Um olho no Pacheco Pereira, outro no cigano

2017-04-28T011025Z_1444845630_RC12F22DD150_RTRMADP_3_CALIFORNIA-COULTER

No ano passado, em “A burka de Pacheco Pereira”, já havia reagido ao desconhecimento do comentador profissional sobre a sociedade francesa, desconhecimento este que o condenara a uma visão redutora dos muçulmanos.

No artigo “Da burka ao colete de explosivos” JPP utilizava como argumento de autoridade ter estado recentemente num país europeu. Este argumento do “eu sei porque passei por lá” não lhe é próprio, nas últimas semanas saltaram do chapéu um número impressionante de ilustres especialistas dos bairros periféricos de Lisboa que afirmam conhecer a Cova da Moura porque lá deram uma vez um salto para comer uma cachupa, tornando a Cova da Moura na atração turística mais badalada, mais in, mais the place to be do ano.

Ora, no seu mais recente artigo de opinião de dia 24 de Julho, no Público, “Trump e os ciganos” – versão requentada do que já tinha proferido na Quadratura do Círculo de dia 20 de Julho – o cronista volta a dar voz ao seu desconhecimento, afirmando que não aprende nada com a extrema-direita francesa mas com Trump. No entanto, engana-se, pois teria muito a aprender com o FN e com a maneira como os outros partidos geriram o seu sucesso, porque se olhasse para mais perto e não se perdesse no outro lado do Atlântico a ver a Fox News, não confundiria o FN de Marine Le Pen com o do pai, e sobretudo não faria os mesmos erros de análise (voluntários ou não) já feitos, há muito, pela Direita francesa de Sarkozy & Co. utilizando, exatamente, os mesmos argumentos:

– Denúncia do politicamente correto;

– Defesa da palavra “descomplexada” (exprimir em público o que o povo pensa em privado e tem medo de dizer);

– Mistura entre liberdade de expressão e aceitação da linguagem racista, homofóbica ou misógina;

– Construção de uma retórica criadora de um fantasioso problema nacional envolvendo comunidades que representam uma parte minoritária da população, utilizando como exemplos situações pontuais ou circunscritas;

– Culpabilização de supostos modos de vida dessas comunidades;

– Instrumentalização da luta feminista como encobrimento da islamofobia/ciganofobia.

É necessário avisar o José Pacheco Pereira que a estratégia de Sarkozy & Co. para arrecadar os votos dos eleitores do FN falhou, porque se esqueceram que o povo prefere sempre o original à cópia e que quem lucrou com esses erros foi precisamente a extrema-direita. Hollande, Valls & Co. também queimaram as asas neste jogo que JPP acabou de descobrir. O que estes assessores, acredito que involuntários, da extrema-direita fizeram foi simplesmente abrir a caixa de Pandora.

O “politicamente correto” é a fina fronteira que permite, nomeadamente na esfera pública, um respeito mínimo em relação ao Outro. Como dizia Marguerite Yourcenar, em Memórias de Adriano, “Le masque devient visage.” Ora o politicamente correto é pedagógico, e pode acabar por resultar na passagem da máscara à cara, e o mesmo é inversamente válido, libertar a palavra racista, é deitar abaixo o último limite entre a decência e a selvajaria civil. Foi o que aconteceu no Reino Unido e nos EUA: durante a campanha do referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE e sobretudo após a vitória do campo do Brexit os crimes de ódio aumentaram de 49% em relação ao mês anterior, verificando-se o mesmo fenómeno após a vitória de Trump com a multiplicação de manifestações de provocação dos supremacistas brancos.

Ana Gomes, eurodeputada, afirmou há alguns meses numa conferência em Paris que no Parlamento europeu a presença crescente da extrema-direita e o seguidismo da sua agenda, inclusive, por parte da Esquerda é inédita. Segundo Ana Gomes ouvem-se declarações que seriam impensáveis há alguns anos e sobretudo existe uma inércia gritante por parte das outras forças políticas. A “linguagem patrulhada” que JPP denuncia não está a ser a regra, é sobretudo a palavra descomplexada, populista, racista, homofóbica à la Le Pen, Sarkozy, Trump, Ventura ou Gentil Martins que se está a propagar. E o comentador está a participar, mesmo se involuntariamente, de forma ativa nesta ascensão do populismo. Ele é parte integrante deste movimento, ao não condenar de forma clara as declarações racistas de André Ventura banalizando-as e defendendo, ainda por cima, que “ele até tem alguma razão”.

