Mais pobreza, mais emigração e mais envelhecimento: o suicídio português?

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Um singelo agradecimento aos Governos que desperdiçam portugueses

A frase que dá título a este texto não é uma mera questão retórica. Ela dá corpo à que deveria ser a grande (talvez a única!) prioridade de qualquer governo português: a sobrevivência do povo que compõe o estado-nação mais antigo e coeso da Europa. Ou seja, a continuidade de Portugal deveria ser o cerne da governança.

Essas três palavras – pobreza, emigração e envelhecimento – assemelham-se a tabus. Não existe um governo, seja da direita (PSD/CDS), seja centrista (PS), que tome medidas que diminuam o peso dessas três condicionantes sobre a sociedade portuguesa. Na verdade, os partidos de centro-direita que governam Portugal desde o começo da crise que se arrasta desde 2008 (embora as suas raízes mergulhem em águas bem mais profundas) parece terem pavor de falar, uma vez no poder, dessas chagas sociais tão evidentes.

Antes de avançarmos, lancemos, então, alguns números que nos ajudem a fundamentar a análise:

– Uma projeção das demógrafas Maria Filomena Mendes e Maria João Valente Rosa refere que em 2050 a população portuguesa terá 33% de pessoas com mais de 65 anos (hoje, são menos de 20%);

– A manter-se o atual nível de fecundidade (dos mais baixos do mundo: cada mulher portuguesa tem, em média, 1,28 filhos, longe dos 2,1 necessárias para a renovação geracional. As mulheres francesas, por exemplo, têm 2,01 filhos), Portugal, a continuar esta tendência, perderá cerca de 6,5% da sua população, mais ou menos 700 mil habitantes;

– Essa perda de população não será compensada pela imigração (o número de estrangeiros a viver em Portugal diminuiu drasticamente). Bem pelo contrário, o regresso à emigração maciça (saiu de Portugal, nos últimos 5 anos, quase meio milhão de portugueses) fará com que a população portuguesa diminua ainda mais;

– O aumento da pobreza – hoje, 25% da população vive abaixo do limiar da pobreza (cerca de 421 euros/mês por pessoa) – é sem, dúvida, a principal causa que conduz tanto à decisão de não ter filhos, ou de ter apenas um e muito tardiamente, como à decisão de emigrar.

Assim, tendo em mente que em Portugal há poucas crianças a nascer e muitos jovens a emigrar, dissequemos uma por uma, essas três palavras que quase nenhum político do centro-direita que chegue ao governo deseja proferir ou que, quando o faz, fá-lo segundo a perspetiva errada, ou seja, apenas durante as campanhas eleitorais e quase sempre recorrendo a discursos vazios e demagógicos.

Pobreza

Em Portugal – fruto da austeridade, do desemprego causado pela destruição do aparelho produtivo desde o tempo dos governos de Cavaco Silva, e dos cortes nas transferências sociais do Estado para as famílias mais pobres (uma diminuição de quase 8%) – a pobreza atinge agora 2 milhões e quinhentos mil portugueses. Essa pobreza acentuou as desigualdades sociais (os ricos estão mais ricos e os pobres estão mais pobres), ao ponto de os jovens das famílias mais fragilizadas não terem meios de pagar as propinas da universidade, quando a Constituição, como se sabe, estipula uma educação gratuita e universal. Desde que os governos de centro-direita, o PS/PSD-CDS-PP, criaram a obrigatoriedade das propinas, Portugal deu um passo adiante na elitização do ensino universitário, impossibilitando aos mais pobres o acesso, e, simultaneamente e sem surpresa, ajudaram a fomentar as universidades privadas. Mais uma vez, como acontece tantas vezes, os políticos do chamado, um pouco aparvalhadamente, “arco da governação, fragilizam o sistema público de maneira a facilitar os negócios privados dos poderosos “amigos”, numa troca promíscua de favores. Veja-se o ataque que se faz hoje ao Serviço Nacional de Saúde: fecha-se um serviço público, gratuito e de qualidade, para, logo a seguir, a poucos quilómetros, abrir o mesmo serviço numa clinica/hospital privado, só ao alcance de quem tem possibilidades de ter um seguro de saúde, caro e fora do alcance dos mais pobres. Também na saúde, como na educação, se está a criar, no nosso país, serviços (cada vez mais débeis por falta de investimento público) para os pobres e serviços privados, caros, para quem a eles pode aceder.

