais de dez anos, os sociólogos têm avisado que a escolarização dos alóctones tem perdido força. Se bem que os estudantes de origem belga se comportem razoavelmente nos testes internacionais, o fosso que os separa das crianças e dos jovens saídos da emigração não para de se alargar. 28% destes últimos abandonam a escola sem conseguirem obter qualquer diploma do ensino secundário. Aos 17 anos de idade, 68% de entre eles chumbaram pelo menos uma vez (números do ensino francófono). Em nenhum outro país europeu, a segregação entre os estudantes “brancos” performantes e os estudantes alóctones é tão grande como na Bélgica. Continue a ler Bélgica: pobreza, guetização e extremismo

A “burka” de Pacheco Pereira

Considerações pós-leitura do artigo “Da burka ao colete de explosivos” de José Pacheco Pereira, do dia 26 de Março 2016 no jornal Público

Este é daqueles raros momentos em que me regozijo que os meus amigos muçulmanos em França não saibam, na sua maioria, ler português. Aliás eu própria gostaria, nestas ocasiões, de não saber ler tais enormidades escritas na língua de Camões!

Estas alarvidades, já tinham sido proferidas por Pacheco Pereira, na Quadratura do círculo de 24 de março, que aliás entraram em competição, na inépcia, com as declarações de Lobo Xavier que afirmou que a vida de um cidadão ocidental tem um valor superior  às vidas de outros cidadãos do mundo (não estando somente a falar do valor mediático, mas como ele próprio afirma, “também por razões de valores”) e que “o medo tem mais significado na Europa”, sem que isso causasse grande, para não dizer nenhuma, resistência por parte dos comparsas.

As cinco primeiras palavras do artigo de Pacheco Pereira resumem bem o problema de que padece, e eu diria até que constituem a rede, diante dos olhos, da burka que o adorna.

“Recentemente estive num país europeu”, escreve (por acaso até seria interessante saber de que país se trata). Ora estar, visitar ou passar momentaneamente não é viver num país. Pacheco Pereira assume que estas saídas esporádicas dos salões de Carnaxide lhe dão autoridade para falar do que não sabe. O ter reparado, num certo país, superior número de mulheres de burka ou niqab não é razão suficiente para depois poder atirar com “verdades”, sobre os muçulmanos, que desconhece.

Ou então, vá, sejamos compreensivos e partamos do princípio que ele tem uns amigos no estrangeiro que lhe contaram, seria então de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, há amigos que me contaram isto, mas eu não sei se é verdade!” Ou então ele leu nalgum sítio, seria igualmente de necessária honestidade intelectual referir esse facto: “Eh pá, eu li isto algures, mas não sei se é verdade!” Continue a ler A “burka” de Pacheco Pereira

O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

Esta semana, o deputado do PCP, Miguel Tiago, foi desassossegado por ter publicado um post no Facebook, digamos, politicamente inoportuno, sobre os atentados de Bruxelas. O comentário da discórdia foi ulteriormente retemperado com um pedido de desculpas, para sossegar os “amigos” que não conheceriam intimamente o deputado. O primeiro post, em si, não é propriamente falso do ponto de vista factual, mas é inoportuno no timing da sua publicação. É sabido que há tempo para tudo, e que quando se choram mortos não é momento para lições. Para caricaturar a situação, quando um filho nosso soluça porque se magoou, apesar das nossas advertências, a primeira reação é a do reconforto, administramos o “bisou magique” e somente após a acalmia é que administramos a lição, são regras de bom senso de elementar pedagogia.

O deputado Miguel Tiago teve mais sorte que o vereador Atef Rhouma da câmara municipal de Ivry-Sur-Seine em França, dirigida pelo PCF, que após os atentados de Paris, ligou de forma desajeitada os atentados às políticas do governo francês. Atef Rhouma foi atacado pela direita de apologia ao terrorismo, foi ameaçado de morte, durante umas semanas deixou o seu cargo de vereador e chegou mesmo a sair da cidade com a família por razões de segurança.  Continue a ler O benefício da culpa e a arrogância moral da esquerda

O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Devo admitir que, durante uma semana, assisti sorridente ao benigno (julgava eu!) espetáculo mediático – na sequência da sua longa campanha eleitoral televisiva que durou quinze anos – em redor do estilo elitista-populista do novo Presidente da República. Um homem, ao que consta muito inteligente, que se sente à-vontade em diferentes ambientes, quase contrastantes: seja em férias passadas com Ricardo Salgado, o ex-banqueiro, seja em romarias populares ou em bairros sociais problemáticos, seja na Festa do Avante!.