JPP admite o óbvio na Quadratura do Círculo, ele não convive com ciganos, mas esquece-se de dizer que não convive ele nem a maioria dos portugueses, pois os cidadãos de etnia cigana não representam mais de 0,5% da população. Mais uma vez, Pacheco Pereira faz afirmações baseadas no “ouvi dizer” e participa na campanha de criação de um falso problema nacional com os ciganos. O que resultará no mesmo que aconteceu em França, pois são as populações que menos vivem com muçulmanos que mais votam FN e são as pessoas que vivem em ambiente multicultural que menos votam na extrema-direita. Ou seja, o voto racista é, muitas vezes, baseado em projeções, em medos fantasiosos, em receios resultantes de declarações como as de JPP que afirma que há aqui um problema que não deve ser silenciado e que, claro, ele tem coragem de denunciar.

JPP acaba o artigo com a técnica de diversão conhecida… “então e as meninas ciganas?” Dizendo que a esquerda não faz um centésimo dos protestos indignados sobre a condição das mulheres, e eu pergunto ao comentador feminista onde está a sua indignação contra o racismo? Porque prefere desculpabilizar as palavras racistas do seu camarada de partido e dar enfâse às “situações inaceitáveis que são permitidas a um número significativo de ciganos”?

Estamos todos de acordo, ninguém está acima da lei, mas também ninguém deveria estar abaixo. A linha vermelha não está em calarmos situações inaceitáveis que são impostas a um número significativo de ciganos. Afinal, quem quer silenciar quem?

O regresso à Idade das Trevas ou “olha lá para baixo, seu filho da puta!”

 

terra da luaExiste uma anedota que envolve o astronauta Edgar Mitchell, o sexto ser humano a pisar a Lua. Ele, ainda impressionado com aquele seu passeio lunar, disse o seguinte:
“Vista da Lua, a política internacional parece insignificante. Eu adoraria agarrar um político pelos colarinhos, levá-lo lá cima, a trezentos mil quilómetros da Terra, e dizer-lhe: olha lá para baixo, seu filho da puta!”
Ora, esse salutar plebeísmo – tão necessário como válvula de escape e que tem o condão de enfiar o dedo na ferida – serve para ilustrar a ideia de que o nosso frágil planeta não passa de um insignificante grão de areia a viajar pelo espaço a uma velocidade colossal. Tudo isso num equilíbrio digno da melhor relojoaria. A única casa da humanidade, a Terra – sempre tão sujeita aos perigos naturais que já provocaram extinções em massa de milhares de espécies, que vão surgindo sob a forma de meteoritos, raios cósmicos ou movimentos tectónicos que tantas cicatrizes deixaram na geologia – dispensava bem as mais recentes ameaças que pairam sobre ela (e sobre nós).
Essas novas ameaças (decorrentes de outras mais perigosas e profundas de que falaremos adiante) materializam-se nas políticas (assentes no ceticismo climático defendido por apenas 1% dos cientistas) levadas a cabo pela administração Trump. O presidente dos EUA, acompanhado do seu cortejo de negacionistas e criacionistas, ultraliberais e falcões da guerra, numa mistura explosiva de obscurantismo e ganância, propagou a falácia de “fazer a América grande outra vez” para conseguir ser eleito naqueles estranhos mundos eleitorais que são os EUA. O slogan fez voar a imaginação dos eleitores até ao tempo que eles consideram ser a idade de ouro do sonho americano quando, no fundo, o desejado por Trump era (é!) promover um retrocesso civilizacional.
Estes líderes mundiais, tão anacrónicos como ignorantes, desprezam a Razão e negam a evidência científica: a ação humana, através da poluição industrial, degrada o ambiente e está, em conjunto com muitas outras causas de origem natural, a conduzir a alterações climáticas que transformarão a Terra num outro planeta muito diferente, mais imprevisível, instável e mortífero.