Por fanatismo ideológico, o governo PSD/CDS-PP promoveu a desvalorização interna (cortes nos salários e nas pensões, despedimentos em massa, precarização dos serviços públicos, aumento dos impostos, massacre das classes média e baixa, ataque às pequenas e médias empresas que vivem do mercado interno, venda dos bens públicos a preços de saldo a estrangeiros) e fomentou a pobreza. As suas políticas fizeram com que o movimento ascendente do “elevador social” português se interrompesse. Assim, atualmente, é muito difícil a um jovem que nasceu pobre conseguir sair dessa triste e injusta condição, pois, pura e simplesmente, não tem meios para pagar os seus estudos e, consequentemente, adquirir alguns dos instrumentos indispensáveis à sua afirmação como ser humano neste mundo altamente competitivo. Portugal regressou, em certa medida, à sociedade de castas do tempo do salazarismo: um pobre não pode ansiar a uma vida digna, nem que para isso trabalhe arduamente. O nosso país, como é manifesto, padece de uma enfermidade terceiro-mundista: a pobreza de quem trabalha.

Emigração

Portugal vive a terceira grande vaga de emigração em pouco mais de 100 anos (1890-1920, 1960-1974, 2008-?). Com a crise financeira de 2008 e a consequente Grande Recessão dos últimos anos, a sangria migratória ganhou amplitude, atingindo proporções salazaristas. Ou seja, a quantidade de portugueses a saírem do Portugal desde 2008 atingiu números próximos da emigração maciça dos anos 60 e 70.

O meio milhão de portugueses que emigrou, jovens e menos jovens, qualificados e não qualificados, dá razão a Vitorino Magalhães Godinho que, em 1978, disse que a emigração é uma “constante estrutural” da demografia portuguesa. Essa “constante estrutural” é, claro, fruto da persistência da miséria e da falta de oportunidades que decorrem das políticas dos últimos governos. O atual governo, embora agora o negue um pouco estupidamente, convidou de forma desavergonhada os portugueses a abandonarem o seu país e a irem viver para o estrangeiro. Tal como se os portugueses fossem quinquilharia inútil que se pode atirar para o lixo com o desprezo de quem pouco se importa com os seus concidadãos. A emigração deu, claro, muito jeito a este governo e permitiu-lhe aguentar até ao fim da legislatura. Caso os portugueses que emigraram não tivessem aceitado o “convite” dos membros do governo de Passos Coelho (e do próprio primeiro-ministro), os números do desemprego atingiriam números estratosféricos e a tão maltratada Segurança Social há muito que teria colapsado.

Depois de expulsar centenas de milhares de portugueses de Portugal, o Governo, não inteiramente satisfeito com o colapso social provocado, decidiu abandoná-los nos respetivos países de acolhimento, tal como prova o desmantelamento de alguns dos pilares identitários da Diáspora portuguesa, tais como, por exemplo, o Ensino do Português no Estrangeiro e a rede consular.

Portugal – apesar de programas de uma total vacuidade, claramente para inglês ver, tal como o VEM (Valorização do Empreendorismo Emigrante), plano desenvolvido pelos mesmos políticos que “convidaram” os portugueses a emigrar que, com uma mão cheia de nada, visa agora atraí-los – já perdeu a esmagadora maioria desses portugueses. Os novos emigrantes, magoados com Portugal, desligam-se do nosso país, formam famílias mistas, multiculturais, e jamais regressarão. Os seus filhos, nascidos no estrangeiro, a não ser que o Estado português deixe de secundarizar os emigrantes, já não serão bem portugueses… serão uma outra coisa qualquer, quiçá mais rica. É uma pena que Portugal tenha de os perder.