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Confesso, até, que cheguei a criticar o facto de uma parte dos deputados no Parlamento não ter aplaudido o juramento prestado por Marcelo Rebelo de Sousa, de mão direita pousada na Constituição da República. Critiquei por considerar esse momento como o desfecho de um processo democrático pelo qual muitos deram a vida para que, hoje, dele desfrutássemos.

A minha tolerância para com o estilo bonacho do novo Presidente da República foi, todavia, abalada quando escutei o discurso que se seguiu ao tal juramento. Uma boa parte da sua comunicação ao país não passou de um chorrilho de anacronismos histórico-culturais, passadistas e bacocos, que refletem bem o espírito de uma certa franja da elite portuguesa, ainda agarrada ao que Marcelo Rebelo de Sousa chamou de “Portugal de Sempre”. Bem, como não sei no que consiste esse “Portugal de Sempre” – embora calcule que seja o Portugal Imperial, colonialista e desrespeitador dos direitos dos outros povos, nomeadamente dos povos africanos… daí a citação de Mouzinho de Albuquerque, o militar que esmagou a rebelião de Gungunhanha, o herói da nação moçambicana – limitei-me a encolher os ombros, pensando: “bem, este discurso bafiento é triste, mas não é admirar dadas as origens do Presidente da República. É o que temos”.  Continue a ler O beija-mão de Marcelo ao Papa, o Laicismo e a República

Nem Putas, Nem Piegas

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Women bearing provocative words on their bodies take part in a “slut walk” in London on September 22, 2012 to protest against the police and courts’ denial of justice for rape victims. AFP PHOTO / JUSTIN TALLIS

Numa sondagem Ipsos para a associação Mémoire traumatique et victimologie, publicada dia 2 de março,  entre outros dados surpreendentes, ficámos a saber que mais de um quarto dos franceses (27%) declararam que, em certas condições, uma vítima de violação é responsável pelo crime, ou seja, advogam a chamada teoria do “Elle l’a bien cherché!”, ou como se diz em Português “Eh pá, a gaja meteu-se a jeito!”.

Mais de um terço (30,7%) dos jovens entre os 18-24 anos defendem que a mulher pode ter prazer sendo forçada numa relação sexual, ou seja acreditam na teoria, de fina análise psicológica, do “ela disse Não mas queria dizer Sim”. Sabemos também que somente 10% das vítimas de violação fazem queixa. Ora é caso para dizer “nem putas, nem piegas”, para aportuguesar e readaptar o slogan do movimento feminista francês “Ni putes, ni soumises”.

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Estes dados significam que a luta continua, que ganhámos batalhas, sim, mas que não podemos baixar os braços, porque os números são ainda implacáveis, e não deixam sombra para dúvidas, sobre o mundo ainda estruturalmente inigualitário e discriminatório em que vivemos, e isto sem necessitar de recorrer, para o auxílio à demonstração, dos casos mais dramáticos de países como a Arábia Saudita ou o Iémen.

Ora deixo aqui um dado pitoresco, para o leitor menos atento a estes pequenos detalhes da História, que resume bem o porquê da necessidade de prosseguir a luta…

…não há um único país no mundo em que a igualdade de género seja efetiva.

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Somos todos Donald Trump?

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A votação na especialidade do orçamento de estado decidirá amanhã sobre o artigo 81º: a aprovação dos 24,3 milhões respeitantes à contribuição portuguesa para o “mecanismo de apoio à Turquia em favor dos refugiados”. O artigo 81º diz respeito ao “acordo histórico” (palavras de Donald Tusk) entre a União Europeia e a Turquia, segundo o qual a UE se compromete a pagar um total de seis mil milhões de euros à Turquia, a processar de forma mais rápida pedidos de visto de cidadãos Turcos e a acelerar o processo de adesão da Turquia à UE. Em troca, a Turquia compromete-se a receber refugiados extraditados pela União.

A crise financeira internacional teve o condão de evidenciar que, na UE, o que está escrito, sendo lei, não se aplica a todos de igual forma. É hoje claro, por exemplo, que as sanções previstas no pacto orçamental se aplicam aos economicamente mais fracos, mas não aos mais fortes. A crise dos refugiados está a prestar um esclarecimento adicional: o que está escrito como lei pode não se aplicar de todo.