20-how-to-make-America-great-again-funny-memeO fenómeno planetário, embora sendo irreversível, poderá ver as suas consequências minoradas se todos os países do mundo respeitarem o famoso Acordo de Paris (2015). Um Tratado que, embora insuficiente, pode, se cumprido, ajudar a manter as alterações climáticas dentro de parâmetros mais ou menos razoáveis, evitando-se, assim, os casos extremos de subida dos mares e oceanos, de desertificação galopante, de exacerbação de tempestades, de fomes pandémicas ou de guerras motivadas pela escassez de água… Cataclismos que, por ironia do destino, atingirão em primeiro lugar e com maior violência os países mais pobres, gerando-se assim uma vaga de refugiados climáticos de proporções bíblicas que, em comparação retrospetiva, tornarão a atual “crise dos refugiados” em algo de pequena escala.
Como se disse atrás, o facto de a administração Trump forçar os EUA a abandonarem o Acordo de Paris não é, porém, o mais grave.
Os elementos mais preocupantes residem na constatação de que as nossas sociedades da pós-verdade e dos factos alternativos aceitam a mentira como se fosse uma verdade absoluta, deixando-se manipular pelos interesses obscuros das grandes multinacionais petrolíferas e do armamento que muitos políticos defendem como seus. Esses “interesses” fomentam um modo de vida que, em derradeira análise, nos conduzirão à autodestruição.
Esse modo de vida e a inépcia que a humanidade, mormente a ocidental e a asiática, tem demonstrado para alterar um insustentável paradigma – o consumo descartável, o comprar por comprar, o individualismo que nos isola, o desaparecimento da memória histórica ou a falta de visão de um futuro baseado num desenvolvimento sustentado e cooperativo – são os pecados dos nossos dias. Esta incapacidade de mudarmos é muito mais grave do que o epifenómeno “Trumpista” que assola o mundo.

7451308-Ecology-The-planet-malate-of-pollution-and-submerged-by-waste-Stock-PhotoEmbora cientes (é impossível, lá no fundo, não o estar) do impacto nefasto que o nosso modo de vida, viciado num irrealizável crescimento económico contínuo que necessita dos recursos de três Terras para se consumar, poderá ter nas gerações vindouras, no futuro dos nossos filhos ou netos, nós, os homens e mulheres que vivem nesta esfera mais ou menos perfeita, obcecados pela rapidez e pelo efémero, pelas redes sociais e pelas notícias supérfluas emitidas em catadupa, esquecemos a nossa própria mortalidade. O facto de, em comparação com o passado, pouco convivermos com a morte ou a doença, graças aos avanços da medicina, tornou-nos em animais arrogantes, incapazes de olharmos para além do nosso próprio umbigo.
Nós, hoje, já assimilamos a ideia de que o planeta é pequeno. Para isso basta ver uma fotografia que o mostre a pairar no espaço negro e hostil ou reler com atenção a provocação de Edgar Mitchell que abriu este texto. Falta-nos, contudo, assimilar a certeza de que a nossa existência se alicerça na fragilidade desse mesmo pequeno planeta.
Se, enquanto espécie, substituirmos a arrogância pela humildade e o individualismo pela cooperação entre países ricos e pobres, se apostarmos na transferência de riqueza e tecnologia, se trocarmos a atual corrida às armas por uma corrida às energias renováveis…
Se o Homo for verdadeiramente Sapiens, então, ainda vamos a tempo de nos salvarmos.

A Escravatura, o segredo de família do Presidente

PR, Marcelo Rebelo de Sousa, visita Senegal
O Presidente da República de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa , espreita na porta “do não retorno” durante uma visita à Casa dos Escravos (entreposto para a América) na ilha de Gorée, Senegal, 13 de abril de 2017.  ANTÓNIO COTRIM/LUSA

A 9 de Abril, Marine Le Pen negou a responsabilidade da França pela Rusga do Vel-d’Hiv, que consistiu na maior detenção e deportação de judeus realizada neste país durante a IIa Guerra Mundial. Quatro dias depois, a 13 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa negou, no Senegal, pelas suas descuidadas declarações eufemísticas sobre a Escravatura, apimentadas de um orgulho de mau gosto numa falsa pioneira abolição, a real responsabilidade de Portugal na perpetração deste Crime contra a Humanidade.

