De que guerras fogem aqueles que morrem afogados no Mediterrâneo?

Libyan-refugees-boat
Refugiados líbios à procura de Paz depois da destruição do seu país pelas bombas largadas em nome de uma falsa Democracia

Qualquer ser humano que possua um coração feito de carne dentro do peito chora com o sofrimento dos milhares de homens e mulheres que foram (e são) engolidos pelas ondas quando, desesperados, resolvem arriscar as suas vidas e as das crianças que carregam nos braços em busca de uma vida digna. Apenas as carcaças desumanizadas ficam indiferentes perante esta situação de catástrofe humanitária, recusando-lhes qualquer tipo de ajuda e fechando-lhes a porta na cara. E vemos que, inacreditavelmente, o mundo anda cheio dessas carcaças ambulantes.

É sabido que, hoje, os migrantes/refugiados que tentam a travessia do Mediterrânio com o objetivo de penetrar no limes da “Fortaleza Europa” vêm essencialmente de duas regiões do mundo: o Médio Oriente e o Norte de África. Sabemos, também, que esses migrantes/refugiados fogem da guerra e das misérias que ela arrasta.

Mas urge colocar a questão essencial. Um autoquestionamento que uma boa parte da população europeia – preocupada com a sua própria sobrevivência e comida pelos seus egoísmos nacionais, que tão bem definem a Europa historicamente –, nem sequer consegue levar a cabo. Essa incapacidade de se interrogar é, como não poderia deixar de ser, exacerbada pela informação noticiosa “empacotada” das televisões e dos jornais, fornecida e orientada por um regime, aquele em que vivemos, que é, ele próprio, o principal causador de todas essas desgraças. Não só das nossas, europeus, mas também das alheias, das dos desgraçados que morrem no mar.

E é esta a questão que urge colocar: “Quem promove as guerras que expulsa essa gente das suas terras?”.

A resposta é simples. Somos nós.

Somos nós, todos aqueles que elegeram os governantes que ordenaram o bombardeamento e a destruição da Líbia, fazendo-a recuar aos seus tempos tribais enquanto as “nossas” companhias petrolíferas matam a sua sede com o petróleo roubado ao povo líbio.

Somos nós, todos aqueles que deram o seu voto a políticos que atiram gasolina para cima da guerra civil síria e destruíram o Iraque, recorrendo a mentiras e a sofismas para – a história repete-se – encherem os bolsos dos acionistas da SHEL, da EXXONMOBIL ou da ENI.

Somos nós, todos aqueles que aplaudem quem gerou, apoia, treina e arma grupos terroristas que arrastam as populações de imensos territórios para um obscurantismo medieval.

Sempre que virmos uma criança a boiar morta nas águas do Mediterrâneo, lembremo-nos do nosso voto que, num qualquer domingo de sol, foi cair dentro de uma urna e elegeu Nicolas Sarkozy, o principal fomentador da destruição da Líbia pelas bombas da NATO.

Sempre que virmos um barco virado do avesso e rodeado de cadáveres, lembremo-nos de quem elegemos para os cargos de chefia da União Europeia, uma das instituições responsáveis pelos desastres sírio e iraquiano.

Sempre que virmos seres humanos como nós a serem pescados das águas, lembremo-nos dos cordiais cumprimentos entre os políticos que elegemos e o rei saudita, o grande apoiante material e ideológico do Estado Islâmico, esse antro de fanáticos que tanto degola cristãos como enforca muçulmanos.

Façamos, portanto, um mea culpa, pois ele é mais do que necessário.

O Iraque de Saddam Hussein, a Síria de Assad ou a Líbia de Kadhafi, longe de serem Estados livres, eram países modernos, com o maior nível de desenvolvimento humano das respetivas regiões. O Iraque, a Síria e a Líbia passaram de ditaduras estáveis a infernos ardentes, levando as suas populações (e as dos países vizinhos) à miséria e à morte. Qualquer ser humano que estivesse nessa situação faria o mesmo que fazem os milhares de migrantes/refugiados: tentaria a travessia para um lugar de paz que lhes permitisse uma vida digna.

A maneira infantil como nós usamos o nosso voto é responsável pela morte dessa gente. Um voto irrefletido e leviano em quem promove a guerra é uma arma de destruição maciça.

Só existe, portanto, uma solução para acabar com a tragédia no Mediterrânio.

E ela é a seguinte: é hora de usarmos a democracia que temos para escorraçar do Poder os políticos que fomentam as guerras nos outros países e as crises económicas nos nossos.

Só elegendo Governos de rutura com este paradigma que visa ingerir na vida política de terceiros e destruir os países do Médio Oriente ou de África para lhes sacar petróleo ou outras matérias-primas (com o intuito de, assim, alimentar um regime moribundo baseado no dinheiro fácil, na especulação e na exploração) conseguiremos estancar a hemorragia de vidas que tinta o Mediterrâneo de vermelho.

O voto naqueles que defendem a paz e o respeito mútuo entre todos os povos é a nossa arma. Seja para nos salvar a nós próprios, seja para salvar aqueles que morrem na travessia do mar. Para isso, basta utilizar o voto com seriedade, convicção e, claro, maciçamente.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s