A morte da Europa e a Vida das Comunidades

 

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Warren Richardson, Hope for a New Life (a man passes a baby through the fence at the Ungarian-Serbian border in Röszke, Hungary, 28 August 2015).

 

Hoje, esta Europa morreu. Ou talvez ontem, não sei bem.

Deturpo de forma despudorada o início de “O Estrangeiro” de Camus, para aviventar o facto de que realmente não se sabe muito bem quando esta Europa morreu. Foi-se dissolvendo aos poucos, através de golpes certeiros que a foram dilacerando de forma constante e provavelmente definitiva: desde todo o processo de instituição da Constituição Europeia em 2005 ao Tratado de Lisboa de 2007, apesar de votos de rejeição democráticos,  ao tratamento inigualitário entre países da União em que uns decidem do conteúdo dos menus, outros escolhem o prato que lhes convêm e outros são obrigados a comer os restos, com a acrescida incumbência de lavar a loiça suja comum.

 A União Europeia sonhada transformou-se num regime antidemocrático que assenta num sistema que já deu as suas provas, um sistema construído por elites para elites, a partir das quais, e nomeadamente em momentos de crise, os seus interesses são salvaguardados. Um sistema de tal forma complexo que os pobres cidadãos que somos nem sequer o ousam meter em causa ou contestar, não compreendendo muito bem qual a nossa margem de manobra. Estamos assim perante um regime sem alma nem pudor, alicerçado num sistema que nos faz sentir estúpidos e impotentes. É uma União esquizofrénica e perversa que esmaga os povos, que nega solidariedade, que fecha fronteiras, que fomenta guerras, que as abastece, que faz negócio e lucro com as mesmas e que depois vira a cara para o lado apontando o dedo a bodes expiatórios.

O que marca de forma gritante a morte desta Europa é a aniquilação dos valores que fundaram esta União, bastando para tal rememorar as intenções dos Pais deste belo projecto: “não estamos a coligar Estados, mas a unir os Homens[1]” defendia Jean Monnet, o que significava que o projecto era bem mais imponente e visionário, do ponto de vista civilizacional, do que o que estamos a assistir agora. Não estamos a unir os Homens, nem os Estados, estamos ao contrário a estabelecer hierarquias e a meter os Homens uns contra os outros. Todas as vidas importam! Os afro-americanos juntaram-se nos últimos anos num movimento forte contra as violências policiais “Black Lives Matter“, ora esta importante mensagem deverá ser extensível a uma mensagem universal, “Portuguese Lives Matter”, “Greek Lives Matter”, “Syrian Lives Matter” e “Nigerian Lives Matter”.

Estamos a erguer barreiras, muros, obstáculos a um inimigo construido, e esse inimigo é simplesmente o Outro, outro como nós, o Outro que nós próprios Portugueses fomos quando emigrámos, clandestinos, por esse mundo fora.

Recordemos igualmente o célebre discurso fundador, de 9 de maio de 1950, de outro Pai da Europa, Robert Schumann, que compreendeu de forma pragmática a interligação entre a economia, a paz, a solidariedade e a abertura ao Outro :

“ Esta produção [falando do carvão e do aço] será oferecida a todos os países do mundo sem distinção nem exclusão, a fim de participar no aumento do nível de vida e no desenvolvimento das obras de paz. Com meios acrescidos, a Europa poderá prosseguir a realização de uma das suas funções essenciais: o desenvolvimento do continente africano. Assim se realizará, simples e rapidamente, a fusão de interesses indispensáveis para o estabelecimento de uma comunidade económica e introduzirá o fermento de uma comunidade mais larga e profunda entre países durante muito tempo opostos por divisões sangrentas.” 

Este discurso poderá, com os olhos de hoje,  parecer naïf ou utopista, mas destaca de forma profunda e diria até emocionante, que o que deve estar na base de um qualquer projeto de Comunidade ou de União é uma Ideia, são valores, e quando esse sustentáculo desaparece tudo o resto se desmorona e se transforma em entulho.

             As bases ideológicas caíram, arrastando tudo o resto consigo, e de nada valerá fazer discursos de arrependido circunstancial, como o de Jean-Claude Juncker, que declarou que a Comissão Europeia pecou contra a dignidade dos povos, especialmente na Grécia e em Portugal, declarações estas que lembram as do marido que bate na querida esposa e que ao ver-lhe as marcas pede desculpa, para voltar a fazer o mesmo no dia seguinte, tentando até encontrar habilidades para desta vez não deixar provas. De nada valerá fazer aqui e ali uns remendos. Precisamos de uma revolução. Ora revolução em astronomia significa igualmente, voltar ao início, precisamos portanto de uma Revolução que nos leve aos princípios, a estes fundamentos universalistas dos pais da União Europeia, que nos leve a uma reconstrução inédita baseada sobre valores, que eu diria, intemporais. Valores universalistas estes dos quais os Portugueses são o símbolo não somente pela sua História mas igualmente pela sua condição atual de povo  emigrante, de povo de Comunidades. O que está, então,  nas nossas mãos? Sermos, pelo menos, embaixadores desta mensagem universalista, combatendo a morte através do símbolo da Vida multicultural e mestiça que são as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo.

[1] Jean Monnet, Discours, Washington, 30 avril 1952

Texto publicado no Lusojornal de 24/02/2016

http://www.lusojornal.com

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