Com as devidas diferenças históricas e entre estas duas personalidades, ambos desejam, no entanto, preservar o segredo, o segredo de família que embaraça, que não nos enobrece, que nos causa vergonha. E o próprio do segredo de família é o silencio partilhado de uma realidade conhecida bem como as estratégias para a sua preservação, como negar, rever, desculpabilizar ou relativizar que se traduzem em expressões do estilo: “não aconteceu”, “não fui eu”, “foi o outro”, “não foi bem assim”, “o outro ainda fez pior”, “não foi assim tão grave”, “o que já lá vai, já lá vai”.

Apesar de em França ainda existirem figuras como Le Pen ou Fillon que repudiam nos seus programas eleitorais qualquer tipo de arrependimentos de Estado, a lei francesa nos últimos anos evoluiu, finalmente, sobre a questão da memória da Escravatura. Em 2001, foi promulgada a Lei Taubira para o reconhecimento do tráfico negreiro e da Escravatura enquanto crimes contra a Humanidade. No seguimento dessa lei, foi criado em 2004, o Comité Nacional para a Memória e História da Escravatura e, em 2006, foi instituído o dia 10 de maio como o dia comemorativo da memória da Escravatura e da sua abolição. Para além disso, a lei prevê que os manuais escolares e os projetos de investigação em História e Ciências Humanas acordem a devida importância a este facto histórico. Apesar do caminho que resta a percorrer, os franceses avançaram no desvelamento do segredo e na convicção de que a Verdade é o melhor remédio para a cicatrização destas feridas, tal como Mandela o compreendera quando criou no pós-apartheid a “Comissão Verdade e Reconciliação”.

Marcelo Rebelo de Sousa, ao não fazer este trabalho de Verdade na Ilha de Gorée, e não podendo negar a existência do acontecido, num momento à la Trump, preferiu o método da revisão, ao enunciar imprecisões históricas, facilmente verificáveis. Ora, o Marquês de Pombal não aboliu a Escravatura fazendo de nós uns vanguardistas da liberdade e igualdade dos povos. Ele deu com uma mão ao abolir a Escravatura em Portugal continental para tirar com a outra ao criar as Companhias de comércio do Grão-Pará e Maranhão e a de Pernambuco e Paraíba para facilitar a exportação de escravos para o Brasil. E a Escravatura não foi apenas, como diz o Presidente, uma injustiça ou um sacrifício aos Direitos Humanos, foi um Crime contra a Humanidade organizado e planeado, em que milhões de mulheres e homens foram durante séculos reduzidos, com violência, a mercadorias, a bens comerciais e sexuais. Esta infâmia continuou em versão dita light até 1974-75 com a opressão colonial nomeadamente através da prática de trabalhos forçados, com consequências que ainda hoje se fazem sentir nos descendentes destas populações escravizadas, com repercussões no desenvolvimento destes países a nível social e económico e ainda no Portugal atual em questões essenciais como a identidade, a discriminação ou a representatividade.

É difícil, bem sei, para o Senhor Presidente e para o romance nacional de admitir que a grandeza de país conquistador desses mares nunca antes navegados, foi acompanhada de crime, de barbaridade e de violações. É algo que gostaríamos que ficasse só entre nós, um segredo de família do qual nem vítimas nem culpados falam. Mas é esta a nossa história comum. Como descendente tanto de colonizadores como de colonizados, sinto na pele e na consciência a dualidade do que significa um Crime contra a Humanidade onde somos, enquanto seres humanos, ao mesmo tempo as vítimas e os culpados, os resistentes e os cúmplices, os cobardes e os heróis. Sejamos bravos e encaremos de uma vez por todas “a besta do passado olho no olho” para que “tendo pedido e recebido perdão e tendo feito correções, viremos agora a página — não para esquecê-lo, mas para não deixá-lo aprisionar-nos para sempre. Avancemos em direção a um futuro glorioso de uma nova sociedade em que as pessoas valham não em razão de irrelevâncias biológicas ou de outros estranhos atributos, mas porque são pessoas de valor infinito (…).[1]

[1] Desmond Tutu, Foreword by Chairperson, Truth and Reconciliation Commission of South Africa Report, Vol. I, 1998, pag. 22.

http://www.justice.gov.za/trc/report/finalreport/Volume%201.pdf

Artigo publicado no Lusojornal (www.lusojornal.com) de dia 26 de Abril 2017:

A escravatura

Recomendo:

  • Petição lançada por Pedro Schacht:

UM REGRESSO AO PASSADO EM GORÉE? NÃO EM NOSSO NOME!

