Porque partem os nossos filhos para a Jihad?

O que parece haver de desprezo entre homem e homem, de indiferente que permite que se mate gente sem que se sinta que se mata, como entre os assassinos, ou sem que se pense que se está matando, como entre os soldados, é que ninguém presta a devida atenção ao facto, parece que abstruso, de que os outros são almas também. 

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego

 

« Eu andei sempre atrás dos meus filhos e isso não impediu que esteja onde está », diz a mãe de um dos terroristas portugueses do Estado Islâmico na Síria.

Outros pais de terroristas descrevem a mesma perplexidade face ao extremismo dos filhos, lembrando aqueles que descobrem atónitos que os filhos são delinquentes ou  toxicodependentes.

Pouco sabemos das motivações individuais, de cada um destes filhos, para se implicarem nesta vida de morte. Cada um terá a sua própria experiência da existência, os seus próprios medos e aspirações, mas podemos fazer um retrato geral, através daquilo que sabemos ser comum, neste processo letal de incorporação.

O que sabemos é que, esta minoria de jovens, não são em geral psicopatas, ou seja, não são indivíduos à partida com problemas cognitivos comprovados, mas transformam-se em sociopatas através de mecanismos de recrutamento e dessensibilização bem conhecidos. Há várias formas de desaprender a ver o Outro como sendo uma « alma também », como diria o Pessoa, tais como :

– A desqualificação, inferiorizar o outro, convencer-se que ele não pertence à mesma categoria, podendo assim facilmente passar ao estatuto de objeto. O terrorista tem uma visão utilitarista do Outro, que passa a ser um instrumento para a sua missão, para chegar aos seus fins. É necessário compreender que as vítimas não são o inimigo, as vítimas são o meio encontrado para desígnios mais altos e por vezes abstratos como a luta contra um país, contra valores, a instauração de um clima de medo, a promoção da divisão interna ou a demonstração de força e poder;

– Deixar de ver o outro como uma pessoa, como um indivíduo, e passar a considerar unicamente o grupo, a massa informe, inibindo assim mais uma vez o processo natural de identificação e consequente empatia ;

– Dessensibilizar através de práticas traumáticas, que vão provocar um choque psicológico e de identidade no indivíduo, como por exemplo obrigá-lo a cometer atos atrozes, tal como nos ritos iniciáticos dos gangs;

– Dessensibilizar e potencializar a agressividade através de psicotrópicos. No caso de Daech fala-se da droga Captagon, um estimulante à base de fenitilina, anfetamina e ecstasy que diminui a dor, a empatia, que permite uma maior resistência ao cansaço e uma impressão de poder e invulnerabilidade. Não é evidentemente a droga que faz o terrorista mas facilita a missão a vários níveis.

Para além destes métodos, temos de ter igualmente em conta a nossa predisposição natural à obediência, comprovada pela famosa experiência de Milgram, predisposição esta que pode ser mais ou menos desenvolvida segundo a educação e a cultura em que nos inserimos.

Todas estas técnicas clássicas encontram em jovens vulneráveis em crise existencial, de identidade e de futuro um terreno propício para frutificarem. Na sua grande maioria os Portugueses terroristas vivem fora do país de origem, emigraram ou são segundas gerações. Estes jovens vivem entre as origens e cultura dos pais nas quais não se identificam completamente e ao mesmo tempo sentem-se excluídos no país em que nasceram e cresceram, e encontram a solução a esta crise identitária numa via extremista, uma via em que lhes é prometida, segundo os casos, uma missão a vocação universal, aventura, justiça, poder, dinheiro  e mulheres.

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A vontade de pertencer a um grupo é um fator também a ter em conta pois grande parte dos terroristas vai para a Jihad através de pessoas que lhes são próximas como demonstram vários estudos que põem em relevo a importância da família e dos amigos no recrutamento, como sendo um fator mais relevante que a religião ou o bairro.

Os terroristas não obedecem sempre aos clichés, eles não são forçosamente originários de um meio desfavorecido, sem estudos, solitários, sem nada a perder, aliás alguns dos terroristas portugueses estavam inscritos em Universidades e têm mulheres e filhos. O sacrifício reside justamente em ter algo a perder. O terrorista pode ser alguém de integrado, mas que ressente uma frustração em relação às suas aspirações, ao seu estatuto social, vários terroristas portugueses ansiavam, por exemplo ser estrelas de futebol ou de música.  Daech sabe como meter em valor estes jovens que se sentiam ninguém mas que aspiram a ser alguém. Alguns dos terroristas portugueses afirmam ter subido na hierarquia e passaram de soldados normais a treinadores militares ou recrutadores.

Esse ser alguém passa igualmente pela comunicação, pelo show, estes jovens põem fotos e vídeos nas redes sociais, posam com orgulho e vaidade, adotam nomes de guerra como os gangsta rappers americanos, com armas na mão (daí neste artigo ter sido escolhido não fazer menção aos nomes dos indivíduos).

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As bases do discurso de recrutamento não se resumem a argumentos religiosos, e isto tanto para os jovens de origem muçulmana como para os outros. Estamos perante um discurso de revolta, um discurso “revolucionário”, um discurso anti-ocidente, anti-ordem estabelecida, anti-semitismo, anti-mondialização, etc. Alguns terroristas portugueses afirmam lutar pelos oprimidos, adotando um discurso não somente religioso mas também político.

Ora pouca coisa se pode fazer contra alguém que está disposto a morrer, tornar-se num kamikaze demora um tempo importante de preparação, tanto mental como técnica, e desfazer esta verdadeira « lavagem ao cérebro » é missão laboriosa. O que nos resta de exequível enquanto pais é a prevenção.

Muitos dirão que não devemos expor argumentos de explicação porque desculparia de alguma forma os atos cometidos, ora não é disso que se trata aqui, explicar não é desculpar, trata-se aqui de perceber quem somos, quem são estes nossos filhos para poder prever comportamentos. Não podemos ficar na perplexidade, ou na simples culpabilização e repressão, não é essa a nossa missão. Excluir os terroristas da esfera da humanidade, considerá-los unicamente como monstros, nos quais realmente se tornaram, é tapar os olhos a fenómenos que nós próprios coproduzimos através de sociedades individualistas, sociedades do desespero em que os nosso filhos não vêm futuro. Os terroristas são e devem ser responsabilizados, incriminados e julgados pelos seus atos, mas dito isto, que podemos nós fazer pelos nossos filhos?

Devemos repensar a integração, a educação, o « vivre ensemble » e estarmos atentos aos sinais de alerta, quando se têm dúvidas consultar associações especializadas e profissionais das questões ligadas à deriva sectária. Em França, podemos contactar a Miviludes (Mission interministérielle de vigilance et de lutte contre les dérives sectaires) e a associação CPDSI (Centre de Prévention contre les dérives sectaires liées à l’islam).

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O número de terroristas e os meios de que dispõem, não são por si só suficientes, para meter em causa a existência dos nossos países. O objetivo destes terroristas é que sejamos nós mesmos os nossos próprios carrascos, dividindo-nos, propagando o ódio, a rejeição do outro, fazendo mudar constituições, diminuindo os nossos direitos e liberdades, fomentando uma guerra civil. Nem tudo está na nossa mão, as questões geo-políticas são de difícil resolução para o cidadão comum que nós somos, mas podemos [tentar] prevenir e [tentar] levar os nossos filhos para outros caminhos mesmo que para isso seja necessário pedir ajuda…

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Artigo publicado no Luso Jornal (25/11/2015), em versão ligeiramente reduzida http://www.lusojornal.com
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