Envelhecimento

A esperança média de vida em Portugal, tal como em quase todos os países do mundo, não para de crescer graças aos avanços tecnológicos da medicina. No nosso país, todavia, para a grande maioria dos idosos, uma vida mais longa significa mais anos de sofrimento socioeconómico. Os cortes nas pensões (que, mais do que nunca, também servem para apoiar filhos e netos desempregados) e, muitas vezes, o abandono tornam insuportável a vida dos mais velhos.

Porém, Portugal sofrerá um envelhecimento não apenas devido ao aumento da esperança média de vida. Outros dois fatores, mais importantes, contribuem para o envelhecer da população: a reduzidíssima taxa de natalidade e a emigração dos mais jovens. A médio e longo prazo, esta conjuntura tornará inviável a sobrevivência da Segurança Social. Portugal, por essa altura, transformar-se-á num país cheio de velhos e quase sem crianças. O nosso país será tão triste como um asilo para indigentes.

Os culpados

Essa conjuntura catastrófica que poderá levar ao desaparecimento de Portugal tal como o conhecemos é culpa do PSD e do partido que o parasita, o CDS-PP; mas é também culpa do PS, pois os governos “socialistas” há muito que traíram os valores de esquerda, exercendo, na prática, políticas que em nada os distingue dos governos de direita. Não nos podemos esquecer que foi um governo do PS que trouxe a austeridade cega para Portugal.

Portanto, ao contrário do que dizem os eleitos que representam os partidos que compõem este governo que conduziu o país ao retrocesso civilizacional, mentindo com todos os dentes que têm na boca, Portugal e a sua sociedade estão incomparavelmente piores do que em 2011, ano em que a sucessiva incompetência, má gestão do erário e das empresas públicas (para depois justificar a sua privatização ao desbarato numa enorme espiral de promiscuidade entre público e privado) e, por fim, corrupção (à vista de quem a quiser ver) dos vários governos PS/PSD levaram o país à bancarrota.

Como sempre, os políticos dos partidos do costume mentiram durante a campanha eleitoral de 2011 e, uma vez com a “mão no pote”, cederam à chamada troika todos os instrumentos de soberania que, se se tivessem mantido nas mãos do Estado português, permitir-nos-iam sair do buraco em que nos meteram sem que para isso se tivesse de esmagar a dignidade do nosso povo.

Eis o que os portugueses ganharam por entregar a gestão da crise aos mesmos que a criaram: mais pobreza, emigração imparável, maior desigualdade, crescimento da dívida (passou de 90% para 130% do PIB em 4 anos), corte de salários, aumento de impostos, desemprego estruturalmente elevado (principalmente o dos jovens), serviços públicos de menor qualidade, retrocesso económico e social…

A solução

Como poderá, então, Portugal escapar ao abismo demográfico e social e recuperar a sua economia? O primeiro passo deverá ser já dado em setembro deste ano, nas eleições legislativas. Os portugueses deverão punir os partidos da alternância que se vão rodando no poder para, uma vez lá, aplicarem as mesmas políticas que fizeram com que 25% da população seja muito pobre, que projetaram o desemprego real para os 29%, que conduziram 5% da população a emigrar.

Depois de décadas de política de direita, Portugal precisa de uma verdadeira alternativa que aplique uma política de esquerda, que coloque os interesses dos portugueses à frente dos interesses dos credores, nacionais ou estrangeiros, que, numa frente alargada, exija a renegociação da dívida e que recupere para si os instrumentos de soberania vendidos a Bruxelas e a Frankfurt, pois só com eles Portugal poderá recuperar a sua independência.

Só assim, com uma política de esquerda, que seja simultaneamente patriótica e internacionalista, que defenda todos os povos europeus submetidos à desumanidade de organizações capitalistas apátridas e sem rosto… Só assim é que Portugal não desaparecerá. Só com uma política de esquerda que se centre nos interesses e na dignidade dos seus povos é que a Europa escapará à sua milenar História de guerras e destruição. Tal como estão hoje, Portugal e a Europa continuam na senda de um longo e doloroso suicídio.

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