Carta Aberta – Artigo DN

  • A intervenção de Miguel Vale de Almeida:

  • O artigo de André Barata:

“Maafa”: o grande desastre

A improvável assimilação

fan-zone-campo-santo-demie-finale_2746366

François Fillon, o improvável, vencedor das primárias da Direita e, provável, próximo Presidente da República Francesa, tem produzido declarações, propostas e promessas que nos dizem particularmente respeito, a nós, estrangeiros, binacionais ou franceses de origem estrangeira em França.

O ex-primeiro ministro de Sarkozy – inspirado, quiçá, pelo ex-patrão – lançou-se igualmente na caça ao “politicamente correto”. Investiu a intrépida missão de apregoar em voz alta o pensamento que o medroso povo dissimula no conforto do seu íntimo. E apossou-se da defesa da “direita descomplexada”, que é como quem diz, adotar as mesmas temáticas e propostas do partido de extrema-direita Front National, sem vergonhas nem embaraços.

Passemos ideias exóticas e inovadoras[i], tais como:

– não se deve ensinar que o passado é fonte de interrogação;

­- o fim das aulas de línguas e cultura de origem (ELCO), sem propor alternativas, e com a infundada justificação que a prioridade deve ser dada ao ensino do Francês, como se a aprendizagem de uma língua invalidasse a outra;

­- a defesa do porte de uniforme como símbolo do respeito e autoridade e como forma de “criar uma verdadeira comunidade” entre os alunos.

Estas medidas, no entanto, já nos dão uma ideia da ideologia da uniformização que habita o íntimo do candidato às Presidenciais. Instrui-nos sobre o facto de Fillon defender que é a uniformidade que faz o coletivo excluindo, desta feita, os benefícios da diversidade.

Esta ideia de harmonia na estrita homogeneidade foi, mais claramente, enunciada quando Fillon propôs reservar o acesso à nacionalidade francesa aos assimilados, restringindo-a no caso de crianças nascidas em França de pais estrangeiros à maioridade do jovem, através de um processo de requisição voluntária de nacionalidade, deixando esta de ser automática, e ainda com a obrigação de responder a certos critérios de assimilação.

Conhecemos bem o termo de “assimilados”, pois nas antigas colónias portuguesas, o “assimilado”, distinto do indígena, era o autóctone que tinha atingido um certo nível de desenvolvimento, segundo critérios “civilizacionais” codificados, e que por isso usufruía de direitos superiores aos seus conterrâneos africanos. Os franceses partilhavam, igualmente, esta visão assimilacionista da relação com as populações colonizadas. A política de uniformização dos valores e culturas era praticada pela França que utilizava o termo de “evolués” para denominar uma certa elite africana, o que não deixa sombra de dúvida sobre a desconsideração pelas populações locais assim que o sentimento de superioridade do colonizador[ii].

As palavras têm a sua importância, e nomeadamente nestas questões, não são neutras. Um termo que foi considerado pejorativo, em grande parte devido a este passado colonial, volta alegremente às luzes da ribalta na boca de François Fillon. Verdade seja dita, o (provável) próximo Presidente da República tem uma visão sui generis da colonização francesa, considera que se deve terminar com contrições e penitências e que a França não tem de pedir desculpas por ter “ambicionado partilhar a sua cultura com os povos de África”, omitindo vergonhosamente a extrema violência física e moral da colonização e nomeadamente da escravatura.

colonisation-fillon

A visão etno-nacionalista de Fillon, de defesa do orgulho em ser francês, de orgulho nas suas origens, na sua História não somente exclui os franceses de origem estrangeira de uma plena pertença à terra que os viu nascer, como entra em contradição com a visão cosmopolita e universalista do Iluminismo, um dos orgulhos históricos franceses. Porém, Fillon demonstrou pouco interesse por essa herança ao defender no seu programa a suspensão da Convenção Europeia dos Direitos Humanos caso as suas proposições entrem em contradição com o Direito Europeu.