O “acordo histórico” entre a UE e a Turquia é uma violação da lei Europeia. Em particular, a proposta de extradição em bloco de refugiados para a Turquia viola o ponto 1 do Artigo 19º da Convenção dos Direitos Fundamentais da União Europeia que expressamente proíbe extradições em bloco. Por esta razão, o acordo foi publicamente condenado por Vicente Cochelet, Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, durante uma conferência de imprensa em Genebra. Foi ainda condenado pela UNICEF e por organizações de direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional. Continue a ler Somos todos Donald Trump?

Um retrato para a posteridade

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Cavaco Silva termina hoje o seu mandato enquanto presidente da República Portuguesa e, como é da tradição, o seu retrato oficial passa a integrar a Galeria de Retratos dos ex-presidentes do Museu da Presidência da República.

Conhecendo o percurso político de Aníbal Cavaco Silva e o percurso artístico do autor do seu retrato oficial, Carlos Barahona Possollo, é interessante ver como ambos se contaminam: a anterior produção de arte gay erótica do pintor contamina a memória institucional do homofóbico Cavaco numa galeria oficial, enquanto a política de direita conservadora seguida pelo considerado por tantos – mais que qualquer outro – “o pior presidente da república” da democracia, contamina ideologicamente o retratista.

Apesar das suas diferenças, político e artista têm em comum a mesma visão conservadora e academista de como pintar, o que torna a obra do pintor impopular entre o meio da arte “contemporânea”. Não é por acaso que nas redes sociais o artista foi de imediato alvo de crítica e sátira de parte significativa da comunidade artística portuguesa que, em geral, tem a mesma paixão por Cavaco que o diabo pela cruz e que, cumulativamente, olha para a obra de Possollo como uma criação bacoca na sua reprodução de temáticas de gosto classicizante, apontada pelos críticos como procurando de alguma forma reproduzir um estilo à Caravaggio numa técnica pictórica anacrónica pela tentativa de reprodução do real quando a fotografia, muito mais eficaz em mimetizações imagéticas, já existe desde o séc. XIX.

Sabendo que a escolha do quadro foi cega em relação à assinatura do autor e não parecendo Cavaco possuir grande gosto por bacanais e práticas homoeróticas presentes em parte relevante da obra do seu retratista, a razão pela qual o pintor é escolhido é tabu – Cavaco não comenta – mas seguramente prende-se com duas possíveis hipóteses: o ex-presidente não sabia e o ocorrido é uma deliciosa ironia do destino ou, mesmo sabendo, manteve a decisão da escolha do quadro. Neste caso, ou o senhor aprecia bacanais e práticas homoeróticas, pelo menos na pintura (embora as posições políticas de Cavaco pareçam indicar o oposto), ou então faz que não sabe e nem fala disso, mantendo a escolha por quase ninguém no nosso tempo continuar a dominar aquela técnica pictórica, acrescida do facto de dificilmente um artista reconhecido se prestar a servir Cavaco no seu projeto de se retratar para a posteridade.

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Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão

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Une femme avec son enfant parmi un groupe de réfugiés et de migrants près de la ville de Gevgelija, dans l’ancienne République yougoslave de Macédoine. Photo UNICEF/Tomislav Georgiev

 

Na abertura da 31ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra, altos funcionários da ONU apelaram os Estados membros a não deixar ninguém de lado, e nomeadamente, a demonstrar compaixão pelos civis que fogem às violações sistemáticas dos direitos humanos nos seus países de origem.

“Durante o meu mandato, sublinhei a importância das práticas democráticas, começando pelo direito das pessoas a serem ouvidas através das urnas”, declarou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diante dos membros do Conselho para os Direitos Humanos.

Ban Ki-moon insistiu, igualmente, no seu compromisso pelos direitos de todas as pessoas, independentemente da sua origem étnica e religiosa, da sua classe social ou da sua orientação sexual.

“Em muitos países, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e pessoas intersexuais são vítimas de violência brutal, e por vezes mortal”, afirmou o chefe da ONU, lamentando o número de pessoas no mundo ainda sujeitos à negação sistemática dos seus direitos. Continue a ler Contra a xenofobia de uma certa Europa, a ONU apela à compaixão