Islamofobia e “Estado Islâmico”: o fruto e a força da mesma ignorância

gghghConfundir e correlacionar as ações sanguinárias do autodenominado “Estado Islâmico” com o conjunto dos seguidores da fé muçulmana tornou-se o desporto preferido das franjas mais reacionárias e cavernícolas das sociedades Ocidentais. Essa boçalidade tem sido por demais visível nos debates para as eleições primárias dos EUA entre os candidatos republicanos (conservadores), embora esse não seja o único palco para tão ignóbil exercício.

Felizmente, por enquanto, essas opiniões ainda perfazem uma minoria, que, todavia, a crise socioeconómica e os promotores da Austeridade poderão reforçar na sua busca incessante por um bode expiatório. E, dirão os apoiantes do Front National, quem melhor prestará esse serviço de expiação do que os muçulmanos que vivem entre nós. O perigo de um Pogrom moderno é, portanto, algo que não é de descartar.

Dizer que algo tão complexo e diversificado como a civilização muçulmana – que se estende dos confins da África Ocidental ao Cazaquistão, de Marrocos a Singapura – se resume aos atos perpetrados por alguns milhares (existem 1,6 mil milhões de muçulmanos, cerca de 22% da população terrestre) de extremistas que usam o Islão como fachada para a sua política expansionista é, e ponderei bastante se deveria usar esta palavra, estúpido. Isso equivale a dizer que os extremistas cristãos do Klu Klux Klan – que queimavam e enforcavam afroamericanos nos EUA dos anos 50 do século XX – são um grupo representativo dos 2,2 mil milhões de cristãos que existem no mundo.

Mais estúpido se torna ainda quando esse discurso sai da boca de cidadãos portugueses, visto que uma boa parte da cultura lusófona – basta pensar no Fado ou na língua que une falantes em cinco continentes – assenta num dos alicerces da História de Portugal: a presença da civilização islâmica no nosso território ao longo de 500 anos e, depois do século XIII, a permanente interação entre Portugal e o mundo muçulmano.

Não vou, porém, analisar as causas ou origens deste flagelo que alguns chamam de Daesh. Nem sequer medir a intensidade dos vários terrorismos, verificando se o terrorismo praticado pelos drones dos EUA, ou o que levou à destruição da Líbia pela França, ou o que é perpetrado por Israel na Faixa de Gaza, é maior ou menor do que o terrorismo que descambou na carnificina de Paris, na destruição do avião russo que voava sobre o Sinai ou nos atentados suicidas de Beirute. Quando alguma entidade, seja um Estado ou uma organização obscura, seja Ocidental ou Oriental, pratica atos que conduzem à morte indiscriminada de civis inocentes por razões políticas, isso é terrorismo.

O que farei aqui, então, é tentar desmontar três dos mitos mentirosos proferidos por islamofóbicos primários e propalados por órgãos de comunicação e redes sociais. Mistificações que servem para diabolizar o “Outro”, neste caso os muçulmanos, como se o Islão fosse algo uniforme e sem discrepâncias, como se um muçulmano malaio fosse igual a um muçulmano saudita. O intuito desta estratégia de mentira é o de incutir o ódio e o medo no coração dos Ocidentais tendo em vista a criação de um inimigo comum que:

– Possa facilitar a tomada de medidas repressivas e de vigilância tipo Patriot Act, cerceando as nossas liberdades individuais;

– Faça esquecer algumas culpas Ocidentais no surgimento do terrorismo islamofascista, tais como a guetização (e autoguetização) das populações muçulmanas mais pobres do nosso território, as medidas geoestratégicas erradas (invasão do Iraque, destruição da Líbia ou aliança com a Arábia Saudita, o país mais extremista do mundo…), venda de armas sem regulação, o discurso cada vez mais agressivo contra o multiculturalismo;

– Permita canalizar as atenções mediáticas da crise socioeconómica e da Austeridade que nos empobrece para o combate ao terrorismo;

– Legitime a prossecução da agressão Ocidental a países muçulmanos do Médio Oriente (um dos garantes da perpetuação do terrorismo islamofascista, pois acicata os ódios contra o Ocidente no seio das populações atacadas), visando ganhos económicos.

Analisemos, então, três exemplos que são dados como provas absolutas do “atraso civilizacional” do Islão e que, bem vistas as coisas, não passam de mentiras descaradas:

  • Todos os países muçulmanos discriminam as mulheres e condenam, na lei penal, a homossexualidade.

Se bem que o quadro seja negro, essa generalização é falsa. Dos 48 países de maioria muçulmana que existem no mundo, 7 já tiveram (têm) mulheres como Presidentes da República (Paquistão, Bangladesh, Indonésia, Turquia, Kosovo, Quirguistão e Senegal) e 13 não penalizam na sua lei a homossexualidade. Curiosamente, o país que mais discrimina a mulher e condena homossexuais é a Arábia Saudita, o principal aliado das potências Ocidentais no Médio Oriente.

Quantas mulheres foram eleitas como Presidentes da República em Portugal ou em França? Os direitos dos homossexuais são respeitados, por exemplo, pelo atual Governo da Polónia, país membro da União Europeia, ou, num caso mais extremo, nos países não muçulmanos da África Negra? A discriminação é um problema transversal e não uma exclusividade muçulmana.

  • A mutilação genital feminina é uma prática islâmica.

Falso. Na verdade, a mutilação genital feminina (que afeta cerca de 130 milhões de mulheres) não é um problema dos países muçulmanos, é um problema, sim, de alguns países de África. Trata-se de uma prática pré-islâmica que, nos dias de hoje, é transversal a todas as religiões, sendo levada a cabo tanto por populações cristãs como muçulmanas. Países como a Eritreia ou a Etiópia, de grande maioria cristã, praticam a excisão de forma maciça.

  • O Islão é uma religião que promove a violência.

Segundo o Papa Francisco – que disse há pouco tempo: “O Corão é um livro de Paz e o Islão uma religião pacifica (…) e o terrorismo alimenta-se da pobreza” – a ideia de que o Islão é uma religião guerreira é falsa. Os atos cruéis cometidos por alguém em nome de uma fé não a torna intrinsecamente violenta. Foi um país indubitavelmente cristão que lançou uma bomba atómica em Hiroshima. É o cristianismo uma religião violenta? Não. Se é verdade que o Islão também se expandiu pela guerra no século VII, não deixa também de ser verdade que portugueses e espanhóis difundiram o cristianismo através da violência e da imposição imperial no que é hoje a América Latina, levando a cabo autênticos genocídios. O que está errado é utilizar religiões como arma politica e de expansão territorial.

Resumindo, existem, é indubitável, países de maioria muçulmana que aplicam leis e tradições que não têm lugar num mundo moderno. A Arábia Saudita é o melhor dos exemplos. Mas os males do mundo não são exclusivos dos países de maioria muçulmana, longe disso. Os atentados aos direitos humanos cometidos pela China ou pelos EUA quando barbaramente executam prisioneiros condenados à pena capital não significa que o confucionismo ou o cristianismo sejam o Mal incarnado. São, simplesmente, a prova de que existe algo de errado com as respetivas sociedades. Nada tem a ver com as religiões que as suas populações professam.

Texto publicado no Lusojornal de 02/12/2015

NGG LJ

 

 

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