Ora, nós estrangeiros, filhos de estrangeiros ou pais de jovens nascidos em França sabemos bem que é possível emocionarmo-nos com a Marseillaise, no início de um jogo de futebol, estando ao mesmo tempo a comer um bom cozido à portuguesa. Nós sabemos que dentro de uma identidade são possíveis várias pertenças, sabemos que um indivíduo não é um ser monolítico e que é a diversidade, a troca com o exterior que nos faz progredir e enriquecer. A assimilação que consiste no abandono, na alteração profunda da sua identidade e especificidades socioculturais de origem é uma degradação de quem somos. A inclusão ou a integração permitem pensar um processo no qual o indivíduo se insere progressivamente na sociedade, guardando as suas particularidades sem que tal seja incompatível com as regras e os valores de República, sem que isso ponha em causa o seu sentimento de comunidade ou de solidariedade com os seus concidadãos.

À luz do programa de François Fillon podemo-nos, ainda, preocupar com o futuro das nossas associações, que poderão ser julgadas de comunitaristas, embora saibamos que as coletividades têm um papel importante na integração dos estrangeiros ou de origem estrangeira, através da promoção à cidadania, pelo sentimento de participação na vida da polis, pela troca com os cidadãos franceses ou de outras comunidades.

Quantos franceses ficaram a conhecer Portugal pela mão de um português de França, o mesmo que dá a conhecer a França à família e amigos em Portugal?

Muito resta a fazer, nomeadamente a luta contra a alienação política dos Portugueses que estão sub-representados nas inscrições nas listas eleitorais. A integração passa de facto por uma responsabilidade partilhada, por um compromisso entre o cidadão e as instituições públicas, mas sobretudo pela construção conjunta de uma comunidade plural e cosmopolita alicerçada em ideais humanistas e não numa forçada aculturação empobrecedora tanto para o indivíduo como para a Nação.

[i] Cf. discurso de Sablé-sur-Sarthe 28/08/2016 e http://www.fillon2017.fr

[ii] Keese, Alexander, Living with Ambiguity: Integrating an African Elite in French and Portuguese Africa, 1930-61, Stuttgart, Franz Steiner, 2007.

Artigo publicado no Luso Jornal de 07/12/2016

http://www.lusojornal.com

lj_improvavel_assimilacao

BE(exit) no!

eu_2459947b

Se houvesse dúvidas, os últimos resultados da execução orçamental acabaram com elas. A solução governativa que pôs termo ao austerismo em Portugal funciona mesmo. E não teria sido possível sem o apoio e a acção determinada do BE. Outros dela participaram, mas importa-me referir expressamente o BE neste post. Contra todo o medo e todas as desgraças que auguraram os mercados e as agências de “rating”, as instituições europeias e, claro, a nossa direita, há hoje mais dignidade e confiança na sociedade portuguesa. Apesar dos muitos e significativos riscos associados à opção, largar a austeridade, devolver poder de consumo digno, é um caminho que funciona. Devemo-lo também ao BE.

À luz deste sucesso quaisquer sanções, multas ou reprimendas de Bruxelas sobre Portugal só podem ser recebidas como um acto de prepotência inaceitável, de que é necessário tirar consequências à altura. Uma dessas consequências é precisamente não deixar de ter a Comissão Europeia à altura da crítica dos governos, dos partidos, dos movimentos e dos cidadãos nacionais. Por exemplo, suscitando, da maneira que for possível, por mais informal que seja, um pedido de demissão da Comissão Europeia. Nas mãos desta, a União Europeia bem pode dar-se por entregue a coveiros. Os mesmos que, diante da saída do Reino Unido, como se nada fosse com eles, exigem que estugue o passo e saia depressa. Os mesmos que, diante da crise dos refugiados, preferem pagar para que a Turquia faça o trabalho sujo.  Continue reading BE(exit) no!

BREXIT: “Projeto Medo” e “Projeto Ódio”, os dois lados da mesma moeda

brexit-1462470589PAaO Brexit foi votado favoravelmente e de forma soberana pelos cidadãos do Reino Unido – Inglaterra  (53% contra a UE), Escócia, Irlanda do Norte e Gibraltar (62%,  58% e 95% a favor da permanência na UE, respetivamente: votações expressivas que poderão, quiçá, conduzir à desagregação do próprio Reino Unido) – e constitui o facto geopolítico mais importante e de maior impacto a ter lugar na Europa desde a queda do muro de Berlim em 1989.

O resultado do referendo – que também deixa bem vincado um fosso geracional: os mais jovens são pró-UE e os mais velhos contra a UE – é, dado o carácter neoliberal, austeritário e antidemocrático desta União Europeia, perfeitamente compreensível e parece ser uma prova da coragem da maioria dos cidadãos britânicos que, perante as pressões vindas de todos os lados e as previsões catastrofistas, se mantiveram firmes na sua milenar postura de ilhéu isolacionista e eurocético. Os britânicos, pelo menos 51,9% deles, resistiram ao “Projeto Medo” construído pela clique eurocrata, a OCDE e o FMI cujas diatribes já destruíram a estrutura social de países como a Grécia ou Portugal.

Todavia, não acreditamos que o resultado do referendo britânico tenha sido apenas o reflexo de uma reação de 51,9% de eleitores sedentos de mais soberania (Portugal, por exemplo, perdeu muito mais instrumentos de soberania do que o Reino Unido) contra as políticas neoliberais do capitalismo selvagem que precarizam e empobrecem os povos do continente. Infelizmente, todos os dados indicam que o Brexit é o fruto de desejos muito menos dignos e altruístas.

Faz, portanto, sentido lançar esta pergunta:

– Quais as principais razões que levaram a maioria dos 51,9% de britânicos a votar pelo Brexit?  Continue reading BREXIT: “Projeto Medo” e “Projeto Ódio”, os dois lados da mesma moeda

Ser ou não ser gay…

Eu, por acaso, não sou lésbica. Digo por acaso porque a orientação sexual de cada um é um dado puramente aleatório e não uma escolha contingente, um atributo hereditário ou uma maldição divina. Mas a causa LGBT é uma causa universal que a todos diz respeito pois convoca, entre outras, questões fundamentais como a igualdade e a liberdade.

François Hollande, em reação ao ataque de Orlando da semana passada, que custou a vida a quarenta e nove pessoas numa discoteca gay, tweetou a seguinte frase “A terrível matança homófoba de Orlando agrediu a América e a liberdade. A liberdade de escolher a sua orientação sexual e o seu modo de vida.” Prontamente, um zeloso conselheiro avisou a Presidência francesa que “ai espera lá, que isto de ser gay não é uma questão de escolha!”. O Presidente foi sensível aos argumentos e modificou o comunicado. É preciso saber que, num primeiro tweet, Hollande tinha olvidado de mencionar o caráter homofóbico do ataque e só à terceira tentativa, após ter escorregado no segundo tweet, é que acertou com a mensagem.

Em Portugal, António Costa, foi aplaudido pelo seu tweet, pois ao contrário de outros líderes políticos mundiais, inclusive o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o Primeiro-ministro fez de imediato, sem ambiguidades, referência ao caráter homofóbico do massacre: “A homofobia feriu de morte a liberdade, em Orlando e no mundo. Ser livre também é poder escolher quem se ama. A liberdade vencerá o ódio.” E no entanto, encontramos aqui de novo, a problemática da escolha. Ora, a questão central da liberdade, no que à orientação sexual diz respeito, não é propriamente a de poder escolher quem se ama, mas a de se poder ser quem se é. Estamos perante uma profunda questão de identidade e não de contextuais preferências. E é precisamente nesta questão da identidade que poderemos, porventura, encontrar uma das respostas possíveis à questão colocada por várias vozes mediáticas, nomeadamente a do Daniel Oliveira num artigo do Expresso, de dia 14 de junho, “Eu fui Charlie e não sou gay?   Continue reading Ser ou não ser gay…

CONVERGÊNCIA(S) E DIVERGÊNCIA(S) DE ESQUERDA